Entrevista
com Teresa Martins Marques, 5 de junho de 2026
Entrevistadora: Diaconu Andreea-Iulia
Por
que razão quis fazer uma releitura do mito de Don Juan?
Teresa
Martins Marques: As mulheres do século XXI não são as
do século XVII, no tempo de Tirso de Molina.
Se a coutada de caça mudou, o caçador muda também e Don Juan foi
obrigado a mudar de estratégias de conquista. Este tema constitui um constante
desafio para autores e académicos. E o que há de melhor do que desafiar Don
Juan e julgá-lo, na praça pública de uma rede social?
O romance começou por ser publicado na minha página pessoal do Facebook,
durante 28 sábados, entre Outubro de 2012 e Maio de 2013. Saiu depois em livro,
em Dezembro de 2013. A interacção com os leitores foi permanente, não apenas
para transmitir opinião, mas também para dar sugestões de continuidade da
história, com garantia de resposta quase imediata, em tempo real.
Nas
redes sociais toda a gente sabe o que significa ser um don Juan,
coleccionador de experiêncas amorosas ou pseudo-amorosas. Mas pouca gente sabe
que Don Juan é um personagem literário,
surgido em El Burlador de Sevilla Y Convidado de Piedra, obra escrita em 1630, por um frade espanhol, Gabriel Téllez, que usava
o pseudónimo de Tirso de Molina, nascido em 24 de Março de 1579 e falecido em
1648. Estamos, portanto, a falar de um mito literário que tem 396 anos.
Todavia, a história de Don Juan rapidamente se autonomizou, relativamente ao
texto fundador, e tem vindo a passar de obra em obra, como se pertencesse a
todos e a ninguém. Nesta v característica, reconhecemos um traço do mito, isto
é, o anonimato ligado à sua capacidade de persistir no inconsciente colectivo,
mito sempre pronto a ressurgir e a sofrer alterações que lhe conferem
plasticidade. [1]
Alguns
dos nomes fundamentais que ficariam ligados a este mito são: Don Juan ou Le Festin de Pierre (1665),
de Molière; Don Juan Tenório, Osia il
Dissoluto (1736) de Goldoni; Les
Liaisons Dangereuses (1782) de Laclos; Don
Giovanni (1787) de Mozart / Da Ponte; Don
Juan (1819-1824) de Lord Byron; Don Juan Tenorio (1844) de Zorrilla; O
poema de Baudelaire «Don Juan aux enfers» (Les
Fleurs du Mal - 1857); Man and
Superman (1903) de George Bernard Show; Les
Exploits d’un Jeune Don Juan (1911) de Guillaume Apolinnaire; La dernière Nuit de Don Juan (1921)
poema dramático de Edmond Rostand; Supplément
à Don Juan (1831) de Colette; Le
Mythe de Sisyphe (1942) de Camus; Don
Juan ou la Mort Qui Fait le Trottoir (1958) de Henry de Montherlant; Terra
Nostra (1975) de Carlos Fuentes.
Alguns,
entre os portugueses: A Ondina do Lago
(1864) de Teófilo Braga; A Morte de D. João (1874) de Guerra
Junqueiro; O Último D. João de
Guilherme de Azevedo (poesia-1874); o poema «A Última fase da vida de D. Juan»
de Gomes Leal, inserto em Claridades do Sul (1875), O poema «D.
João» (1906) de Silva Gaio; A Alma de D.
João (1918) de Rui Chianca; poema «D. João» (1920) de João de Barros. A
fábula trágica D. João e a Máscara
(1924) de António Patrício (a
obra-prima portuguesa dentro desta temática); a peça D. João Tenório (1920) de Júlio Dantas; O Castigo de D. João (1948) de Urbano da Palma Rodrigues; Um Amor Feliz (1986) de David Mourão-Ferreira;
O Conquistador (1990) de Almeida
Faria. Outros poderíamos ainda referir, mas para não alongar mais a lista cito,
por último, um João de Távora, que encontramos em Partes de África (1991) de Helder Macedo.
Entrevistadora: Por
que escolheu a figura de Don Juan como ponto central do romance?
Teresa
Martins Marques: A característica principal do que
chamamos donjuanismo, é uma forte compulsão para a sedução, seguida de
desinteresse e abandono, da parte do sedutor, após a conquista. O desafio é
altamente mobilizador para Don Juan, fazendo apostas sobre a conquista.
Don
Juan revela uma extraordinária facilidade para perceber e atender os gostos e
fraquezas das seduzidas e por isso aparece aos olhos destas como o mais
compreensivo e inteligente dos homens, em suma o prince charmant. Na realidade não passa de um anarquista do amor e
do sexo. O cerne do romance são os comportamentos donjuanescos, mostrando
o poder da sedução, as manhas e
estratégias de caça, mas também os aspectos que
esse avesso esconde tais
como narcisismo primário, mentira e dissimulação, recalcamento
homofóbico e ressabiamento social. Procurei focar a recuperação das
seduzidas, ao tomarem consciência da sua condição de vítimas, deixando de ser,
indirectamente, cúmplices. Procurando ilustrar problemas actuais através de
personagens com um máximo de efeito de real, focaram-se temas como a violência
doméstica exercida sobre as mulheres, mas também por mulheres sobre os homens e
sobre outras mulheres, quer ao nível físico que vai dos maus tratos à violação
e ao assassinato, em todas as classes sociais. Chamei a atenção para a
violência nas relações intra-familiares, patenteadas quer como abandono, ciúme
e ansiedade da influência. Combati fortemente os preconceitos sobre a homossexualidade,
traduzidos em homofobia. Procurei mostrar os bas-fonds da prostituição, do proxenetismo, do tráfico de drogas,
do crime organizado, colocando em cena o comissário Paulo, um polícia sério e
arguto.
No
meio deste pântano de afectos negativos, procurei, por efeito contrastante,
transmitir esperança através de algumas personagens luminosas como a psicóloga
Lúcia, a mulher generosa que se desmultiplica em solidariedade com os outros,
como forma de sublimação de um passado muito infeliz, sem nunca se vitimizar.
Entrevistadora: Em
que medida considera que o donjuanismo ainda existe hoje em dia, sob outras
formas?
Teresa
Martins Marques: Desde logo, o donjunismo funciona
como um biombo para narcisistas malignos e sociopatas (homens e mulheres)
conseguirem apanhar as vítimas. Amaro
Frois, cirurgião plástico indo frontalmente contra a vontade da sua mulher
Sara, proibira-a de engravidar, com desculpa de ela ser a montra da clínica de estética, mas a verdade profunda é
outra: homem ressabiado, vindo de uma família disfuncional, através da rejeição
do filho que impediu de nascer vingava-se da rejeição do seu pai .
Este homem todo poderoso não hesitou perante o
crime. Tentou assassinar a mulher para se tornar seu herdeiro. Viu, porém, os
pérfidos planos gorados, graças à
intervenção da mais humilde das criaturas - o seu chauffeur - bem como de uma adorável velhinha, funcionando estes
personagens como símbolos de coragem dedicação e ternura.
Entrevistadora: Qual
tema considera mais importante na economia do romance: a sedução, o jogo de
poder ou a manipulação?
Teresa
Martins Marques: Estes temas estão todos interligados
no romance. O tema fundamental é mostrar os bastidores do donjuanismo. Na sua
versão masculina existe frequentemente
um complexo de Édipo, não resolvido. A volubilidade indicia imaturidade
afectiva, medo de assumir compromissos próprios da adultícia, somada à ausência
de culpa e de remorso. Apesar da compulsão à sedução, tal não significa que o
seu desempenho sexual seja digno de nota. Don Juan não é um artista do sexo, é
um artista da palavra. Logo que a vítima se apaixona desinteressa-se, podendo
até dispensar a relação sexual. Por outro lado, se a interlocutora não cede
à sedução, obstina-se, podendo tornar-se violento, alimentando a ferida
narcísica que a rejeição lhe provoca. Hábil a teatralizar as relações,
representa camaleonicamente os papéis que lhe facilitam a sedução. Não sente
afecto por ninguém a não ser por si mesmo. Sendo que o afecto pelo outro define
a identidade, Don Juan-Narciso é uma máscara ambulante, um lugar vazio.
Denis de Rougemont em Les Mythes de L’Amour (1961)[2]
revela uma interessante perspectiva sobre o déficit
identitário de Don Juan. Ele seria o homem que não pode amar, porque amar é,
antes de mais, escolher. Para escolher é preciso ser e Don Juan não é,
possuindo uma identidade alienada, construída em projecção no olhar das
mulheres.
Entre
os teóricos do donjuanismo, ocupa lugar de destaque Gregório Marañon, com a
obra Don Juan, Ensayo sobre la Leyenda,
de 1940. Este médico[3]
considera D. Juan um personagem escassamente viril, indo contra a ideia popular
e até erudita que a ele se associa. O que caracteriza, fundamentalmente, D.
Juan é a variância, a relatividade de cada experiência e o conhecimento
dependente do olhar de cada mulher, que na sua diversidade constituem alvos
sempre em movimento, como se, por absurdo, se procurasse, pela variância, um
ideal de fixidez. Don Juan simboliza o próprio relativismo da experiência
amorosa o não-ser, como apontou
Rougemont, e um não-estar em parte
alguma, a não ser em trânsito, experiência precária como uma inscrição na água
e no vento, fluxo e refluxo, vaivém constante de inconstância.
Sendo arte da palavra, a conquista donjuanesca
não prescinde de um savoir faire, que
pode dispersar o sexo, depois de o objectivo ter sido alcançado, isto é, após
ter colocado a seduzida na sua esfera de influência, através do jogo mental de
poder.
A
insatisfação e bulimia do sexo, implica compulsividade e dependência, como as
drogas, o álcool, o jogo, entrando na chaveta dos comportamentos aditivos.
Satíriase e ninfomania não se aproximam do ideal donjuanesco da conquista
“amorosa”.[4]
Estima-se que estes adictos sexuais podem prevalecer na população com valores à
volta de 5%.
Entrevistadora: Queria
desmistificar a figura do sedutor clássico ou reinventá-la?
Teresa
Martins Marques: Queria mostrar que, no fundo, Don
Juan não é o que parece ser à superfície. Aceita-se hoje que o donjuanismo pode
ser uma camuflagem de homossexualidade recalcada. Tratando-se de uma questão
complexa, e querendo discuti-la teoricamente dentro do entrecho ficcional,
coloquei uma jovem doutoranda a preparar uma tese sobre o Diário do Sedutor de Kierkegaard, que fecha Enter-Eller
(1844), obra na qual Don Juan faz a sua entrada no universo da filosofia.
A
minha personagem doutoranda, Manuela, debate o estado dos trabalhos da
tese com a tia, uma psicóloga,
professora do ISPA, fazendo passar, através do diálogo, a teoria que sustenta a
acção. A jovem identifica o conteúdo
latente e manifesto de homossexualidade neste Diário, na linha que mais tarde virá a seguir H. Kaplan[5].
Heterossexual compulsivo, Don Juan acumularia aventuras para se afastar do
objecto do seu desejo: outro homem. Kaplan considera que, seduzindo a mulher de
outro, Don Juan estaria inconscientemente a relacionar-se com o marido, motivo
maior de seu prazer, sendo a seduzida a ponte entre eles.
Sandór Ferenczi publica, em 1922, Le Symbolisme do Pont et la Légende de Don
Juan, metaforizando fantasmas
edipianos e homossexuais: Entre Don Juan que passa na margem esquerda do rio
com um cigarro apagado na boca, e o diabo que fuma na margem direita, faz-se
uma ponte sobre a água negra, que vai permitir acender o cigarro de Don Juan.
Edipianismo, homossexualidade latente seriam as linhas de força do mito, visto
da perspectiva de Ferenczi. Ainda na mesma linha, a disputa com outros
homens-ponte fará dizer ao Don Juan de Carlos Fuentes: "Nenhuma
mulher me interessa se não tiver um amante, marido, confessor ou Deus, ao qual
pertença ...". O cigarro e a ponte são metaforizações interessantes que
poderão servir para lançar um olhar no
conteúdo latente d’ A Confissão de Lúcio de
Mário de Sá-Carneiro.
Usando
a metáfora erótica do cigarro de Ferenczi, dir-se-ia que ninguém fuma um
cigarro duas vezes. A peça de caça tem interesse enquanto está viva e pode
eventualmente fugir. Logo que é caçada, o objectivo foi atingido, atira-se
morta para o lado, ou empalha-lhe como troféu e passa-se a nova presa.
Entrevistadora: Cada
personagem masculino parece carregar consigo um fardo emocional repleto de
frustrações e traumas. Acha que estas são as razões para a vulnerabilidade do
homem?
Teresa
Martins Marques: A fragilidade masculina é
particularmente evidente em Manaças que é gay, mas não sabe que o é, e por isso
mostra-se homofóbico. O romance teoriza
os bastidores da homofobia através da
personagem Manuela, que com o já referi faz uma tese sobre o Diário do Sedutor de
Kierkegaard onde mostra o homoerotismo
camuflado. Vejamos o que diz Johannes, na última reflexão do Diário do Sedutor:
«Porque não pode
uma noite como esta durar mais tempo? Mas agora já passou e desejo nunca mais a
ver. Quando uma rapariga entregou tudo, enfraquece, perdeu tudo. Agora toda a
resistência é impossível e, enquanto ela existe, é belo amar; quando cessa resta
fraqueza e hábito. Não desejo que me lembrem a minha relação com ela; perdeu a
fragrância; Não quero despedir-me dela, nada me repugna mais do que choro de
mulher e súplicas de mulher, que tudo modificam, não tendo, porém, propriamente
nada para significar. Amei-a; mas, a partir de agora, já não constitui ocupação
para a minha alma. Se eu fosse um deus, faria com ela o que Neptuno fez com a
ninfa: transformava-a em homem.»
Mas
há uma particularidade muito interessante na última frase do discurso do
sedutor:
“Se eu fosse um deus, faria com ela o que Neptuno fez com a ninfa:
transformava-a em homem”.
A ninfa a que se alude é Cénis, que foi
transformada por Posídon em Ceneu, o homem por quem ela se tinha
apaixonado. Este desejo expresso pelo
sedutor de mudar o sexo da amada, em processo fusional de assimilação, é bem
significativo do recôndito desejo do sedutor. Ao fazer este coleccionismo
desmesurado, mostrando um cinismo sem
limites, mais não faz do que camuflar a sua insatisfação de que a mulher
não possa ser transformada em
homem. Como a ninfa Cénis. O
verdadeiro objecto do desejo é outro homem: o
namorado da jovem seduzida, sendo ela a ponte entre ambos. Esta a razão
por que o sedutor só deseja jovens que tenham um namorado.
Ainda
aqui a eleita paga caro a ilusão
narcísica da “única” que na realidade é pluríma, conforme é encarada por Don
Juan, serial killer do afecto.
Cordélia, a heroína do Diário do Sedutor
de Kierkegaard pagou cara a
dependência de Johannes
e é patética a forma como se anula a si mesma, ao escrever-lhe:
“Foge para onde quiseres, sou porém tua,
arrasta-te até aos extremos confins do mundo, sou porém tua, ama centenas de
outras mulheres sou porém tua, sim, até na hora da morte, sou tua. Até a língua
que uso contra ti tem de demonstrar-te que sou tua. Tiveste a ousadia de
enganar uma pessoa de tal modo que te tornaste tudo para mim, então queria eu
colocar toda a minha alegria em ser tua escrava, sou a tua, a tua, a tua
maldição. Tua Cordélia”[6]
A
relação estabelecida entre Cordelia e Johannes não é uma relação de amor. Da
parte de Cordelia é uma forma de dependência, demonstração incondicional de
servidão. Quando declara o que ela entende por amor, mais não faz do que
assumir-se como patética escrava. Afinal o amado, mereça ou não mereça, é
amado, porque sim. Então não é o amado que é importante, já que não é
importante que ele tenha defeitos ou virtudes. O que é importante é
transformá-lo em objecto de amor. Donde se conclui que esta forma de dependência
incondicional é uma relação de fundo narcísico, uma relação de amor-próprio,
camuflada por um discurso de amor pelo outro.
Entrevistadora: O
que é que Sara Dornelas simboliza para si?
Teresa
Martins Marques: Sara é a típica mulher seduzida. E
que características costumam apresentar as mulheres seduzidas por estas
borboletas que pousam de flor em flor? A característica mais comum é a
ingenuidade e a credulidade, não raro associada a um carácter sonhador, com uma
ligação forte à figura paterna, ou seja um quadro psicológico que as faz
acreditar no príncipe encantado, sendo facilmente dominadas pelo poder opiáceo da palavra. Essa
crença na palavra (não) dada é uma questão de fé, que não discutem, nem colocam
em dúvida, pelo menos na fase da sedução. Outras há que, conhecendo a variância
do sedutor, vêem-se a si mesmas como eleitas
que hão-de convertê-lo à fidelidade. A eleita
acredita que ela e só ela detém o poder de fixar a borboleta, ela e só ela possui o néctar salvífico, sendo esta uma
atitude de cunho narcisista que empurrada pelo amor-próprio, provoca despique,
sobretudo se houver outra concorrente em jogo, caindo na cilada da dependência
e do masoquismo: sofrer pelo amado, sofrer pela conquista do amado, fechando os
olhos para o resto do mundo, pode tornar-se um programa de vida que conduz em
linha recta para o inferno.
Entrevistadora: A
Joana é uma personagem feminina que reproduz os mecanismos da sedução tóxica.
Foi importante para si mostrar que este tipo de comportamento não é exclusivo
dos homens?
Teresa
Martins Marques: Sim, Don Juan é também uma mulher e
não apenas no século XX e XXI. Pensemos, por exemplo no duo das perversas
personagens de Pierre Choderlos de Laclos em Les Liaisons Dangereuses (1782).
Não é apenas Valmont que é Don Juan. Madame Merteuil é igualmente uma hábil e
perigosa trapaceira da conquista amorosa.
Joana, e não por acaso se chama Joana, é uma
artista da manipulação, do desprezo para com o sentimentos alheios, em relação
à mãe, aos companheiros Luís e Manaças. O seu padrão comportamental é um
transtorno de personalidade que se caracteriza pela posse, desregulação
emocional, raciocínio extremista, relações caóticas.
Joana
tem complexos relativamente à mãe e quer
chocá-la, através das escolhas que faz. A versão da “mãe terrível” contada pela filha Joana é o contrário da
realidade. É a versão conveniente,
mostrando-a como controladora, prepotente, castradora, que só se preocupa com
os outros, que abandona a filha, coitadinha, pobre menina carente e indefesa!
Mãe boazinha para as outras, para ela megera que, todavia, a sustentava,
alimentava, vestia e calçava até ao momento em que passou esse encargo para
Luís, o marido conveniente.
Joana é uma agente dupla encartada. Ao marido
dizia que a mãe era castradora, dura, orgulhosa e fria. À mãe dizia que o
marido era um homem fraco, monótono, um banana.
Entrevistadora: A
que personagem se afeiçoou mais durante o processo de escrita?
Teresa
Martins Marques: Lúcia, a mãe de Joana é uma figura
protectora, mas que precisa de se libertar da grilheta da maternidade, porque
ser mãe não é ser escrava da filha. Ser mãe não é deixar-se anular. Ser mãe não
é ser vítima. A psicóloga é a directora de uma casa-abrigo da APAV, que
recolhe vítimas de várias classes
sociais, irmanadas pela infelicidade e mostrando que a violência é transversal à sociedade e que a mulher mais
rica do Porto era a mais pobre de afecto
e de auto-estima. Lúcia pensou
como seria fácil para outra mãe que não ela, ceder aos jogos da culpa,
coitadinha da menina, criada sem pai, e cair na esparrela de lhe fazer as
vontades! As mães e os pais que estão sempre ali, incondicionalmente, esquecem
que o amor tem dois sentidos. Não basta amarmos, precisamos de ser amados. Se
apenas uma das partes ama, a outra domina a relação. O afecto tanto se desgasta
entre casais como entre pais e filhos. É muito mais fácil dizer sim do que
dizer não. Quando se criam reis dentro de casa criam-se relações de poder.
Entrevistadora: Quem
é que realmente “derrota” Don Juan?
Teresa
Martins Marques: A derrota de Don Juan é a tomada de
consciência do que é o donjuanismo. Gertrudes matou Amaro. Sara venceu-o
enfrentando Amaro. Lúcia venceu-o
criando uma rede de protecção às mulheres.
Manuela venceu-o fazendo a tese sobre O Diário do Sedutor. E além destas mulheres até mesmo um homem
venceu Don Juan… Manaças venceu-o dentro
de si, vencendo o preconceito homofóbico, aceitando a relação com Juanito, aceitando a sua própria
homossexualidade, que estava latente na sua homofobia.
Entrevistadora: Considera
a sedução uma forma de poder ou de solidão?
Teresa
Martins Marques: Uma clara forma de solidão, na
procura incessante, sem fim à vista, a não ser na velhice, quando o sexo começa
a falhar. Don Juan aposentado é uma figura patética. A velhice é o verdadeiro
castigo de Don Juan, quando as armas da sedução falham. O comprimido azul é o céu de Don Juan já
velho, mas rapidamente este céu fica nublado pelos efeitos colaterais
cardíacos, que muitas vezes vêm colocar
o ponto final na desenfreada corrida,
que foi a sua vida.
Entrevistadora:
O que espera que fique na memória do leitor depois da última página?
Teresa
Martins Marques: Espero que fiquem as páginas em que
denuncio a violência doméstica que nasce de querer forçar alguém a ser o que
não é, ou a continuar uma relação que já acabou. As relações são bem sucedidas
a médio e longo prazo quando as personalidades são adequadas. Coloquem uma
mulher extrovertida e espampanante com um homem tímido. Uma mulher aventureira com um homem
conservador. Um homem que não gosta de sair de casa, com uma mulher que só
gosta de passear. Uma mulher gastadora com um homem avarento. Dificilmente se aguentam, por mais que se amem. O amor
romântico parte logo de um princípio errado
de que o amor é eterno. As pessoas mudam, as relações mudam. No quadro
do amor romântico, as pessoas acreditam que não estão completas sem a pessoa
amada. É a história da metade da laranja… Mas as pessoas são saladas de fruta!
Luís
cometeu o erro evidente de pôr o sexo à frente do amor. Sara cometeu o erro de
atribuir papéis a pessoas que não podiam desempenhá-los e acreditou no mito do
amor romântico. Percebendo os erros, não voltam a repeti-los. Luís pensava que o sexo com a Joana era uma gincana, que
aos poucos deixou de o interessar. Sara pensava na violência do sexo com Amaro,
o homem violento que não sabia amar.
O
assédio consiste em forçar alguém a ser o que não quer ser. A violência, nas
relações interpessoais, é sempre uma questão de falta de inteligência. A
violência é o argumento de quem não tem argumentos. Ninguém tem o direito de impor o amor, a
paixão. Perseguir, seduzir, assediar,
são atentados à liberdade. Uma pessoa verdadeiramente inteligente está disposta
a ouvir a outra parte. Para explicar a sua posição, é preciso dialogar,
argumentar, mostrar a justeza das suas razões. A importância de ouvir é fundamental
para captar o argumento contrário e poder rebatê-lo, sem perder a lógica. Se os
dois contendores forem inteligentes a discussão não se prolonga, porque um
deles convence o outro. O problema começa quando um deles não é inteligente,
não percebe a argumentação, e constrói falácias argumentativas e começa a
irritar-se. Nesse caso a pessoa mais inteligente e sensata percebe que já
esgotou os argumentos e a discussão termina.
Quer isto dizer que são os menos inteligentes que ficam a ganhar? Nem
por sombras! Não quer dizer que noutro
momento não volte a tentar persuadir a outra parte, mas percebe claramente que
naquele momento não vale a pena. É assim que procedem as pessoas inteligentes.
A violência num casal é o argumento de quem já não tem argumentos. A cabeça
deixa de raciocinar e é dominada pela raiva, pelo despeito. A violência é
sempre uma forma de capitulação. A violência num casal é o sintoma de uma falha
primordial, uma fissura que não raro revela a insegurança e a fraqueza de quem
a pratica. A violência física do forte sobre o “fraco” está nos antípodas da
virilidade e de uma masculinidade sadia.
É, verdadeiramente, apanágio dos fracos !
O mundo
em que vivemos está cheio de sexo, mas falta-lhe erotismo. Uma relação funciona
a longo prazo se o amor for confluente - dois seres que se adequam e se
compreendem que olham na mesma direcção.
Não existe um amor único obsessivo e verdadeiro. A verdade são muitas varetas de um leque invisível de pontos de
vista. Esta ideia é que vence Don Juan!
[1]
Jean Rousset, Le Mithe de Don Juan,
Paris, Armand Colin, 1976, pp. 6-7.
[2] Denis de Rougemont, Les Mythes de L’Amour, Paris, Galimmard,
1967, pp.115
[3]
Gregório Marañon, que se destacou na então nascente endocrinologia, foi
o único médico espanhol que conheceu pessoalmente Freud, em casa da sobrinha
bisneta de Napoleão - Marie Bonaparte (1882-1962).
[4]
Cf. Eli Coleman, director do
Programa de Sexualidade da Fac. de Medicina da Univ de Minesotta e a sua
equipa, que desde finais dos anos 80 vêm publicando sobre o assunto: «Sexual
Compulsivity: Definition, Etiology and Treatment Considerations.» In
ELI COLEMAN (ed.) Chemical Dependency and
Intimacy Dysfunction. Routledge,
1988.
[5] Kaplan H, Sadock B, Grebb
J - Sinopse de Psiquiatria, Koogan, 4ª ed. 1994.
[6]
Soren Kierkegaard, Enten – Eller. Et
Livs-fragment. Forste Deel (1844). Ou –
Ou. Um Fragmento de Vida. Primeira Parte. Tradução do dinamarquês,
Introdução e Notas de Elisabete M. de Sousa, Lisboa, Relógio D’Água Editores,
2013, p. 346.

