Eu sabia que havia casos de paixões por personagens de ficção. O que eu estava longe de imaginar é que tal pudesse acontecer com Sara Dornelas, uma personagem criada por mim.
O apaixonado não era um ingénuo qualquer. Era um homem de 72 anos. Tinha sido director do ABC Cine-Clube e do Cine-Clube Imagem, membro fundador da cooperativa cinematográfica Cinequanon em 1974, juntamente com Luís Galvão Teles, José Fonseca e Costa, António de Macedo e Luís Filipe Costa. Conselheiro do Secretário de Estado da Cultura David Mourão-Ferreira em 1976 e grande conhecedor da obra de José Rodrigues Miguéis, que tentou entrevistar em 1980, mas que foi impedido por Carlos Cruz.
O homem era (já adivinharam!) LEONEL BRITO (1941- 2026), o realizador dos filmes/ documentários
Acção-Intervenção (1976)
Colonia e vilões (1977)
Gente do norte (1977)
Arthur Duarte (1979)
Félix Ribeiro: Dr. Celulóide (1980)
A oeste tudo de novo (1982)
Açores (1986)
Elvas, 2014. Mal acabou de ler A Mulher que Venceu Don Juan, o Leonel telefonou-me :
- Estou apaixonado pela Sara Dornelas!
-Sara Dornelas Fróis. Acrescentei, para dar tempo a mim mesma e “digerir” aquela inesperada paixão pela personagem.
- Não quero saber do nome Fróis! Só Dornelas, porque detesto o filho da puta do marido!
- É realmente um grande… sacana, respondi eufemisticamente.
-Dava-lhe cabo do canastro, se o encontrasse!
-Ainda bem que é só uma personagem. Não o queria meter a si em trabalhos!
-Sabe, Teresa, o trabalho que eu queria mesmo era realizar um filme com o seu romance. Mas onde é que encontro o dinheiro? Quem é que me subsidiaria um filme de violência doméstica ?
Ainda deu voltas oficiais, mas os cordões das bolsas estavam muito apertados.
- Se não consigo fazer o filme, pelo menos faço um blogue!
-Boa ideia, Leonel, mas não sei se vou ter tempo para o gerir…
-Tempo tenho eu! Quero fazê-lo e vou ser o administrador.
- Mas posso ajudar? Dá-me o código?
-Não dou nada! Agora a Sara é minha… Adoro-a!
E não deu! A Sara era mesmo dele.
Em Julho passado, no regresso de Elvas, quando o Ernesto e eu fomos ao funeral do Leonel, um fiel colaborador-amigo-quase-filho, Filipe Calado, deu-me finalmente a palavra-passe.
O Leonel não sabe que eu levei comigo a Sara ao funeral.
Acabei de ver o blogue do Leonel (ficará sempre a ser dele).
tem 98. 588 visitas.
Até mesmo de países improváveis como o Irão e o Iraque!
Eu juro que estou inocente! O Leonel lá sabe com quem anda metido…