28/08/2026

Entrevista sobre A MULHER QUE VENCEU DON JUAN

 

Entrevista com Teresa Martins Marques, 5 de junho de 2026

          

Entrevistadora:  Diaconu Andreea-Iulia

Por que razão quis fazer uma releitura do mito de Don Juan?

Teresa Martins Marques: As mulheres do século XXI não são as do século XVII, no tempo de Tirso de Molina.  Se a coutada de caça mudou, o caçador muda também e Don Juan foi obrigado a mudar de estratégias de conquista. Este tema constitui um constante desafio para autores e académicos. E o que há de melhor do que desafiar Don Juan e julgá-lo, na praça pública de uma rede social?

 O romance começou por ser publicado na minha página pessoal do Facebook, durante 28 sábados, entre Outubro de 2012 e Maio de 2013. Saiu depois em livro, em Dezembro de 2013. A interacção com os leitores foi permanente, não apenas para transmitir opinião, mas também para dar sugestões de continuidade da história, com garantia de resposta quase imediata, em tempo real.

Nas redes sociais toda a gente sabe o que significa ser um don Juan, coleccionador de experiêncas amorosas ou pseudo-amorosas. Mas pouca gente sabe que  Don Juan é um personagem literário, surgido em  El Burlador de Sevilla Y Convidado de Piedra, obra escrita em 1630, por um frade espanhol, Gabriel Téllez, que usava o pseudónimo de Tirso de Molina, nascido em 24 de Março de 1579 e falecido em 1648. Estamos, portanto, a falar de um mito literário que tem 396 anos. Todavia, a história de Don Juan rapidamente se autonomizou, relativamente ao texto fundador, e tem vindo a passar de obra em obra, como se pertencesse a todos e a ninguém. Nesta v característica, reconhecemos um traço do mito, isto é, o anonimato ligado à sua capacidade de persistir no inconsciente colectivo, mito sempre pronto a ressurgir e a sofrer alterações que lhe conferem plasticidade. [1]

Alguns dos nomes fundamentais que ficariam ligados a este mito são: Don Juan ou Le Festin de Pierre (1665), de Molière; Don Juan Tenório, Osia il Dissoluto (1736) de Goldoni; Les Liaisons Dangereuses (1782) de Laclos; Don Giovanni (1787) de Mozart / Da Ponte; Don Juan (1819-1824) de Lord Byron; Don Juan Tenorio (1844) de Zorrilla; O poema de Baudelaire «Don Juan aux enfers» (Les Fleurs du Mal - 1857); Man and Superman (1903) de George Bernard Show; Les Exploits d’un Jeune Don Juan (1911) de Guillaume Apolinnaire; La dernière Nuit de Don Juan (1921) poema dramático de Edmond Rostand; Supplément à Don Juan (1831) de Colette; Le Mythe de Sisyphe (1942) de Camus; Don Juan ou la Mort Qui Fait le Trottoir (1958) de Henry de Montherlant; Terra Nostra (1975) de Carlos Fuentes.

Alguns, entre os portugueses: A Ondina do Lago (1864) de Teófilo Braga; A Morte de D. João (1874) de Guerra Junqueiro; O Último D. João de Guilherme de Azevedo (poesia-1874); o poema «A Última fase da vida de D. Juan» de Gomes Leal, inserto em Claridades do Sul (1875), O poema «D. João» (1906) de Silva Gaio; A Alma de D. João (1918) de Rui Chianca; poema «D. João» (1920) de João de Barros. A fábula trágica D. João e a Máscara (1924) de António Patrício (a obra-prima portuguesa dentro desta temática); a peça D. João Tenório (1920) de Júlio Dantas; O Castigo de D. João (1948) de Urbano da Palma Rodrigues; Um Amor Feliz (1986) de David Mourão-Ferreira; O Conquistador (1990) de Almeida Faria. Outros poderíamos ainda referir, mas para não alongar mais a lista cito, por último, um João de Távora, que encontramos em Partes de África (1991) de Helder Macedo.

 

Entrevistadora: Por que escolheu a figura de Don Juan como ponto central do romance?

Teresa Martins Marques: A característica principal do que chamamos  donjuanismo, é uma forte compulsão para a sedução, seguida de desinteresse e abandono, da parte do sedutor, após a conquista. O desafio é altamente mobilizador para Don Juan, fazendo apostas sobre a conquista.

Don Juan revela uma extraordinária facilidade para perceber e atender os gostos e fraquezas das seduzidas e por isso aparece aos olhos destas como o mais compreensivo e inteligente dos homens, em suma o prince charmant. Na realidade não passa de um anarquista do amor e do sexo. O cerne do romance são os comportamentos donjuanescos, mostrando o  poder da sedução, as manhas e estratégias de caça, mas também os aspectos que  esse  avesso esconde tais como  narcisismo primário,  mentira e dissimulação,  recalcamento  homofóbico e ressabiamento social. Procurei focar a recuperação das seduzidas, ao tomarem consciência da sua condição de vítimas, deixando de ser, indirectamente, cúmplices. Procurando ilustrar problemas actuais através de personagens com um máximo de efeito de real, focaram-se temas como a violência doméstica exercida sobre as mulheres, mas também por mulheres sobre os homens e sobre outras mulheres, quer ao nível físico que vai dos maus tratos à violação e ao assassinato, em todas as classes sociais. Chamei a atenção para a violência nas relações intra-familiares, patenteadas quer como abandono, ciúme e ansiedade da influência. Combati fortemente os  preconceitos sobre a homossexualidade, traduzidos em homofobia. Procurei mostrar os bas-fonds da prostituição, do proxenetismo, do tráfico de drogas, do crime organizado, colocando em cena o comissário Paulo, um polícia sério e arguto.

No meio deste pântano de afectos negativos, procurei, por efeito contrastante, transmitir esperança através de algumas personagens luminosas como a psicóloga Lúcia, a mulher generosa que se desmultiplica em solidariedade com os outros, como forma de sublimação de um passado muito infeliz, sem nunca se vitimizar.

 

Entrevistadora: Em que medida considera que o donjuanismo ainda existe hoje em dia, sob outras formas?

Teresa Martins Marques: Desde logo, o donjunismo funciona como um biombo para narcisistas malignos e sociopatas (homens e mulheres) conseguirem  apanhar as vítimas. Amaro Frois, cirurgião plástico indo frontalmente contra a vontade da sua mulher Sara, proibira-a de engravidar, com desculpa de ela ser a montra da  clínica de estética, mas a verdade profunda é outra: homem ressabiado, vindo de uma família disfuncional, através da rejeição do filho que impediu de nascer vingava-se da rejeição do seu  pai .

 Este homem todo poderoso não hesitou perante o crime. Tentou assassinar a mulher para se tornar seu herdeiro. Viu, porém, os pérfidos  planos gorados, graças à intervenção da mais humilde das criaturas - o seu chauffeur - bem como de uma adorável velhinha, funcionando estes personagens como símbolos de coragem dedicação e ternura.

 

Entrevistadora: Qual tema considera mais importante na economia do romance: a sedução, o jogo de poder ou a manipulação?

Teresa Martins Marques: Estes temas estão todos interligados no romance. O tema fundamental é mostrar os bastidores do donjuanismo. Na sua versão  masculina existe frequentemente um complexo de Édipo, não resolvido. A volubilidade indicia imaturidade afectiva, medo de assumir compromissos próprios da adultícia, somada à ausência de culpa e de remorso. Apesar da compulsão à sedução, tal não significa que o seu desempenho sexual seja digno de nota. Don Juan não é um artista do sexo, é um artista da palavra. Logo que a vítima se apaixona desinteressa-se, podendo até dispensar a relação sexual. Por outro lado, se a interlocutora não cede à sedução, obstina-se, podendo tornar-se violento, alimentando a ferida narcísica que a rejeição lhe provoca. Hábil a teatralizar as relações, representa camaleonicamente os papéis que lhe facilitam a sedução. Não sente afecto por ninguém a não ser por si mesmo. Sendo que o afecto pelo outro define a identidade, Don Juan-Narciso é uma máscara ambulante, um lugar vazio.

 Denis de Rougemont em Les Mythes de L’Amour (1961)[2] revela uma interessante perspectiva sobre o déficit identitário de Don Juan. Ele seria o homem que não pode amar, porque amar é, antes de mais, escolher. Para escolher é preciso ser e Don Juan não é, possuindo uma identidade alienada, construída em projecção no olhar das mulheres.

Entre os teóricos do donjuanismo, ocupa lugar de destaque Gregório Marañon, com a obra Don Juan, Ensayo sobre la Leyenda, de 1940. Este médico[3] considera D. Juan um personagem escassamente viril, indo contra a ideia popular e até erudita que a ele se associa. O que caracteriza, fundamentalmente, D. Juan é a variância, a relatividade de cada experiência e o conhecimento dependente do olhar de cada mulher, que na sua diversidade constituem alvos sempre em movimento, como se, por absurdo, se procurasse, pela variância, um ideal de fixidez. Don Juan simboliza o próprio relativismo da experiência amorosa o não-ser, como apontou Rougemont, e um não-estar em parte alguma, a não ser em trânsito, experiência precária como uma inscrição na água e no vento, fluxo e refluxo, vaivém constante de inconstância.

 Sendo arte da palavra, a conquista donjuanesca não prescinde de um savoir faire, que pode dispersar o sexo, depois de o objectivo ter sido alcançado, isto é, após ter colocado a seduzida na sua esfera de influência, através do jogo mental de poder.

A insatisfação e bulimia do sexo, implica compulsividade e dependência, como as drogas, o álcool, o jogo, entrando na chaveta dos comportamentos aditivos. Satíriase e ninfomania não se aproximam do ideal donjuanesco da conquista “amorosa”.[4] Estima-se que estes adictos sexuais podem prevalecer na população com valores à volta de 5%.

 

Entrevistadora: Queria desmistificar a figura do sedutor clássico ou reinventá-la?

Teresa Martins Marques: Queria mostrar que, no fundo, Don Juan não é o que parece ser à superfície. Aceita-se hoje que o donjuanismo pode ser uma camuflagem de homossexualidade recalcada. Tratando-se de uma questão complexa, e querendo discuti-la teoricamente dentro do entrecho ficcional, coloquei uma jovem doutoranda a preparar uma tese sobre o Diário do Sedutor de Kierkegaard, que fecha  Enter-Eller (1844), obra na qual Don Juan faz a sua entrada no universo da filosofia.

A minha personagem doutoranda, Manuela, debate o estado dos trabalhos da tese  com a tia, uma psicóloga, professora do ISPA, fazendo passar, através do diálogo, a teoria que sustenta a acção.  A jovem identifica o conteúdo latente e manifesto de homossexualidade neste Diário, na linha que mais tarde virá a seguir H. Kaplan[5]. Heterossexual compulsivo, Don Juan acumularia aventuras para se afastar do objecto do seu desejo: outro homem. Kaplan considera que, seduzindo a mulher de outro, Don Juan estaria inconscientemente a relacionar-se com o marido, motivo maior de seu prazer, sendo a seduzida a ponte entre eles.

 Sandór Ferenczi publica, em 1922, Le Symbolisme do Pont et la Légende de Don Juan,  metaforizando fantasmas edipianos e homossexuais: Entre Don Juan que passa na margem esquerda do rio com um cigarro apagado na boca, e o diabo que fuma na margem direita, faz-se uma ponte sobre a água negra, que vai permitir acender o cigarro de Don Juan. Edipianismo, homossexualidade latente seriam as linhas de força do mito, visto da perspectiva de Ferenczi. Ainda na mesma linha, a disputa com outros homens-ponte fará dizer ao Don Juan de Carlos Fuentes: "Nenhuma mulher me interessa se não tiver um amante, marido, confessor ou Deus, ao qual pertença ...". O cigarro e a ponte são metaforizações interessantes que poderão servir para  lançar um olhar no conteúdo latente d’ A Confissão de Lúcio de Mário de Sá-Carneiro.

Usando a metáfora erótica do cigarro de Ferenczi, dir-se-ia que ninguém fuma um cigarro duas vezes. A peça de caça tem interesse enquanto está viva e pode eventualmente fugir. Logo que é caçada, o objectivo foi atingido, atira-se morta para o lado, ou empalha-lhe como troféu e passa-se a nova presa.

 

Entrevistadora: Cada personagem masculino parece carregar consigo um fardo emocional repleto de frustrações e traumas. Acha que estas são as razões para a vulnerabilidade do homem?

Teresa Martins Marques: A fragilidade masculina é particularmente evidente em Manaças que é gay, mas não sabe que o é, e por isso mostra-se homofóbico.  O romance teoriza os bastidores da homofobia através da  personagem Manuela, que com o já referi faz  uma tese sobre o Diário do Sedutor de Kierkegaard onde mostra  o homoerotismo camuflado. Vejamos o que diz Johannes, na última reflexão do Diário do Sedutor:

«Porque não pode uma noite como esta durar mais tempo? Mas agora já passou e desejo nunca mais a ver. Quando uma rapariga entregou tudo, enfraquece, perdeu tudo. Agora toda a resistência é impossível e, enquanto ela existe, é belo amar; quando cessa resta fraqueza e hábito. Não desejo que me lembrem a minha relação com ela; perdeu a fragrância; Não quero despedir-me dela, nada me repugna mais do que choro de mulher e súplicas de mulher, que tudo modificam, não tendo, porém, propriamente nada para significar. Amei-a; mas, a partir de agora, já não constitui ocupação para a minha alma. Se eu fosse um deus, faria com ela o que Neptuno fez com a ninfa: transformava-a em homem.»

Mas há uma particularidade muito interessante na última frase do discurso do sedutor:  “Se eu fosse um deus, faria com ela o que Neptuno fez com a ninfa: transformava-a em homem”.

A  ninfa a que se alude é Cénis, que foi transformada por Posídon em Ceneu, o homem por quem ela se tinha apaixonado.  Este desejo expresso pelo sedutor de mudar o sexo da amada, em processo fusional de assimilação, é bem significativo do recôndito desejo do sedutor. Ao fazer este coleccionismo desmesurado, mostrando um  cinismo sem limites, mais não faz do que camuflar a sua insatisfação de que a  mulher  não possa ser transformada em  homem.  Como a ninfa Cénis. O verdadeiro objecto do desejo é outro homem: o  namorado da jovem seduzida, sendo ela a ponte entre ambos. Esta a razão por que o sedutor só deseja jovens que tenham um namorado.

Ainda aqui a eleita paga caro a ilusão narcísica da “única” que na realidade é pluríma, conforme é encarada por Don Juan, serial killer do afecto. Cordélia, a heroína do Diário do Sedutor de Kierkegaard  pagou  cara  a dependência  de  Johannes  e é patética a forma como se anula a si mesma, ao escrever-lhe:

Foge para onde quiseres, sou porém tua, arrasta-te até aos extremos confins do mundo, sou porém tua, ama centenas de outras mulheres sou porém tua, sim, até na hora da morte, sou tua. Até a língua que uso contra ti tem de demonstrar-te que sou tua. Tiveste a ousadia de enganar uma pessoa de tal modo que te tornaste tudo para mim, então queria eu colocar toda a minha alegria em ser tua escrava, sou a tua, a tua, a tua maldição. Tua Cordélia[6]

A relação estabelecida entre Cordelia e Johannes não é uma relação de amor. Da parte de Cordelia é uma forma de dependência, demonstração incondicional de servidão. Quando declara o que ela entende por amor, mais não faz do que assumir-se como patética escrava. Afinal o amado, mereça ou não mereça, é amado, porque sim. Então não é o amado que é importante, já que não é importante que ele tenha defeitos ou virtudes. O que é importante é transformá-lo em objecto de amor. Donde se conclui que esta forma de dependência incondicional é uma relação de fundo narcísico, uma relação de amor-próprio, camuflada por um discurso de amor pelo outro.

 

 

Entrevistadora: O que é que Sara Dornelas simboliza para si?

Teresa Martins Marques: Sara é a típica mulher seduzida. E que características costumam apresentar as mulheres seduzidas por estas borboletas que pousam de flor em flor? A característica mais comum é a ingenuidade e a credulidade, não raro associada a um carácter sonhador, com uma ligação forte à figura paterna, ou seja um quadro psicológico que as faz acreditar no príncipe encantado, sendo facilmente  dominadas pelo poder opiáceo da palavra. Essa crença na palavra (não) dada é uma questão de fé, que não discutem, nem colocam em dúvida, pelo menos na fase da sedução. Outras há que, conhecendo a variância do sedutor, vêem-se a si mesmas como eleitas que hão-de convertê-lo à fidelidade. A eleita acredita que ela e só ela detém o poder de fixar a borboleta, ela e só ela  possui o néctar salvífico, sendo esta uma atitude de cunho narcisista que empurrada pelo amor-próprio, provoca despique, sobretudo se houver outra concorrente em jogo, caindo na cilada da dependência e do masoquismo: sofrer pelo amado, sofrer pela conquista do amado, fechando os olhos para o resto do mundo, pode tornar-se um programa de vida que conduz em linha recta para o inferno.

 

Entrevistadora: A Joana é uma personagem feminina que reproduz os mecanismos da sedução tóxica. Foi importante para si mostrar que este tipo de comportamento não é exclusivo dos homens?

Teresa Martins Marques: Sim, Don Juan é também uma mulher e não apenas no século XX e XXI. Pensemos, por exemplo no duo das perversas personagens de Pierre Choderlos de Laclos em Les Liaisons Dangereuses (1782). Não é apenas Valmont que é Don Juan. Madame Merteuil é igualmente uma hábil e perigosa trapaceira da conquista amorosa.

 Joana, e não por acaso se chama Joana, é uma artista da manipulação, do desprezo para com o sentimentos alheios, em relação à mãe, aos companheiros Luís e Manaças. O seu padrão comportamental é um transtorno de personalidade que se caracteriza pela posse, desregulação emocional, raciocínio extremista, relações caóticas.

Joana tem complexos relativamente à mãe e  quer chocá-la, através das escolhas que faz. A versão da “mãe terrível”  contada pela filha Joana é o contrário da realidade.  É a versão conveniente, mostrando-a como controladora, prepotente, castradora, que só se preocupa com os outros, que abandona a filha, coitadinha, pobre menina carente e indefesa! Mãe boazinha para as outras, para ela megera que, todavia, a sustentava, alimentava, vestia e calçava até ao momento em que passou esse encargo para Luís, o marido conveniente. 

 Joana é uma agente dupla encartada. Ao marido dizia que a mãe era castradora, dura, orgulhosa e fria. À mãe dizia que o marido era um homem fraco, monótono, um banana.

 

Entrevistadora: A que personagem se afeiçoou mais durante o processo de escrita?

Teresa Martins Marques: Lúcia, a mãe de Joana é uma figura protectora, mas que precisa de se libertar da grilheta da maternidade, porque ser mãe não é ser escrava da filha. Ser mãe não é deixar-se anular. Ser mãe não é ser vítima. A psicóloga é a directora de uma casa-abrigo da APAV, que recolhe  vítimas de várias classes sociais, irmanadas pela infelicidade e mostrando que a violência  é transversal à sociedade e que a mulher mais rica do Porto era a mais pobre de afecto  e de auto-estima.  Lúcia pensou como seria fácil para outra mãe que não ela, ceder aos jogos da culpa, coitadinha da menina, criada sem pai, e cair na esparrela de lhe fazer as vontades! As mães e os pais que estão sempre ali, incondicionalmente, esquecem que o amor tem dois sentidos. Não basta amarmos, precisamos de ser amados. Se apenas uma das partes ama, a outra domina a relação. O afecto tanto se desgasta entre casais como entre pais e filhos. É muito mais fácil dizer sim do que dizer não. Quando se criam reis dentro de casa criam-se relações de poder.

 

Entrevistadora: Quem é que realmente “derrota” Don Juan?

Teresa Martins Marques: A derrota de Don Juan é a tomada de consciência do que é o donjuanismo. Gertrudes matou Amaro. Sara venceu-o enfrentando Amaro.  Lúcia venceu-o criando uma rede de protecção às mulheres.  Manuela venceu-o fazendo a tese sobre O Diário do Sedutor.  E além destas mulheres até mesmo um homem venceu Don Juan…  Manaças venceu-o dentro de si, vencendo o preconceito homofóbico, aceitando a relação com  Juanito, aceitando a sua própria homossexualidade, que estava latente na sua homofobia.

 

Entrevistadora: Considera a sedução uma forma de poder ou de solidão?

Teresa Martins Marques: Uma clara forma de solidão, na procura incessante, sem fim à vista, a não ser na velhice, quando o sexo começa a falhar. Don Juan aposentado é uma figura patética. A velhice é o verdadeiro castigo de Don Juan, quando as armas da sedução falham.  O comprimido azul é o céu de Don Juan já velho, mas rapidamente este céu fica nublado pelos efeitos colaterais cardíacos, que muitas vezes  vêm colocar o ponto final na  desenfreada corrida, que foi a sua vida.

 

 

Entrevistadora: O que espera que fique na memória do leitor depois da última página?

Teresa Martins Marques: Espero que fiquem as páginas em que denuncio a violência doméstica que nasce de querer forçar alguém a ser o que não é, ou a continuar uma relação que já acabou. As relações são bem sucedidas a médio e longo prazo quando as personalidades são adequadas. Coloquem uma mulher extrovertida e espampanante com um homem tímido.  Uma mulher aventureira com um homem conservador. Um homem que não gosta de sair de casa, com uma mulher que só gosta de passear. Uma mulher gastadora com um homem avarento. Dificilmente  se aguentam, por mais que se amem. O amor romântico parte logo de um princípio errado  de que o amor é eterno. As pessoas mudam, as relações mudam. No quadro do amor romântico, as pessoas acreditam que não estão completas sem a pessoa amada. É a história da metade da laranja… Mas as pessoas são saladas de fruta!

Luís cometeu o erro evidente de pôr o sexo à frente do amor. Sara cometeu o erro de atribuir papéis a pessoas que não podiam desempenhá-los e acreditou no mito do amor romântico. Percebendo os erros, não voltam a repeti-los. Luís pensava que o sexo com a Joana era uma gincana, que aos poucos deixou de o interessar. Sara pensava na violência do sexo com Amaro, o homem violento que não sabia amar.

O assédio consiste em forçar alguém a ser o que não quer ser. A violência, nas relações interpessoais, é sempre uma questão de falta de inteligência. A violência é o argumento de quem não tem argumentos.  Ninguém tem o direito de impor o amor, a paixão.  Perseguir, seduzir, assediar, são atentados à liberdade. Uma pessoa verdadeiramente inteligente está disposta a ouvir a outra parte. Para explicar a sua posição, é preciso dialogar, argumentar, mostrar a justeza das suas razões. A importância de ouvir é fundamental para captar o argumento contrário e poder rebatê-lo, sem perder a lógica. Se os dois contendores forem inteligentes a discussão não se prolonga, porque um deles convence o outro. O problema começa quando um deles não é inteligente, não percebe a argumentação, e constrói falácias argumentativas e começa a irritar-se. Nesse caso a pessoa mais inteligente e sensata percebe que já esgotou os argumentos e a discussão termina.  Quer isto dizer que são os menos inteligentes que ficam a ganhar? Nem por sombras!  Não quer dizer que noutro momento não volte a tentar persuadir a outra parte, mas percebe claramente que naquele momento não vale a pena. É assim que procedem as pessoas inteligentes. A violência num casal é o argumento de quem já não tem argumentos. A cabeça deixa de raciocinar e é dominada pela raiva, pelo despeito. A violência é sempre uma forma de capitulação. A violência num casal é o sintoma de uma falha primordial, uma fissura que não raro revela a insegurança e a fraqueza de quem a pratica. A violência física do forte sobre o “fraco” está nos antípodas da virilidade e de uma masculinidade sadia.  É, verdadeiramente, apanágio dos fracos !

  O mundo em que vivemos está cheio de sexo, mas falta-lhe erotismo. Uma relação funciona a longo prazo se o amor for confluente - dois seres que se adequam e se compreendem que  olham na mesma direcção. Não existe um amor único obsessivo e verdadeiro. A  verdade são muitas  varetas de um leque invisível de pontos de vista. Esta ideia é que vence Don Juan!

 



[1] Jean Rousset, Le Mithe de Don Juan, Paris, Armand Colin, 1976, pp. 6-7.

[2] Denis de Rougemont, Les Mythes de L’Amour, Paris, Galimmard, 1967, pp.115

[3]  Gregório Marañon, que se destacou na então nascente endocrinologia, foi o único médico espanhol que conheceu pessoalmente Freud, em casa da sobrinha bisneta de Napoleão - Marie Bonaparte (1882-1962).

[4]  Cf.  Eli Coleman, director do Programa de Sexualidade da Fac. de Medicina da Univ de Minesotta e a sua equipa, que desde finais dos anos 80 vêm publicando sobre o assunto: «Sexual Compulsivity: Definition, Etiology and Treatment Considerations.» In ELI COLEMAN (ed.) Chemical Dependency and Intimacy Dysfunction. Routledge, 1988.

[5] Kaplan H, Sadock B, Grebb J - Sinopse de Psiquiatria, Koogan, 4ª ed. 1994.

[6] Soren Kierkegaard, Enten – Eller. Et Livs-fragment. Forste Deel (1844).  Ou – Ou. Um Fragmento de Vida. Primeira Parte. Tradução do dinamarquês, Introdução e Notas de Elisabete M. de Sousa, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2013, p. 346.

Tese de licenciatura na Roménia

 

O DONJUANISMO REVISITADO: REPRESENTAÇÕES,

SUBVERSÕES E RELEITURAS EM A MULHER QUE

VENCEU DON JUAN, DE TERESA MARTINS MARQUES

 

DONJUANISMUL REINTERPRETAT: REPREZENTĂRI,

SUBVERSIUNI ȘI REINTERPRETĂRI ÎN FEMEIA CARE

L-A ÎNVINS PE DON JUAN, DE TERESA MARTINS MARQUES

 

UNIVERSITATEA BABEȘ-BOLYAI

FACULTATEA DE LITERE

Specializarea Limba și Literatura Portugheză

 

Coordonator științific:

Lect. Dr. Cristina Petrescu

 

Student:

Diaconu Andreea-Iulia

 

IULIE 2026

CLUJ-NAPOCA

21/08/2026

A Mulher Que Venceu Don Juan

 «Munida de um firme bisturi analítico, Sara Calisto revela-se bem-sucedida no levantamento de interrogações que, ora seminais, ora desarmantes, revelam um processo de pensamento in statu nascendi, o que tinge esta reflexão de um amoralismo salutar, no modo como lança essas mesmas perplexidades ao leitor deste labor ensaístico. […] Levando a cabo uma problematização plural em torno do mito de Don Juan, a obra em pauta, colocando particular relevo na análise literária do romance A Mulher que venceu Don Juan, de Teresa Martins Marques, consubstancia uma investigação competente, explorando as grandes questões científicas que o tópico suscita, bem como uma assinalável capacidade de construção teórica, a partir de autores como Kierkegaard, Pierre Brunel, Georges Bataille e Jean Rousset. A presente obra socorre-se, ainda, de uma metodologia científica de permanente diálogo com os principais debates ao nível sócio-cultural e literário-filosófico, evidenciando, com assertividade e acutilância, uma tese bem precisa e irmanando-se, com insofismável propriedade, à ideia perfilhada por Edgardo Dobry que, no seu opus Magnum Historia Universal de Don Juan. Creación y Vigencia de un Mito Moderno (2017), se reporta a um mito sem sossego, aludindo não só à figura do insaciável burlador, mas à interminável exegese que sobre o mito se foi produzindo ao longo dos tempos».
Ricardo Gil Soeiro


23/09/2021

"A Mulher que Venceu Don Juan" na Roménia

BIOBIBLIOGRAFIA – 2021

 Teresa Martins Marques é presidente do PEN Clube Português.

Foi membro da direcção da Associação Portuguesa de Escritores e sua Secretária-Geral.  Foi também vice-presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Críticos Literários .  É membro da Sociedade Portuguesa de Autores. 

  Investigadora integrada no Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (CLEPUL).

Fez doutoramento em Literatura e Cultura Portuguesas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, instituição onde obteve a licenciatura em Filologia Românica e o mestrado em Literatura Portuguesa Moderna. 

 Na década de 80 foi assessora de um Grupo Parlamentar da Assembleia da República, com intervenção na Comissão de Educação, para questões relacionadas com o Projecto de Lei de Bases do Sistema Educativo. No âmbito deste Projecto, desenvolveu intensa actividade de palestrante, de norte a sul do país, em debates que dinamizaram a Formação  Contínua de Professores.

Na década de 90 fez parte da equipa do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia das Ciências de Lisboa (1992 a 1995), nomeadamente na vertente da terminogia literária.

Foi Orientadora Pedagógica da Formação de Professores tendo elaborado (em co-autoria com a docente de Didáctica do Francês, da Faculdade de Letras de Lisboa), diversos manuais antológicos – Salut, France 2000! -, de Geografia, Civilização e Literatura Francesas, bem como os programas desta disciplina, para a Formação de Jovens em Regime de Alternância (Ministério da Educação / Ministério do Trabalho).

 Ao nível editorial, teve a seu cargo a direcção da Edição das Obras Completas de José Rodrigues Miguéis, no Círculo de Leitores (1994-1996), e assinou cada uma das introduções dos 13 volumes da Obra.  É actualmente a representante deste escritor, por Procuração exarada no Consulado de Portugal, em Nova Iorque, pela sua única neta Monica Migueis Jakobs.

Dirigiu a equipa de organização do Espólio Literário de David Mourão-Ferreira, na Fundação Calouste Gulbenkian / Ministério da Educação (1997-2004).

Fez parte de júris de ficção, de poesia e de ensaio da Associação Portuguesa de Escritores, da FENPROF, da Associação Portuguesa dos Críticos Literários, do PEN Clube Português e das Correntes d’Escritas. Durante vários anos, integrou o Júri do Instituto Camões, para o Programa de Apoio à Tradução da Literatura Portuguesa no Estrangeiro.

Colaboração com o PEN International :

 Publicação do artigo « Enfance et Violence chez José Rodrigues Miguéis et Jennifer Clement» (Presidente do International PEN)  in  PEN 50th International Writers Meeting,  Bled,  April, 2018.

Publicação do artigo  Écrire la Violence» )  in  PEN 52th International Writers Meeting,  Bled,  April, 2020.

  Desenvolve actividade regular, como palestrante e conferencista, em Portugal e no estrangeiro ; tem participado em  congressos ligados às suas áreas de trabalho, com colaboração ensaística nas principais revistas literárias de Portugal e do Brasil e em cerca de três dezenas e meia de volumes colectivos de ensaio, para além dos seguintes  títulos  individualmente publicados :

 ENSAIO:

-Si On Parle du Silence de la Mer (1985) - Estudo da novela de Vercors, Le Silence de la Mer;

-O Eu em Régio: a Dicotomia de Logos e Eros. Prémio de Ensaio José Régio / 1989. 1ª ed. 1993; 2ª ed. 1994;

-O Imaginário de Lisboa na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis. (tese de mestrado) 1ª ed. 1994; 2ª ed. 1996; 3ª ed.1997;

 -Leituras Poliédricas. 1ª ed. 1996, 2ª ed. refundida e aumentada, 2002;

-Clave de Sol - Chave de Sombra. Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira (2011- tese de doutoramento).  Edição em livro, refundida e aumentada, 2016.

BIOGRAFIA: O Fio das Lembranças - Biografia de Amadeu Ferreira, 2015.

CONTO: Carioca de Café, 2009; Degraus do Passado, 2014 ; O Avesso do Amor, 2019 ; Chronica Adefonsi Imperatoris, 2020 ; Casamento Secreto, 2021.

 TEATRO: Anjas ao Sol, 2015.  (Incluído no livro colectivo Anjas do Nosso Mundo, Editora Labirinto de Letras.)

ROMANCE: A Mulher que Venceu Don Juan, 2013. Sobre este romance foram  realizadas duas  dissertações : de licenciatura, na Universidade de Bucareste por Gabriel Alexandru Streinu (2014) ; de mestrado, por Ana Carolina Mendes Camilo : « Representações Femininas em A Mulher Que Venceu Don Juan» . Orientação da Profª. Doutora Maira Angélica Pandolfi, UNESP, Brasil, Janeiro de 2019.   

  OS DIAS DA PESTE: Organização e prefácio da antologia internacional que reúne 272 autores de 58  países, que escrevem em português, inglês , espanhol e francês.

TRADUÇÃO:Acaba de ser publicada  a tradução deste romance na Roménia,  feita Georgiana Barbulescu, na Editora Electra  de Bucareste, cuja capa aqui apresentamos. 

20/09/2020

Do «amor confluente» Ernesto Rodrigues

 «Saudades, só tenho do mar.» Limiar, esta frase marca um novo tempo de quem enuncia, reforçado na cisão do advérbio. Não se percebe ainda por inteiro a rasura do passado, nem que, sob no me suposto, a Sarinha de outrora se vê protagonista de drama que, aos 45 anos, lhe transtorna existência passiva, trazendo-a à vida. A toada evocativa da primeira página, assente na repetição vocabular e frásica, reitera a distância entre o mar vivo da Foz, única memória feliz, e o mar triste do Monte da Caparica; mas este é refúgio, quando se toma, finalmente, em mãos o destino, à deriva desde os 17 anos, ao cegar na paixão por bem mais velho, bonitão e todo salamaleques, cirurgião plástico. Decorrem 28 anos nas mãos deste, que lhe toma alma, fortuna e, no chão da infância, montou a Clínica Paradiso, onde vai destruí-la. Ironia. Entre um ser possessivo e mulher-bibelot a quebrar amarras conta-se esta venturosa estreia de largo fôlego.

Romance de acção que percorre a geografia nacional e ainda salta a América latina salvífica, quero vê-lo, me suposto, a Sarinha de outrora se vê protagonista de drama que, aos 45 anos, lhe transtorna existência passiva, trazendo-a à vida. A toada evocativa da primeira página, assente na repetição vocabular e frásica, reitera a distância entre o mar vivo da Foz, única memória feliz, e o mar triste do Monte da Caparica; mas este é refúgio, quando se toma, finalmente, em mãos o destino, à deriva desde os 17 anos, ao cegar na paixão por bem mais velho, bonitão e todo salamaleques, cirurgião plástico. Decorrem 28 anos nas mãos deste, que lhe toma alma, fortuna e, no chão da infância, montou a Clínica Paradiso, onde vai destruí-la. Ironia. Entre um ser possessivo e mulher-bibelot a quebrar amarras conta-se esta venturosa estreia de largo fôlego.

Romance de acção que percorre a geografia nacional e ainda salta a América latina salvífica, quero vê-lo, sobretudo, como de personagens, na definição que nenhum outro contemporâneo labora tão densamente. Em fundo, questões vitais: infâncias traumáticas e seus efeitos sobre próximos; como sentir-se inferior descamba em rivalidade sem sentido; e, na psicografia do sedutor, segundo bibliografia nem sempre convocada pelos especialistas, uma pergunta inquietante: não será Don Juan um homossexual que se desconhece, ou prolonga a infelicidade, quando seria mais útil assumir-se? 

Aspecto igualmente marcante, recuperado no policial que também é, a espaços, este enredo de encaixes perfeitos familiariza-nos com personagens secundárias: o pathos cruel e desencadeador que inaugura é resolvido por motorista e velha mãe protectora (a seu tempo, recompensados), e será outra dupla mãe e filho a decidir, no final, a sorte de quem, vingativo – gélido, mandão, tecedor de anjos –, promove a acção. A emergência destas figuras de segunda linha é mais do que um topos de folhetim saído no Facebook (2012-2013), com episódios entretanto revistos e acrescentados em livro (2013): vivem na periferia, também da linguagem, mas trazem calor às relações, nessa ternura dos que menos têm, mas são mais.

Na alternância de registos – discursivos, literários, filosóficos, topográficos… –, vemos como se vai fazendo mão lesta de artista na conjugação entre primeira e terceira pessoas, e suas conexões a diálogos vivos e variados entre enunciação directa, indirecta e indirecta livre, mas como, simultaneamente, Sara e sua máscara Esmeralda (abismando-se, nesta, a própria literatura, em alusão hugoliana) multiplicam contactos, e novos quadros sociais e linguísticos se nos entreabrem. O também duplo processo de olhar em frente, avançando no presente da narrativa, e servir-se do flashback, para melhor compreender gestos futuros, vai conduzir-nos da infância inconsciente aos erros do casamento, da vontade de libertação e autonomia a novas relações pacificadoras. Ao experimentar a pobreza, Sara cria solidariedades; a injustiça, mais viva no melindre da idade, encaminha sujeito sensível para projectos de transformação social e individuação própria: começa a sarar. Antes, plasma-se na busca de uma nova casa para si e amigas, busca outro, e bem mais importante, abrigo…  

Estamos ainda longe de um epílogo que nos surpreende, ao descobrirmos a redactora destas vozes, qual supra-narradora que se apresenta em registo epistolar, definindo uma linhagem no feminino. Na encenação desta, sucedem-se capítulos que precisam de justificar não só um, mas vários abrigos, iluminando título, ao plurificar resposta: que mulher, se há várias – Lúcia, Sara, Gertrudes (mãe calada, que percebe o erro de silenciar uma paternidade) e, no exercício intelectual, Manuela –, também vitoriosas, e não só sobre um Don Juan psicopata, quando irrompe uma Dona Joana borderline?

Vão-se firmando, assim, personagens: um Luís carente, em trânsito para união feliz, prevista, mas adiada, para exaspero dos leitores; um Manaças histriónico, que se desconhece, apanhado em falso, até idêntica libertação: de modo diverso, fecham o círculo da história. 

A denúncia da violência doméstica, uma das principais isotopias a partir, já, do namoro, traz-nos um comissário atento, impoluto, cum grano salis bastante, frente ao qual se perfila, em desnudamento gradual, um bom sacana. É um jogo de sombras, que a linguagem também possui: responde-se até onde queremos, há subentendidos, uma relação de forças que vai pender para o lado do senhor comissário. Ainda não conhecemos suficientemente este, e menos aquele, para os levar ao nosso consultório. No mais, a vida de lordes calha aos que menos a merecem, mas, que saibamos, e mostram estas páginas, na Terra também se faz justiça...

Se nos reduzíssemos ao singular, o título corresponderia à psicóloga Lúcia: ela lança alertas, orienta a heroína ‒ é a lucidez que tudo organiza. Lúcia (a luz vem do Oriente), deusa ex machina, salva Sara por interposta Ana Bernardo, médica – um dos muitos nomes reais aqui pululando, em efeito de real que nos cumplicia –, salva Sara da acusação de ladra, salva a dignidade dos pais nas respostas que dá à abusadora filha Joana. Seu contraponto, mas análogo da filha, o vencido e amargo cirurgião Amaro falha nas tentativas de recuperar a mulher, perseguindo-a até ao reino dos Algarves. 

Ora, desde o título, secundado nas epígrafes, a diegese tem um quadro filosófico, é lida segundo a tese de doutoramento que prepara Manuela, sobrinha de Lúcia. São as duas personagens mais inteligentes de um, a espaços, romance-ensaio, fórmula rara entre nós. Bebe no Norte kierkegaardiano, bússola de fruição – mas também de dúvida e desespero −, cujo correspondente estético orienta o comportamento do homem de hoje, enredado no imediato. A nossa tragédia é sermos incapazes de enganar este labirinto, para desembocar na serenidade de um lago moral ou religioso. Pelo contrário: o donjuanesco (aqui, admiravelmente associado ao desespero de Sísifo) reveste-se, ainda, de manipulação, a qual esconde verdadeiros torcionários, cumulando-se na figura de Amaro, que Lúcia também conhece há muito – o que nos deixa mais intrigados. 

A sedução embriaga, na sua «bruma de palavras», em seu «nevoeiro emocional», mas a falta de lucidez é fatal: cria as «enganadas» − mais doloroso se iniciadas, virgens −, que ou abrem os olhos para um rosto e não para um heterónimo (é a caminhada de Sara) ou põem termo à vida. Aos pares Kierkegaard / Johannes e Regina / Cordélia sucederá o mimético Lukács / Irma, pintora que, abandonada, e mesmo casando, há-de suicidar-se (1911). Suspenso está o destino de Manuela, teoricamente informado: o que a espera, ainda? Não precisará, no lapso de tensão que é redigir uma tese, da interlocução socrática da tia, salva, por seu lado, por outro coração?

A figura de Lúcia agiganta-se na revelação de uma tragédia antiga, que, paradoxalmente, a fragilizou, ao tornar-se permissiva face à filha. Não quer repetir o erro com a sobrinha, que encarreira para um estudo libertador, tal como o estudo vai salvar Sara. A relação entre sangue, carácter, educação, é ainda suficiente: também o meio pesa, sem falar nos genes. Até chegar aí, resolve-se, por oposição a Joana, o caso de Manuela: o ciúme pode não passar de narcisismo. Pergunta-se a outrem se se interessa por nós? Por que razão amar e ser amado vai de si, ou se há-de tornar uma inevitabilidade? A dupla condição está à sua frente: afecto e saber salvam a tia. 

Manuela percebe o seguinte: Kierkegaard recusa à mulher o que esta já fabrica, na vida social, e Simmel em breve lhe concede: não só o império da moda, mas o jogo da coqueteria, Sim e Não, dar e recusar. Em quase integral corrente de consciência de Manuela (já consciente de que a obsessão é um descaminho, pelo que urge mudar de carril), o que temos é uma pausa narrativa, uma espécie de explicação de cenas idas e por vir, na recusa absoluta, por um lado, de qualquer tipo de preconceito, e, por outro, escalpelização dos porquês do sedutor, que se engana a si mesmo e atenta contra os direitos de outrem. A argumentação é arrasadora, e a conclusão – usar a mulher como ponte para chegar a outro homem ‒ obriga-nos a rever muita matéria. Ferenczi Sándor via no pénis essa ponte, sob cuja águas femininas o homem temia banhar-se. Na prática, em clave psicanalítica, retomava aquele Simmel, com um artigo iluminador intitulado “Ponte e porta”: «Vencendo o obstáculo, a ponte simboliza a extensão da nossa esfera volitiva no espaço.»

Há outras criaturas na sombra, explicações que aguardam, golpes de teatro e da sorte. Relevo, como próprio do folhetim, um rapto e uma série de revelações. Sob a égide de um pouco lido romance de formação aquiliniano, assistimos à «via sinuosa» por que enveredam personagens: Joana e capangas, testas-de-ferro de um resguardado Amaro, poltrão na sua poltrona; Sara, uma sequestrada logo senhora do seu antigo espaço, porque mudou de atitude e linguagem, encontrou a própria via, ferindo fundo no escudo preconceituoso daquele, cujas delícias (adiadas) estavam em imaginar a mulher nos braços de outro homem e dela ouvir pormenores; Lúcia, temendo um desenlace da perdida Sara eventualmente incestuoso; Manaças e mãe, que se explicam, e a um longo passado, por um equívoco teatral. Para comportamentos retorcidos, falas instrutivas, que esclarecem muitas ligações escondidas.  

Na alternância ritmada de planos, estes núcleos de personagens e de sentidos alternam, também, lugares em Lisboa e no Porto, o que é outra forma de revisitar cenas passadas. Se, na capital, se instaura a pacificação (mas o perigo espreita), já, na cidade da Virgem, aumenta o concentrado de tensões no triângulo Amaro-Joana-Manaças. Joana, peça fulcral, é uma delícia de cinismo, que o jogo de diminutivos faz sarcasmo, ao lado do à-vontade de locuções novas e gíria bem apanhada. Anima qualquer pato-mole que se julgue bravo, e faz-nos sorrir. Joana é também a demonstração de que o sangue é o atestado mais incerto nas prisões familiares.

Na vertigem da acção, realço a coreografia sado-marítima bebida em Álvaro de Campos ‒ breve, mas intensa, violenta e metaforicamente bem consumada ‒, que atinge um pico de tensão e vira a própria história: episódio de enganos e cúmulo da máscara (no que ilumina de Amaro), anuncia Manaças qual anjo vingador. Em poucas linhas, esta escrita solta tingida de ironia e quadros insólitos entremostra vidas anestesiadas que só a tragédia resolve. Quanto à metaforização desse momento alto, decisivo no argumento, diremos que não é fácil, em literatura, descrever uma simples cena erótica, sem entrar em excessos da nova vaga de jovens autores, onde o palavrão é acto, na falta de actos consentâneos que signifiquem fusão. A subtileza é uma arte difícil e louvo a solução encontrada, que não escorrega no mau gosto.   

Nesta linha, como descrever o primeiro quadro de intimidade entre Luís e Sara, há tanto anunciado? É um desafio maior. Se ‘o primeiro beijo’ deu título de filme, e já se tornou comum no cinema, ou humedece de nostalgia velhas fotografias, aguardamos, ainda, antologia literária sobre esse instante raro, que entreabre as portas de um momento irrepetível… Ora, neste episódio, um telefonema cedo nos defrauda expectativas ‒ para acorrer à cabeceira de mãe doente ‒, e, quando esperávamos solução fácil para fugir a prosa difícil (qual seja a de contar amor em acto), ambos se superam no gesto interrompido, abençoado pela família dele (bênção retomada na visita à igreja de Torre de Moncorvo) e pelo tio dela, criador da Estalagem do Paço, onde a história de ambos se funde, e consuma, em suave culminar de gozo. Sugestão da técnica folhetinista, diferiu-se esse abraço fundacional, para que mais seguramente se enlaçasse na aprovação dos nossos maiores e no espírito do lugar ‒ «amor confluente» que dá origem, talvez continuidade, à história...      


ERNESTO RODRIGUES (Torre de Dona Chama, 1956) é poeta estreado em 1973, ficcionista, crítico literário, ensaísta e tradutor de Húngaro. Antigo jornalista e colaborador regular da Imprensa escrita, leitor de Português na Universidade de Budapeste, é doutor e agregado pela Universidade de Lisboa, em cuja Faculdade de Letras ensina desde 1989, aqui dirigindo o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (2015-2019). Prémio PEN Clube – Narrativa com
Uma Bondade Perfeita (2016), o seu sétimo e último romance é Um Passado Imprevisível, 2018. No ensaio, destaca-se Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal (1998), seguido de uma dezena de outros títulos, a par da edição de clássicos. Acaba de reunir olhares sobre estrangeiros em Literatura Europeia e das Américas, 2019.