12/08/2019

O AVESSO DO AMOR Teresa Martins Marques

 Lausanne, manhã de Outono.  O comboio pára na Station Ouchy. Uma jovem mulher sai da carruagem, olha de relance o relógio, cinco minutos para as sete, já está atrasada, corre para a saída. Passo apressado, vira à esquerda, atravessa a praça, em frente o Château d’Ouchy, vira novamente à esquerda. Envolto numa cortina de névoa, o Beau Rivage Palace mostra o esplendor da Belle Époque, há cento e cinquenta e sete anos, pela mão de La Harpe e Bertolini.  A jovem entra por uma porta das traseiras, nem sente o frio ao mudar de roupa, já aprumada no seu uniforme de femme de chambre.
Bonjour, Madame, je m’excuse.
 Vite, vite, allez-y! A chefe do pessoal faz um gesto brusco, cara de poucos amigos. Dois minutos atrasada, é como se faltasse ao emprego sem avisar!
Meu Deus, tão cedo e os clientes já a pé! Se eu fosse rica, havia de me levantar bem tarde! Ao longo do santo dia, Rita e as outras empregadas deixam o edifício a brilhar. Nem um grãozinho de pó. Cento e sessenta e nove quartos, trinta e três suites grand luxe. A sua preferida é a Lavaux- toit terrasse, vista magnífica sobre o parque, o Lac Léman, os Alpes. Quando ainda vivia na sua casita pobre da Covilhã e olhava lá longe os píncaros da serra da Estrela, pensava que o mundo não podia ser mais alto. Disse-o à Madame Dubois, casa chique em Rumine, o seu primeiro emprego de mulher-a-dias, na Suíça. A patroa sorriu. Era tão boa a Madame! Bem pena tem de a ter deixado, mas o Zé não gostava da pinta do Monsieur…
 Tu julgas que eu sou parvo, mulher? O que ele quer bem eu sei!
Rita manejava rápida o aspirador e os pensamentos. Não descansou, enquanto não me despedi.  Um castigo, aturar o Zé.  Com vinho ainda pior. Sempre a chatear, a remocar, um castigo! Não posso pôr os olhos em ninguém na rua, lá vem ele com a ladainha:
 Estavas a olhar para aquele?  Não tens vergonha? O que é que queres?
Não quero nada, Zé! Bem sabes que só te quero a ti! Prometi ao padre e vou cumprir a lei de Deus.
 Deus te livre que não cumpras!  Se te apanho em falso, mato-te! Ou julgas que não? Eu não chego para ti?
Oh Zé! Chegas e sobras! Deixa-te dessas conversas ruins! Eu sou uma mulher séria!
 Eu sei lá! Todo o dia rodeada de ricaços.   Tiens! la petite Rita…
 Santa Maria me valha! Se me chamam é porque precisam de alguma coisa!
 Pois precisam, precisam… Oh rapariga, antes fosses feia como um bode! Antes metesses medo ao susto!
E tu casavas comigo, se eu metesse medo ao susto?
Vamos mas é fazer um crianço para te entreteres…
Pois achas que tenho pouco trabalho? Que ainda preciso de um garoto agarrado à minha saia?
Não sei, não. Mas todos têm filhos e governam-se!
Governam-se mal! Tu não sabes o preço das creches? Achas que temos dinheiro para creches?
Qual creche? Ficavas em casa a cuidar do garoto, que é o que fazem as mulheres sérias!
 Que não precisam de trabalhar, como eu. Só tenho vinte e cinco anos, temos tempo.
Não sei, não…  Olha o lindo serviço da Sofia. Era fresca, era!
Deixa a minha irmã em paz!  Que mal te fez a Sofia?  Calou-se, sorumbático. Qualquer referência à minha irmã deixava-o transtornado.
Não quero nem ouvir falar de filhos!  Não sei se estou para aturar isto muito tempo, pensei com os meus botões, Deus me livre de dizer tal coisa, em voz alta, era um Deus nos acuda!   O Zé é bom homem, mas estou farta dos ciúmes dele. Cada dia mais farta! Ou é o Monsieur Dubois, ou o homem do supermercado, ou o desconhecido que vai na rua. Valha-me Deus!
Dou comigo a pensar no dia do nosso casamento. Devia ter sido o dia mais lindo da minha vida, mas que não foi.  Namorámos quase um ano. Ainda és virgem, Rita? E eu disse que sim.
 O meu pai tinha avisado:  não quero poucas-vergonhas cá em casa! Se vos vejo atravessadas, corro-vos a pontapé e à cinturada.  A minha irmã Sofia não fez caso e fez ela bem, porque morreu naquele maldito desastre, quando regressava a casa logo no dia do meu casamento. Meteu-se no carro e foi pela ribanceira abaixo.
Nem quero lembrar-me. Um pesadelo.  Quando veio o resultado da autópsia foi a surpresa geral - a Sofia estava grávida! Houve quem dissesse que se tinha matado para esconder… Rita não acreditou na patranha. E o casamento ficou para sempre ensombrado pela morte da irmã.
  O copo-d’água era modesto, as posses do meu pobre pai carpinteiro não davam para mais.  Os convidados levaram alguns presentes para a casa que já começámos a fazer em Tortosendo, na terra do Zé. O senhor padre fez um bonito sermão, não separe o homem o que Deus uniu. O bailarico estava animado, mas nem com os primos dancei. O Zé avisou de véspera, a minha mulher só dança com o marido.  De vez em quando vinha-me à ideia - como é que será aquilo? Perguntei à minha mãe - dói um bocado, mas passa logo. Temos de ter paciência, filha. Fomos passar a noite ao Hotel de Turismo da Guarda, presente do meu padrinho de baptismo, o Dr. Vasconcelos, da Farmácia Central.  O Zé, mal entrou no quarto - despe-te! Mal tive tempo de me descalçar. Agora é que vamos ver se és virgem ou não! Eu disse-te que era! Não acreditas? Já vamos ver… Atirou-se para cima de mim, parecia um leão esfaimado. Dei um grito. Porra, não mentiste! Pouco depois, virou as costas. Chorei baixinho.  Não viu as minhas lágrimas de sangue. A sua primeira  noite foi o avesso do amor.
 Rita era a mais velha, e a mais calada. Sofia era um azougue que punha a cabeça dos homens num virote. O Zé, típico machão, queria sol na eira e chuva no nabal. A Rita, mais sossegada, era mulher para casar, mas a Sofia é que lhe dava a volta ao miolo. Rondava-a sorrateiro e fazia-lhe olhinhos cada vez que se encontravam sozinhos.
Atão, rapariga, agora quase que já somos da família, tu andas com quem calha, que mal é que faz?
 Eu não ando com quem calha! Sai-me da frente, canalha! Tu julgas que era capaz de pôr os palitos à minha própria irmã? Sai-me da frente, alma do diabo!
Quanto mais o afastava, mais o Zé se babava atrás da quase cunhada, mulher atrevida, não se podia casar com ela, pensava o machão. Num fim de tarde de Verão, andava a Sofia a regar a horta, não se via vivalma pelas redondezas e o Zé aparece-lhe como uma assombração. Agarra-a pelos ombros, tapa-lhe a boca, atira-a ao chão com a sua força bruta de touro bravo. A rapariga esbraceja, mas não consegue livrar-se do mostrengo.
Se disseres alguma coisa à tua irmã, vais pagá-las caras! Sofia chegou a casa transtornada e limitou-se a dizer à irmã que o Zé não era boa peça, que fazia mal em casar com ele, ainda estava a tempo.
 Rita estava embeiçada por ele desde a escola primária, fez ouvidos moucos e o casamento seguiu em frente.  Agora na Suíça, longe dos pais, pensava muito na irmã morta.  Bem me dizia ela que não casasse com ele!  Que segredos ruins saberia que não me contou?
A verdade é coxa, mas sempre chega ao destino. Numa noite de insónia, Rita começou a ouvir o marido a tartamudear durante o sono.    Sof… So…fia…
Sofia? Ele estará a sonhar com a Sofia? Rita sentou-se na cama e pôs o ouvido à escuta quase em cima da boca do marido.
Sofia… malvada… ai! pagas pagas… Está quieta, que ainda levas!
Não havia dúvida, ele falava com a Sofia a dormir.  Passou a ficar acordada a ver se ele voltava a falar.  Percebeu que falava sobretudo quando bebia ao jantar e passou a encher-lhe ainda mais o copo.
Até que, numa noite, Rita ouviu clarinho como a água:
 Sofia, minha alma danada! Voltava a matar-te, sua puta reles! Anda cá, que te mato outra vez!...
Rita não pregou olho no resto da noite. Fez-se claro na sua cabeça. Foi o Zé que lhe fez alguma! Seria ele o pai do filho da irmã?  Só pode ter sido ele, o filho da puta! Casei-me com o assassino da minha irmã!  O mundo desabou sobre a cabeça da pobre rapariga.
Mal amanheceu, telefonou para Portugal, mandou a mãe chamar o pai ao telefone.
Não estás boa da cabeça, filha! Isso pode lá ser!  Ele é bruto, mas não é criminoso!  Aquilo foi acidente e pronto. Deus guarde a alma da pobrezinha!
Por favor, pai, vá falar com a polícia, dê-me o telefone da esquadra da Guarda, que eu mesma telefono! Chorava e engolia as lágrimas. Tanta zanga, tanto remoque, tanto ciúme e afinal é um criminoso! O que é que ele lhe terá feito?  Sofia estava grávida numa altura em que não se lhe conhecia namorado.  Rita começou a tecer uma teia ruim na sua cabeça.
O comissário da esquadra da Guarda ouviu tudo atentamente. O carro da Sofia ainda estava debaixo do telheiro, no curral da casa dos pais, coberto de giestas e tojos para onde o levaram a seguir ao acidente, puxado pelo carro de bois. Nunca ninguém suspeitou de crime. A Sofia tinha bebido um copito a mais no copo-d’água e foi pela ribanceira abaixo. A mãe mandou rezar um trintário de missas pela alma e vestiu-se de luto para sempre.
No dia seguinte, o comissário apresentou-se na casa dos pais de Rita para vistoriar o carro. Sim, senhores!  Ora uma destas! O carro tinha os travões cortados!  Recolheram as impressões digitais. Uma sorte o carro estar resguardado e não ter apanhado chuva!
 O resultado foi o que a Rita esperava. As impressões digitais eram as do seu homem! As do assassino da irmã!
 Já preso na cadeia da Guarda confessou, escarninho:
 Teve o que merecia, aquela puta! Andava a pavonear-se com saia de palmo, a entornar as mamas para fora da blusa!  Um homem não é de ferro, a culpa foi dela!
 Vais apodrecer no inferno, assassino!  E cuspiu-lhe na cara.  Foi a última vez que o viu.
Sete horas da manhã. Rita, em passo ligeiro, entra no Beau Rivage Palace.   A neblina começa a desfazer-se. Não tarda vem aí um belo dia de sol.
                                                                                                                                                      

29/07/2019

Um Conto de Fadas Pedagógico


  Psicanálise da Sedução numa Novela Exemplar de Teresa Martins Marques 
                                                                                        
                                                                                                     Luiza Nóbrega

A leitura de A Mulher que Venceu Don Juan, de Teresa Martins Marques, sugere-nos a confluência de três vertentes literárias narrativas: a do romance psicológico (na observação especulativa das instâncias psíquicas pessoais e transpessoais das personagens); a do romance de formação – o bildungsroman (no que demonstra a reeducação de uma personagem); a do romance de crítica social (com uma trama que de certo modo se insere no quadro de uma denúncia sempre implícita, e por vezes explícita, dos vícios maiores que compõem o bas fond da delinqüência). E de certo modo guarda também alguma aparente similitude com a literatura de auto-ajuda (no sentido em que essa se propõe algum proveito a extrair-se da leitura, seja por induzir à auto-reflexão, seja como partilha solidária e terapêutica de indivíduos aproximados por identidades biográficas afetadas por tais e quais transtornos). E a própria autora, fazendo uso do seu conhecimento da metalinguagem, pela voz narradora diz que a tese defendida por uma das personagens situa-se na interface de três áreas epistemológicas: Filosofia, Psicologia e Literatura; o que se vê nos trechos em que da narrativa afloram citações de autores (vivos e mortos) e textos de filósofos e escritores, destacando-se entre eles as figuras tutelares de Kierkegaard e Don Francisco Manuel de Melo, autores, respectivamente, do Diário de Um Sedutor e da Carta do Guia de Casados.
Entretanto, pelo menos no que concerne à minha própria e primeira leitura, a vertente-raiz, o gênero envolvente no qual os demais se entremeiam e encaixam, é o do conto de fadas (no que, em sua estrutura maior, tem de parábola instrutiva, medida pedagógica e práxis terapêutica). Não um qualquer fairy tale, porém, e sim algo mais moderno, menos próximo de Andersen, mais próximo de um guia para a felicidade possível, que tangencie de leve os aforismos de Schopenhauer e Montaigne; ou de uma fábula do Italo Calvino ou Herman Hesse, com alguma sugestão do Cervantes das Novelas Exemplares, do Decameron de Boccaccio; ou, ainda, e mais propriamente, do português Júlio Dinis; tudo isso de mistura com o farto material que nos é despejado, nos últimos anos, pelos media, seja nos jornais e novelas da TV, seja na revista Caras e outras similares.
Ler um texto é inevitavelmente perceber o seu intertexto, explicitado nas linhas ou sugerido nas entrelinhas; e essa narrativa da Teresa Martins Marques, remetendo-nos explicitamente a certos autores, sugere-nos em certos tópicos autores outros, cujo punho encaminharia a narrativa para caminhos não confluentes, menos unívocos e mais inquietantes. Ocorrem-nos então, a nós, leitores, ante certas fendas que se abrem (sobretudo nos capítulos finais), sugestões de hipóteses que levariam a outras vertentes, mais à Henry James, Poe, talvez Conan Doyle, ou até Lovecraft. Faz parte da leitura a liberdade que o escritor deve dar aos leitores de extrair suas próprias ilações. Porque as obras literárias, como as artísticas, resultam de escolhas procedidas ante um amplo espectro de virtualidades, um labirinto de galerias no qual se assombraram autores como Kafka; e, por outro lado, como dizia Rachel de Queiroz, as personagens têm vida própria, e a certo ponto da narrativa tomam as rédeas ao autor, obrigando-o a modificar sua intenção inicial; e (isso digo eu) quando o autor não consente nessa sublevação, as personagens transferem a aceitação do desvio para o campo do leitor, alimentando, assim, o que se denomina teoria da recepção.  
Não se trata aqui, porém, de transformar e sim de compreender a narrativa em pauta, e o entendimento que dela extraímos na leitura. E para tanto será preciso, primeiramente, desfazer o equívoco de pensar que todos os contos de fadas sejam irrealidades que flutuem no ar como balões. Se muitos deles destinam-se a alimentar os sonhos da criança que permanece nos adultos, e outros pretendem formar adultos virtuosos, incutindo nas crianças preceitos morais edificantes; os melhores desse gênero têm, contudo, pés bem fincados no chão, e se parecem irreais é porque neles se impõe outra lógica, pela qual o autor se propõe - com punho decidido e à sua maneira - emendar, quase que por decreto, a desordem do mundo real, que ele conhece tão bem quanto os autores de romances realistas. E esse é - ou assim me parece – o propósito e motor da novela em causa.
Tais considerações visam advertir o leitor que porventura seja tentado a identificar nessa novela o propósito de obter, como cláusula primeira do pacto autor-leitor, a adesão desse ao que seria uma manipulação do enredo e das personagens com a intenção maniqueísta de instituir um círculo de virtuosos vencedores contra margens desviantes em que soçobram destroçados delinqüentes, psicopatas e malfeitores, arrastados na lama dos vícios com que se alimenta o high society, de hoje como de ontem. Do meu ponto de vista, seria um equívoco ceder a essa tentação, porque não se trata disso. Trata-se então de quê? Perguntará talvez o leitor que sofregamente devorou as mais de cinco mil páginas das Songs of Ice and Fire, em que o gênio narrador do George Martin, com sua equipe de mulheres geniais, investe implacavelmente sobre nossas ilusões de retorno e reencontro, ou de prêmio e recompensa aos justos e castigo punitivo aos vilões, sem poupar nem sequer os espíritos tutelares das personagens, simbolicamente figurados nos lobos que acompanham os fugitivos dispersos de Winterfell.  
É inegável que na trama desse enredo - desenrolado pela voz dum narrador dinâmico e versátil, onisciente todo o tempo, mas aderindo às vozes que empresta às personagens – não há lugar para a dúvida quanto à vitória dos justos sobre os malvados, unidos os primeiros contra os segundos, num círculo de predominância feminina, em que três figuras sobressaem, convergindo, sob o comando de uma psicanalista, na campanha que leva ao desmonte de um Don Juan hipócrita, respeitável cirurgião à superfície mundana e depravado facínora nos recessos do submundo.
É também inegável que não se concede crédito às vozes daqueles que discordam das heroínas, nem à hipótese de que por vezes, em certos casos, os vilões sejam o aviso aos puros de que não são tão puros quanto pensam – o que em psicanálise se designa com o termo retorno do recalcado. Ademais, poderia o leitor argumentar que no mundo real os grandes facínoras, encaixados numa trama de corrupção inconsútil, não se extirpam a valer, e muito menos por uma companhia de mulheres coadjuvadas por alguns bons exemplares do sexo masculino, postos em lugares e funções de poder.
Antecipando-me ao possível leitor cartesiano, fiz aqui o papel de advogada do diabo, não para nele me deter, mas sim para avançar com fundamento um comentário em que deixe claro porque vale a pena ler A Mulher que Venceu Don Juan. E vale mesmo a pena quando se percebe qual a lógica, ou melhor, a razão-de-ser do romance. Se lembrarmos que a literatura é uma vertente desdobrada em cadeia de elos intertextuais que obedecem a uma dialética, na qual se sucedem ideários estéticos opostos, gerando as diversas correntes literárias, que sucessivamente reagem aos excessos da anterior; e se pensarmos que - na deriva pós-naufrágio da arqueologia empreendida pelos gênios escavadores do mal, na Literatura como na Filosofia e na Psicanálise -  o nosso momento histórico-cultural-literário está saturado de narrativas escabrosas, sufocantes e devastadoras, na exposição implacável e desesperançada do cancro social, hoje exposto como algo banal nos reality shows, ante os quais perde força de impacto até mesmo aquele filme em que Pasolini traduziu para o cinema a Sodoma do criador de Justine e Juliette; se pensarmos mesmo a sério no momento histórico que é o nosso, nesse mundo em que a lama tóxica arrasta casas, famílias, cidades, num só ataque narcotizando as consciências e exterminando a esperança; talvez seja não só compreensível mas também oportuna a escrita em que se exemplifique a hipótese de resistência, que no caso se faz, não por uma Maria Moura, com o seu bando, nos sertões brasileiros, mas por uma Lúcia e uma Sara, entre o norte e o sul da Lusitânia. Do enredo mais não direi, para não me recair a acusação de spoiler, como sucedeu quando sem querer revelei o trecho das Crônicas de Gelo e Fogo em que Tyrion Lannister assassina o pai e quase fui banida do Facebook pelos preguiçosos seguidores da série medíocre Game of Thrones.
Direi, porém, das qualidades da narrativa, em que sobressaem a linguagem corredia, o estilo culto travestido em corriqueiro, as informações históricas, as remissões literárias, o jeito de narrar como que conversando com pessoas próximas, a sabedoria de vida expressa em algumas frases lapidares, por vezes citações de outros autores.  Conta-nos, por exemplo, a história de D. Francisco Manuel de Melo de um ângulo particular, que mais se memoriza porque nos entra pela via afetiva, tornando-nos mais próximo o escritor e personagem histórico.
Essa narrativa, com o poder de insinuar sensações e atmosferas através de imagens concretas, cativa-nos e nos arrasta, num estilo a correr, nunca monótono, em que se percebe uma autora dinâmica; provoca-nos com um léxico pujante, abundante e raro, em numerosas expressões e um rico acervo de provérbios que dão substância ao enredo e consistência à linguagem, ampliando assim o acervo dos leitores; diverte-nos com ironia afiada, que nos sugere o estilo mordaz do Eça de Queiroz, e em que transparece uma narradora com bagagem literária e pendor para a História, da vida pública e da vida privada.
Entretanto, a qualidade maior dessa novela, no meu entender, define-a como pragmática mais que literária. A autora, com um talento de psicóloga que nos dá pistas para compreensão dos meandros tortuosos do caráter e das interrelações humanas, compõe uma narrativa que tem o poder de atuar positivamente sobre o leitor, e isso, a meu ver, é relevante em dois sentidos: o editorial e o existencial. Sua escrita, assim me parece, destina-se a cativar leitores e atrair amigos. E, pensando de certo ângulo, de que adianta um livro se não desperta ressonâncias no leitor? Talvez isso, aliás, esteja implícito no conceito do correlativo objetivo, formulado por Eliot no seu ensaio sobre o Hamlet. Nesse tópico, evidencia-se a importância do fator afetivo, como veículo e combustível da relação autor-leitor, obra-leitura. Arte e Literatura, ao fim das contas, têm mais graça e fazem maior e melhor sentido quando praticados como exercício de partilha e intercomunicação encaixadas na vida, e portanto num intelecto que pulsa com afeição - e agora creio que fui talvez ao ponto-chave teórico exposto por Kristeva em seu La Révolution du Langage Poétique.
Feitas as contas dos pros e contras, se alguém disser que no mundo real as coisas não acabam assim, num final feliz, com o joio lançado à Geena e o trigo sobranceiro ao sol, como quis Mozart na Zauberflöte, a autora poderá de pleno direito responder, como Duchamp (ceci n’est pas une pipe), que isso não é uma descrição do mundo real e sim uma proposição do mundo que ela, autora, postula que seja, ou desejava que fosse. Um mundo sereno, solidário, em que a virtude vigilante impedisse ou corrigisse os vícios pérfidos provenientes e determinantes (o círculo vicioso) de excessos desenfreados. Assim entendida, se essa não for uma escrita salvífica, ou uma novela exemplar, que seja - consinta-se - um conto de fadas, mas no sentido em que esse, sendo o fechamento conclusivo de algo que na realidade permanece aberto e inconcluso, ganha valor e justifica-se enquanto parábola terapêutica, profilática e pedagógica.



Luiza Nóbrega
Viana do Castelo, 22.06.2019
 
CURRICULUM BREVE
LUIZA NÓBREGA

 
Poeta, ensaísta, ficcionista, pintora e pesquisadora.
Professora de Literatura e Artes aposentada pela UFRN.
Bacharelado em Direito (UFRN). Mestrado em Literatura Brasileira (UnB).  Doutorado em Literatura Portuguesa (UFRJ/UnL). Posdoc em Literatura Portuguesa (Universidade de Évora/UnL). Posdoc em Literatura Brasileira (Università degli Studi di Perugia).
Estudou Artes Visuais com Ivan Serpa, no Centro de Pesquisa de Artes de Ipanema (RJ). Participou nos grupos de estudos de Psicologia Profunda com Nise da Silveira.
Dedicou-se à pesquisa, ao ensaio, à poesia e à ficção.
Especializou-se no estudo da poética d’ Os Lusíadas de Camões e da obra de Lêdo Ivo.
Publicou livros, ensaios e poemas em diversos periódicos. Produziu vídeos e performances poético-teatrais. Realizou diversas exposições. Organizou colóquios e outros eventos acadêmicos. Participou em congressos e em mesas de encontros literários.
Mora em Portugal.
 
Publicou: O Canto Molhado. Metamorfose d’ Os Lusíadas: leitura do poema como poema (Lisboa: Publidisa, 2008); Quero Ser o que Passa: a poesia de Lêdo Ivo (Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011); e No Reino da Água o Rei do Vinho: submersão dionisíaca e transfiguração trágico-lírica d’ Os Lusíadas (Natal: EDUFRN, 2013).




04/02/2019

"A Mulher que Venceu Dom Juan", obra engenhosa de cativante ficção...


Querida Teresa,
          Venho felicitá-la pelo seu romance "A Mulher que Venceu Dom Juan", obra engenhosa de cativante ficção que tão bem soube temperar com diversos tipos de narratividade. Claro que os topónimos portuenses me acariciaram o ouvido e também dezenas de referências culturais que muito prezo. Foi uma bela ideia essa de o donjuanismo nos dois géneros; pois há mulheres que também têm o vício da sedução por coleccionismo. Evidente que só poderia ser uma Joana, o que é bem pensado. O facto de isso tudo desaguar na criminalidade e no bas-fond acrescenta à obra uma ambiência de suspense que mantém agudo interesse. Aquele Amaro é realmente um super-vilão que nos sabe bem ver assassinado com a cara esfrangalhada. Andamos um bocado fartos de certas narratividades cheias de experimentalismos indigestos e livros como o seu reconciliam-nos com uma limpa diegese. Só há uma coisa que não problematizo da mesma forma, embora perceba que não se adequava à economia do entrecho. É que parece que as relações entre as mulheres vítimas nas casas-abrigo não são sempre tão amoráveis e solidárias porque são seres perseguidos e torturados por pais (se os tiveram) e depois companheiros violentos. Aliás tenho pouca fé na solidariedade das mulheres, umas para as outras. Estive num grupo feminista nos fins dos 80, que se formou aqui no Porto. Até editamos uma revista de nome "Artemísia". Isso deu-me alguma prática para observar a qualidade da solidariedade feminina. De qualquer forma só lhe temos a agradecer este livro e o muito trabalho mas certamente muito prazer que lhe deu a escrever. Receba um afectuoso abraço com muita consideração e reconhecimento.


         Inês Lourenço



 NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA


 INÊS LOURENÇO nasceu no Porto e tem publicado desde 1980 mais de uma dezena de títulos de poesia, colaborado em inúmeros livros colectivos e tem sido seleccionada para um considerável número de antologias em Portugal e noutros países. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela FLUP (Faculdade de Letras da Universidade do Porto). Poemas seus foram incluídos em publicações portuguesas de referência, como: Jornal de Letras Artes e Ideias; Revista Relâmpago; Colóquio/Letras; Jornal Público; Semanário Expresso; Inimigo Rumor; Telhados de Vidro; Águas Furtadas; Cão Celeste; etc. Colaborou, igualmente, em publicações de poesia do Brasil, Espanha, França, Itália, Áustria, México, Marrocos e Roménia, com poemas que foram traduzidos nas respectivas línguas. Alguns títulos da obra poética: Os Solistas, 1994. Um Quarto com Cidades ao Fundo, 2000. Logros Consentidos, 2005. A Disfunção Lírica, 2007. Coisas que nunca, 2010. Câmara Escura, 2012. Ephemeras, 2012. O Segundo Olhar, 2015. O Jogo das Comparações, 2016. Fundou e editou durante cerca de doze anos (1987-1999) os Cadernos de poesia – Hífen, com 13 números publicados, na maioria temáticos, onde colaboraram com textos inéditos, grande parte dos poetas portugueses da época, (António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, Fiama H. Pais Brandão, Adília Lopes, Al Berto, Luís Miguel Nava, Natália Correia, etc, e diversos poetas de outras línguas em tradução de poetas portugueses como Paul Celan, Sylvia Plath, Jorge Luís Borges, Thom Gunn, Ezra Pound, Ingeborg Bachamann, etc). A sua obra tem sido objecto de recensões críticas por parte de poetas, críticos e ensaístas, tais como: António Guerreiro, Manuel de Freitas, Fernando Guimarães, Maria Alzira Seixo, António Carlos Cortez, Diogo Vaz Pinto, Hugo Pinto dos Santos, Valter Hugo Mãe, José Mário Silva, Pedro Sena-Lino, etc. Foi júri de diversos prémios de poesia, entre eles o de Vasco Graça Moura e de Eugénio de Andrade. É sócia da APE, do Pen Clube e da SPA.



18/02/2018

Breve Consideração sobre A Mulher que Venceu Don Juan de Teresa Martins Marques

Cecília Barreira-CHAM-FCSH/NOVA-UAç

Teresa Martins Marques é ensaísta e escritora com obras de reconhecido mérito e trabalhos notáveis sobre Rodrigues Miguéis ou David Mourão-Ferreira. Investigadora no Clepul na Faculdade de Letras de Lisboa escreveu um romance axial que põe em causa muitos assuntos controversos: trata se de A Mulher que Venceu Don Juan (Lisboa, âncora Editora, 2013).

É num fôlego que se lê esta obra. Não é propriamente a escrita narrativa que está “na moda” , no “politicamente correcto” dos últimos romances que por aí pululam. Trabalho incessante sobre diálogos numa mestria como já não via há muito tempo.
Inicialmente foi publicado, enquanto folhetim, no facebook, onde se transformou num fenómeno viral.
É um livro de apelo à libertação das mulheres vítimas de violência doméstica.
 A personagem Manuela, por exemplo, encontra se a elaborar um atese de doutoramento sobre o livro de Kierkegaard Diário de um Sedutor.
Sara é a personagem principal seguida por Lúcia psicóloga. E faz uma  tese de mestrado com Ernesto Rodrigues que, não por acaso, é marido da escritora Teresa Martins Marques. Foi aluna de Teresa Cadete, igualmente professora na Faculdade de Letras.
O título remete nos para Don Juan o sedutor eterno. Mas existem três Don Juan no romance: um que é uma mulher colecionadora de homens; outro que aparenta gostar de mulheres mas sublima uma homossexualidade e um outro, muito cruel.
É um livro assumidamente feminista e nisso também não está na onda de uma escrita com “palavrões” ,  muito pretensamente “difícil” e sem uma estória inclusa.
Impregnado de diálogos fortes e muito bem manuseados A Mulher que Venceu Don Juan é a aposta na força dos mais fracos, nas mulheres que sofrem em silêncio, na violência psicológica, na amostragem de machismos seculares.
O caso do Dr. Fróis e de Amaro é interessante: predadores sexuais, o primeiro sem querer assumir qualquer filho de mulheres que “conquistava”, são de uma misoginia intrínseca.
Homens que se julgam donos e proprietários de mulheres e que as perseguem muitas vezes matando as. A escritora, aliás, fala da importância da APAV na segurança e apoio às vítimas. Não se trata de algum aspecto de faixa etária ou estrato social mas de um fenómeno transversal na sociedade portuguesa. Por ano centenas de mulheres são mortas ou feridas pelos companheiros. As mazelas psicológicas são muito difíceis de sarar.
Neste brilhante romance, Don Juan é a personalidade psicanalítica da sedução pela sedução, propriedade exercida sobre as mulheres e a loucura do ciúme doentio. A posse pela posse, o estereótipo da mulher recatada e que só pode exercer determinadas profissões.
Teresa Martins Marques na sua coragem exibe o sonho de mulheres que conseguem sublevar se e trazer à superfície a sua dignidade ferida. Romance coragem. Romance sobre tiranias. Romance, afinal, sobre a condição feminina desde sempre, apesar das evoluções, apesar das conquistas. A ler, urgentemente.


Cecília Barreira nasceu em Lisboa e é Doutorada e Agregada em Cultura Portuguesa
Contemporânea.
É Professora e Investigadora do CHAM-FCSH/Universidade Nova de Lisboa.
Iniciou a sua atividade poética com o livro, Lua Lenta, de 1984 e tem vindo a publicar alguns livros de poesia, estando inserida em antologias.
Em 1992 publicou o livro “Retrato da Burguesa Em Lisboa (1890-1930), História das Nossas Avós”, que iniciou um trilho académico sobre estudos de quotidiano no feminino
Os ensaios sobre Cultura e Pensamento Contemporâneos constituem a obra ensaística, iniciada em 1981, com o livro, “Nacionalismo e Modernismo/De Homem Cristo Filho a Almada Negreiros”, e, mais recentemente sobre alguns aspetos do Diário de Lisboa e revistas dos primórdios do século XX.

Bibliografia (Poesia):
Lua Lenta, Europress, 1984
A Sul da Memória, Europress, 1987
15 anos de Alguma Poesia, Europress, 1999
7&10, Europress, 2003
Cartas BD, Gama, 2005
Todos os Pecados do Mundo, Labirinto, 2014
Com o pseudónimo de Luís Silva:
Macaco Esquisito, Ecopy, 2009
Os  Pecados de Todos em Múltiplo, Ecopy, 2009
Com o pseudónimo Eva Figueiredo:
Conhecimento, Mecanismo Humano, 2013
Existência, Mecanismo Humano, 2013
Antologias:
Cintilações da Sombra II e III, sob o nome de Cecília Barreira,  Labirinto, 2015
Gosto10
Principais Obras Publicadas
Desvarios e Erros Meus
2018, Cordão de Leitura
O amor como leitmotiv é apresentado como movimento dialético e ascensional que parte do corpo para as ideias, do concreto ao abstracto, percorrendo os diversos poemas com uma energia tão viva e cativante como também paralisante e perturbadora. Assim sucede porque neste retrato totalizante do amor a autora não esquece … Ler mais
              Todos os Pecados do Mundo
2014, Labirinto
Existência
2013, Mecanismo Humano
              Conhecimento
2013, Mecanismo Humano
7&10
2003, Europress
15 anos de Alguma Poesia
1999, Europress
A Sul da Memória
1987, Europress
Lua Lenta
1984, Europress

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19/08/2017

A Mulher que venceu Don Juan

Simion Doru Cristea

Se à partida Don Juan é de descendência espanhola, a mulher que venceu Don Juan é, indubitavelmente, portuguesa e ela, por sua vez, reúne os nomes de todas as mulheres. As personagens femininas que exemplificam no romance esta qualidade constituem tão só um enquadramento diegético.
Teresa Martins Marques
A capa deste livro (editora Âncora, 2013) concebida por Sofia Travassos Diogo, utilizando um pormenor da célebre pintura de Gustav KlimtO beijo, sublinha o valor afetivo da relação interiorizada pela amada de olhos fechados para absorver o prazer mais além do toque físico dos corpos, numa sedimentação de memórias e aberturas física, emocional e mental, envolvendo o amante no seu ser para o dominar com o braço pousado sobre os seus ombros. Dos três tamanhos diferentes de letras do título da capa destaca-se à primeira vista: A mulher Don Juan e numa segunda leitura o título inteiro: A mulher que venceu Don Juan. As duas leituras são justificadas pelo romance que promove a postura feminina de Don Juan, não apenas na personagem explícita de Joana “pouco a pouco a Joana transformava-se em Doña Juana” (p. 73), mas em todas as personagens femininas. Todo o romance se afirma como uma ode dedicada à mulher, deusa e sacrifício do Amor.
Os conceitos de Don Juan e de Mulher neste romance descritivo e interpretativo não constituem um par antonímico, mas uma osmose. O valor conceptual projeta-os numa dimensão virtual, intangível, num desenrolar do amor como desejo, aspiração, fuga, encontro do desencontro, relação na qual a mulher tem a vantagem de dominar a situação uma vez que Don Juan, concentrado no seu desejo de conquista da mulher, abstrai-se da realidade imediata, marcando fisicamente uma ausência, enquanto a mulher, detentora do mistério da vida, tem uma ligação ontológica com o imanente, conferindo-lhe todas as vantagens de conquista do indivíduo. Apenas ele próprio se vê e se considera Don Juan. Por outro lado, uma mulher apaixonada identifica-se no seu íntimo com aquele que ama, conduzindo-o afetivamente. No terceiro grau desta hipóstase ficcional dominadora de Don Juan assumida pela mulher, temos a sabedoria, a razão e a previsão do amor-crime colocado numa cadeia repetitiva e, como tal, o comportamento daquele, que uma vez cometendo um crime vai voltar a fazê-lo em várias situações com várias vítimas, é vigiado. Configura-se deste modo um nível superior da condição de Don Juan feminino oferecido pela própria experiência de vida à Dr.ª Lúcia que abriu, também ela, a luta contra a aterradora hidra que foi desde sempre a violência da parte do fisicamente mais forte e intelectualmente fraco.
As personagens masculinas deste romance, embora aspirando-o, não conseguem assumir a condição de Don Juan, personagem tornada objeto de reflexão filosófica e interpretação literária com ricas referências bibliográficas em torno de O Diário do Sedutor do “Dinamarquês Universal” (p. 229) Sørel Kierkegaard, “escolhido como tema-base da tese de doutoramento, pela sua [Manuela] imensa curiosidade sobre comportamentos humanos” (p. 116).
O mais perigoso, o Dr. Amaro Fróis, “cirurgião plástico muito conhecido” (p. 168), relaciona-se com a violência, não com o amor e não passa de um violador, como o apresenta sinteticamente Lúcia ao comissário do Porto Paulo Ventura: “O Amaro é um violador inveterado. Violou-me a mim, à Sara, ao Manaças e sei lá se também à Joana, que bem pode ser filha dele. O homem é um refinado psicopata” (p. 284). No seu refinamento erótico evidencia também atitudes homossexuais como no passado para com o Rui, o jovem namorado de Lúcia que morreu num acidente de carro por ele provocado, atitudes esclarecidas pela violação de Manaças e na confissão da Sara: “Ele deu-me a entender, por meias palavras, que sabia da minha ligação com o Alberto e chegou mesmo a insinuar que não se importaria, se eu lhe contasse pormenores de cama. Agora faz todo o sentido. O Amaro simularia o sexo mental com o Alberto através de mim, se eu tivesse alinhado a contar” (p. 290).
Da geração mais jovem, Carlos Manaças “um sujeito estranho, de Avintes, professor até há pouco tempo em Lisboa” (p. 273) como é apresentado no seu relato policial pelo comissário Paulo Ventura, assume o papel de confessor traidor dos seus amigos, entre os quais o Luís, superficial em tudo e, como tal, assume a imagem de dandy na Faculdade de Letras de Lisboa e nas suas relações amorosas e, porque nunca ia ao fundo das coisas, mudou várias vezes o tema da tese de doutoramento, aliás nunca terminada. Como vítima, é violado pelo seu próprio pai, Dr. Amaro Fróis, tendo sido também testemunha ocular da sua morte baleado pela sua mãe, Gertrudes (p. 312). Sendo o principal suspeito deste crime, Manaças foge para o Brasil donde passa para a Argentina onde consegue, finalmente, encontrar a sua vocação de animador, cantor e dançarino de tango em Buenos Aires, conhecido como Don Carlito (p. 317).
Luís apresenta-se como um intelectual que exercita a sua arte de fascínio intelectual ex catedra sobre as suas alunas, uma delas a sua própria mulher, Joana, que há alguns meses o deixara sozinho numa vida insípida e monótona. Preso na sua paixão por Joana, vive desesperadamente a traição do amor da sua vida, a sua alma gémea, mete-se nos copos com os amigos para esquecer, sendo um deles o mais jovem Carlos Manaças (cf. Capítulo In vino veritas, pp. 47–54). O raio de luz entra na sua casa com a sua empregada doméstica Esmeralda Cardoso, identidade emprestada por Sara Fróis (p. 40). Eles vão encher e completar as suas vidas de uma forma mútua. Tiveram sorte que a Dr.ª Lúcia tenha planejado entrelaçar as suas vidas.
Francisco, namorado de Lúcia, é o seu verdadeiro colega de coração, uma presença masculina quente e protetora, um apoiante ativo das suas causas social e moral, uma sombra luminosa da qual uma mulher determinada como ela necessita neste mundo.
As histórias de vida de várias personalidades históricas referenciadas ao longo deste romance, e não sou poucas, relacionam-se com a condição do conquistador, caçador e vingativo, ou daquele que sofre condenado injustamente por causa do seu amor correspondido. Mencionamos o enredo histórico do conde Gregório Taumaturgo de Castelo Branco apresentado no romance de Fernando Campos O Prisioneiro da Torre Velha, sobre Dona Brázia de Vilhena, casada com o seu tio, Taumaturgo, um criminoso em série, que mata as suas esposas (pp. 107–111) e planeja igualmente a punição de Dom Francisco “condenado pela vingança do marido traído e pelos ciúmes do rei” [D. João IV] (p. 110), também amante da condessa Dona Mariana, a terceira esposa do Taumaturgo. Dom Francisco, o poeta apaixonado, perdeu todos os seus bens ficando preso dos 33 aos 45 anos (p. 111).
O lado inédito deste romance de 324 páginas estruturado em 34 capítulos é a anulação do limite entre a ficção e a realidade conhecida hoje pelos leitores. A autora oferece-nos uma sobreposição das personagens com pessoas reais referenciadas entre as quais se conta a própria autora (p. 154). Os nossos conhecidos e reconhecidos encontrados no romance, com os seus nomes, maneira de ser e estar, seus horizontes culturais e afetivos preenchem de vida os lugares e instituições como APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), a Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa manuelina, Cidade Universitária, Alfama, Jardim Constantino, Saldanha, Avenida da Liberdade, Chiado, Tavira com as suas duas Associações ativas e maior renome no estrangeiro do que em Portugal: a Associação Internacional de Paremiologia e o Núcleo de Amigos Fotógrafos do Algarve (cf. o capítulo Na Veneza Algarvia, pp. 147–162). De norte a sul todo o Portugal está presente neste romance, como um pódio histórico-cultural digno para a mulher que saiu do mito e se incorporou na atual intelectual que vence Don Juan, sem sair do espaço cultural ibérico onde Portugal está carregado de memórias dos atos históricos sedimentados durante séculos. As personagens vivenciam sonhos materializados numa história mantida viva pelos intelectuais deste país que atualizam o passado e também, por sua vez, se sedimentam na história, ficando vivos no imaginário inalterável do romance. A entrada das pessoas ainda em vida no romance anula o valor estático da eternidade expressa nas lápides dos túmulos e por isso, para além de qualquer amizade, têm que mostrar os seus reconhecimentos para continuarem a presenciar no romance a sua vida normal afetiva e intelectual, longe de qualquer exemplaridade. Como intelectuais são os intérpretes que chamam à vida tantas e tantas histórias e obras e, falando sobre a genialidade dos outros, revelam o seu próprio valor.
Consideramos não muito certa a questão: “Quem é a mulher que venceu Don Juan?” Porque neste romance cada mulher conhecedora deste mito vence Don Juan, inclusivamente a Filomena que “tinha aparecido morta com um golpe fundo na garganta e o bandido foi entregar-se todo lampeiro e cumpridor das leis” (p. 45). Esta interpretação contravém à intenção da autora de criar um romance na linha de arte com tendência, para promover e apoiar a luta contra a violência doméstica e de qualquer outro tipo. Não seguimos igualmente a linha do complexo de Estocolmo, que defende o agressor culpando a vítima. Como Filomena venceu Don Juan uma vez que o bandido a matou? Não suportando mais a sua vida doméstica, o tratamento inumano, fugiu de casa e pediu ajuda à APAV, viveu com outras colegas do mesmo sofrimento na casa de férias da Dr.ª Lúcia no Monte da Caparica, lugar de onde desapareceu em circunstâncias desconhecidas que levantam várias suposições, o certo é que a caça foi ao reencontro com o caçador. Ela venceu Don Juan, o homem que amava, sempre presente no seu coração, confessando ao agressor o seu grande amor pela vida e pelo homem dos seus sonhos que sempre irá amar, a verdadeira imagem do seu amante, a única que lhe deu razão para viver. Filomena venceu Don Juan porque o bandido entendeu que nunca iria chegar à nobreza da sua pobre mulher, ele não é e nunca vai ser Don Juan e por isso a besta ofereceu-lhe a oportunidade de ela própria vencer Don Juan através da morte, abraçando-o eternamente, como no quadro O Beijo de Gustav Klimt.
A personagem principal, Sara Fróis, a princesa à procura do seu reinado, vence duas vezes o Don Juan à sua maneira: através do coração de criança e o horizonte juvenil de virgem, Sara vence Don Juan que era Amaro, seu marido com dupla personalidade a quem foi entregue pelos seus pais e, como Esmeralda, conquista com o seu coração e horizonte de mulher delicada e culta o académico Luís, comentador imaginativo de Don Juan. Assistimos à redação do diário de Sara escrito num estado místico de alma, no qual entrelaça a alegria, a inocência pueril e o exuberante desejo juvenil com a sua sede de conhecimentos numa formação académica interdita na juventude pelo seu marido, a sua sensibilidade, cultura e horizonte de autodidata que falava fluentemente várias línguas, escrevia chicoteada pelas lembranças de tantas traições, da parte dos seus pais, do marido e criadas, restando-lhe apenas fieis o seu motorista Joaquim que lhe salvou a vida após o aborto provocado por Amaro (pp. 16–18), o comissário Paulo que investigou o seu caso de violência doméstica, a Dr.ª Lúcia e todos aqueles que se solidarizaram com o seu sofrimento. Abraça-a inconscientemente o calor vindo da parte de Luís, o homem que mais respeitava, vivendo juntos o desejo da união e amor sempre sonhados. Encontra alívio e calma na sua escrita oferecida ao seu único leitor-confessor, Luís, estratagema libertador do seu íntimo,
A Dr.ª Lúcia vence os seus Don Juans e o número de várias configurações afetivas e imaginativas de Don Juan das suas pacientes protegidas pela APAV. Domina e interpreta com a sua sobrinha Manuela o horizonte cultural desta constante intelectual e paradigma humano, incentivando Manuela a estudar esta face da realidade humana.
Indo mais além das referências comparatistas literárias com Werther “Werther é interioridade, Don Juan é exterioridade, Werther é haute couture, Don Juan é pronto-a-despir, Werther é gourmet, Don Juan é fast food” (p. 73), ou a sua representação decrépita na qual “a velhice é o verdadeiro castigo de Don Juan quando as armas da sedução começam a falhar” (pp. 233–234) com referência à peça La mort qui fait le trottoir de Montherlant, nas conversas com a sua tia Dr.ª Lúcia sobre a condição do sedutor, a vestal Manuela vence Don Juan especializando-se no estudo deste tema, evoca o lado mítico resumido por Kierkegaard em três palavras: “fruição, dúvida e desespero” e “aquelas três palavras correspondem a três figuras: Don Juan, Fausto e Ahasverus” (p.144) no sentido que “estas três figuras não constituem somente tipos históricos, são tipos humanos que se encontram igualmente nos dias de hoje” (ibidem). Liga Don Juan à condição do Sísifo: “É assim que vejo as conquistas de Don Juan. Uma auto condenação a subir e deixar cair a pedra. Continuamente.” (ibidem, p. 238). Abordando a complexidade da sedução, a mesma pesquisadora relaciona-a com o “complexo de Édipo”: “No donjuanismo existe frequentemente um complexo de Édipo, não resolvido. A volubilidade indicia imaturidade afetiva, medo de assumir compromissos próprios da adultícia, somada à ausência de culpa e de remorso” (p. 233). Não faltam as referências à obra de Rougement, Les Mythes de L’Amour onde se insiste no “déficit identitário de Don Juan” (p. 234), de onde surge o seu relacionamento com o mito de Narciso: “Não sente afeto por ninguém a não ser por si mesmo. Sendo que o afeto pelo outro define a identidade, Don Juan-Narciso é uma máscara ambulante, um lugar vazio” (p. 234), este aspeto visa a atividade intelectual que abstrai a pessoa, projetando-a no mundo interior da leitura, imaginação, reflexão, e por isso Don Juan é o intelectual que exige da sua parte e dos outros o absoluto, a perfeição, desejo que alimenta o seu contínuo descontentamento. Não falta a referência à metamorfose que transforma o amador na pessoa amada: “A ninfa a que se alude é Cénis, transformada por Posídon em Ceneu, o homem por quem ela se tinha apaixonado. Este desejo expresso pelo sedutor de transformar a amadora no amado, em processo fusional de assimilação e de transferência do género, é bem significativo do recôndito ninguém fuma um cigarro duas vezes” (p. 238). Deste modo, fecha-se o círculo, Don Juan ultrapassando a limitação do género como esclarece Lúcia: “quem disse que o donjuanismo é exclusivo dos homens? Não, Luís, somos todos iguais, homens ou mulheres, para o bem e para o mal” (pp. 73–74).
A leitura deste romance cativa, informa e educa-nos, oferecendo-nos referências bibliográficas de mais de 45 títulos, sem esquecer várias edições originais e traduções da obra de Sørel Kierkegaard; no seu todo, o romance constitui-se como uma pleitearia argumentada e bem imaginada para a causa nobre de provar que as mulheres são Don Juan e incentivando-as a serem sempre aquelas que o vencem, nunca desistindo de lutar na defesa dos seus valores e dignidade, promovendo a igualdade do ser humano, bem como cultivando a nobreza do ser. Como numa verdadeira digressão pelo país, são referenciados nomes de restaurantes e cafés que podemos hoje encontrar e frequentar para nossa grande satisfação como: o Restaurante Olivier da Rua do Alecrim em Lisboa, (p. 15), Restaurante Cave Real, na Avenida 5 de Outubro, (p. 65), O Casarão de Tavira (p. 152), o Café Venezade Tavira (p. 161), o Solar dos Presuntos, (p. 173), o Serra da Estrela no Atrium Saldanha em Lisboa, (p. 173), o Café Majestic do Porto (p. 206) e tantos outros, cada um com a sua caraterística ambiental e paladares próprios, inesquecíveis.
Terminada a leitura, ficamos convencidos que a própria autora Teresa Martins Marques venceu Don Juan da melhor forma possível, como testemunham as personagens que decifraram a mensagem e perceberam perfeitamente o que têm de fazer, e nós todos, sendo para muitos e muitas um incentivo de mudança de vida.
O esplendor da mulher portuguesa ou A Mulher que venceu Don Juan, romance de Teresa Martins Marques, Âncora Editora, 2013, 326 p, formato 150 × 230 mm
Simion Doru Cristea
Se à partida Don Juan é de descendência espanhola, a mulher que venceu Don Juan é, indubitavelmente, portuguesa e ela, por sua vez, reúne os nomes de todas as mulheres. As personagens femininas que exemplificam no romance esta qualidade constituem tão só um enquadramento diegético.
A capa deste livro concebida por Sofia Travassos Diogo, utilizando um pormenor da célebre pintura de Gustav Klimt O beijo, sublinha o valor afetivo da relação interiorizada pela amada de olhos fechados para absorver o prazer mais além do toque físico dos corpos, numa sedimentação de memórias e aberturas física, emocional e mental, envolvendo o amante no seu ser para o dominar com o braço pousado sobre os seus ombros. Dos três tamanhos diferentes de letras do título da capa destaca-se à primeira vista: A mulher Don Juan e numa segunda leitura o título inteiro: A mulher que venceu Don Juan. As duas leituras são justificadas pelo romance que promove a postura feminina de Don Juan, não apenas na personagem explícita de Joana “pouco a pouco a Joana transformava-se em Doña Juana” (p. 73), mas em todas as personagens femininas. Todo o romance se afirma como uma ode dedicada à mulher, deusa e sacrifício do Amor.
Os conceitos de Don Juan e de Mulher neste romance descritivo e interpretativo não constituem um par antonímico, mas uma osmose. O valor conceptual projeta-os numa dimensão virtual, intangível, num desenrolar do amor como desejo, aspiração, fuga, encontro do desencontro, relação na qual a mulher tem a vantagem de dominar a situação uma vez que Don Juan, concentrado no seu desejo de conquista da mulher, abstrai-se da realidade imediata, marcando fisicamente uma ausência, enquanto a mulher, detentora do mistério da vida, tem uma ligação ontológica com o imanente, conferindo-lhe todas as vantagens de conquista do indivíduo. Apenas ele próprio se vê e se considera Don Juan. Por outro lado, uma mulher apaixonada identifica-se no seu íntimo com aquele que ama, conduzindo-o afetivamente. No terceiro grau desta hipóstase ficcional dominadora de Don Juan assumida pela mulher, temos a sabedoria, a razão e a previsão do amor-crime colocado numa cadeia repetitiva e, como tal, o comportamento daquele, que uma vez cometendo um crime vai voltar a fazê-lo em várias situações com várias vítimas, é vigiado. Configura-se deste modo um nível superior da condição de Don Juan feminino oferecido pela própria experiência de vida à Dr.ª Lúcia que abriu, também ela, a luta contra a aterradora hidra que foi desde sempre a violência da parte do fisicamente mais forte e intelectualmente fraco.
As personagens masculinas deste romance, embora aspirando-o, não conseguem assumir a condição de Don Juan, personagem tornada objeto de reflexão filosófica e interpretação literária com ricas referências bibliográficas em torno de O Diário do Sedutor do “Dinamarquês Universal” (p. 229) Sørel Kierkegaard, “escolhido como tema-base da tese de doutoramento, pela sua [Manuela] imensa curiosidade sobre comportamentos humanos” (p. 116).
O mais perigoso, o Dr. Amaro Fróis, “cirurgião plástico muito conhecido” (p. 168), relaciona-se com a violência, não com o amor e não passa de um violador, como o apresenta sinteticamente Lúcia ao comissário do Porto Paulo Ventura: “O Amaro é um violador inveterado. Violou-me a mim, à Sara, ao Manaças e sei lá se também à Joana, que bem pode ser filha dele. O homem é um refinado psicopata” (p. 284). No seu refinamento erótico evidencia também atitudes homossexuais como no passado para com o Rui, o jovem namorado de Lúcia que morreu num acidente de carro por ele provocado, atitudes esclarecidas pela violação de Manaças e na confissão da Sara: “Ele deu-me a entender, por meias palavras, que sabia da minha ligação com o Alberto e chegou mesmo a insinuar que não se importaria, se eu lhe contasse pormenores de cama. Agora faz todo o sentido. O Amaro simularia o sexo mental com o Alberto através de mim, se eu tivesse alinhado a contar” (p. 290).
Da geração mais jovem, Carlos Manaças “um sujeito estranho, de Avintes, professor até há pouco tempo em Lisboa” (p. 273) como é apresentado no seu relato policial pelo comissário Paulo Ventura, assume o papel de confessor traidor dos seus amigos, entre os quais o Luís, superficial em tudo e, como tal, assume a imagem de dandy na Faculdade de Letras de Lisboa e nas suas relações amorosas e, porque nunca ia ao fundo das coisas, mudou várias vezes o tema da tese de doutoramento, aliás nunca terminada. Como vítima, é violado pelo seu próprio pai, Dr. Amaro Fróis, tendo sido também testemunha ocular da sua morte baleado pela sua mãe, Gertrudes (p. 312). Sendo o principal suspeito deste crime, Manaças foge para o Brasil donde passa para a Argentina onde consegue, finalmente, encontrar a sua vocação de animador, cantor e dançarino de tango em Buenos Aires, conhecido como Don Carlito (p. 317).
Luís apresenta-se como um intelectual que exercita a sua arte de fascínio intelectual ex catedra sobre as suas alunas, uma delas a sua própria mulher, Joana, que há alguns meses o deixara sozinho numa vida insípida e monótona. Preso na sua paixão por Joana, vive desesperadamente a traição do amor da sua vida, a sua alma gémea, mete-se nos copos com os amigos para esquecer, sendo um deles o mais jovem Carlos Manaças (cf. Capítulo In vino veritas, pp. 47–54). O raio de luz entra na sua casa com a sua empregada doméstica Esmeralda Cardoso, identidade emprestada por Sara Fróis (p. 40). Eles vão encher e completar as suas vidas de uma forma mútua. Tiveram sorte que a Dr.ª Lúcia tenha planejado entrelaçar as suas vidas.
Francisco, namorado de Lúcia, é o seu verdadeiro colega de coração, uma presença masculina quente e protetora, um apoiante ativo das suas causas social e moral, uma sombra luminosa da qual uma mulher determinada como ela necessita neste mundo.
As histórias de vida de várias personalidades históricas referenciadas ao longo deste romance, e não sou poucas, relacionam-se com a condição do conquistador, caçador e vingativo, ou daquele que sofre condenado injustamente por causa do seu amor correspondido. Mencionamos o enredo histórico do conde Gregório Taumaturgo de Castelo Branco apresentado no romance de Fernando Campos O Prisioneiro da Torre Velha, sobre Dona Brázia de Vilhena, casada com o seu tio, Taumaturgo, um criminoso em série, que mata as suas esposas (pp. 107–111) e planeja igualmente a punição de Dom Francisco “condenado pela vingança do marido traído e pelos ciúmes do rei” [D. João IV] (p. 110), também amante da condessa Dona Mariana, a terceira esposa do Taumaturgo. Dom Francisco, o poeta apaixonado, perdeu todos os seus bens ficando preso dos 33 aos 45 anos (p. 111).
O lado inédito deste romance de 324 páginas estruturado em 34 capítulos é a anulação do limite entre a ficção e a realidade conhecida hoje pelos leitores. A autora oferece-nos uma sobreposição das personagens com pessoas reais referenciadas entre as quais se conta a própria autora (p. 154). Os nossos conhecidos e reconhecidos encontrados no romance, com os seus nomes, maneira de ser e estar, seus horizontes culturais e afetivos preenchem de vida os lugares e instituições como APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), a Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa manuelina, Cidade Universitária, Alfama, Jardim Constantino, Saldanha, Avenida da Liberdade, Chiado, Tavira com as suas duas Associações ativas e maior renome no estrangeiro do que em Portugal: a Associação Internacional de Paremiologia e o Núcleo de Amigos Fotógrafos do Algarve (cf. o capítulo Na Veneza Algarvia, pp. 147–162). De norte a sul todo o Portugal está presente neste romance, como um pódio histórico-cultural digno para a mulher que saiu do mito e se incorporou na atual intelectual que vence Don Juan, sem sair do espaço cultural ibérico onde Portugal está carregado de memórias dos atos históricos sedimentados durante séculos. As personagens vivenciam sonhos materializados numa história mantida viva pelos intelectuais deste país que atualizam o passado e também, por sua vez, se sedimentam na história, ficando vivos no imaginário inalterável do romance. A entrada das pessoas ainda em vida no romance anula o valor estático da eternidade expressa nas lápides dos túmulos e por isso, para além de qualquer amizade, têm que mostrar os seus reconhecimentos para continuarem a presenciar no romance a sua vida normal afetiva e intelectual, longe de qualquer exemplaridade. Como intelectuais são os intérpretes que chamam à vida tantas e tantas histórias e obras e, falando sobre a genialidade dos outros, revelam o seu próprio valor.
Consideramos não muito certa a questão: “Quem é a mulher que venceu Don Juan?” Porque neste romance cada mulher conhecedora deste mito vence Don Juan, inclusivamente a Filomena que “tinha aparecido morta com um golpe fundo na garganta e o bandido foi entregar-se todo lampeiro e cumpridor das leis” (p. 45). Esta interpretação contravém à intenção da autora de criar um romance na linha de arte com tendência, para promover e apoiar a luta contra a violência doméstica e de qualquer outro tipo. Não seguimos igualmente a linha do complexo de Estocolmo, que defende o agressor culpando a vítima. Como Filomena venceu Don Juan uma vez que o bandido a matou? Não suportando mais a sua vida doméstica, o tratamento inumano, fugiu de casa e pediu ajuda à APAV, viveu com outras colegas do mesmo sofrimento na casa de férias da Dr.ª Lúcia no Monte da Caparica, lugar de onde desapareceu em circunstâncias desconhecidas que levantam várias suposições, o certo é que a caça foi ao reencontro com o caçador. Ela venceu Don Juan, o homem que amava, sempre presente no seu coração, confessando ao agressor o seu grande amor pela vida e pelo homem dos seus sonhos que sempre irá amar, a verdadeira imagem do seu amante, a única que lhe deu razão para viver. Filomena venceu Don Juan porque o bandido entendeu que nunca iria chegar à nobreza da sua pobre mulher, ele não é e nunca vai ser Don Juan e por isso a besta ofereceu-lhe a oportunidade de ela própria vencer Don Juan através da morte, abraçando-o eternamente, como no quadro O Beijo de Gustav Klimt.
A personagem principal, Sara Fróis, a princesa à procura do seu reinado, vence duas vezes o Don Juan à sua maneira: através do coração de criança e o horizonte juvenil de virgem, Sara vence Don Juan que era Amaro, seu marido com dupla personalidade a quem foi entregue pelos seus pais e, como Esmeralda, conquista com o seu coração e horizonte de mulher delicada e culta o académico Luís, comentador imaginativo de Don Juan. Assistimos à redação do diário de Sara escrito num estado místico de alma, no qual entrelaça a alegria, a inocência pueril e o exuberante desejo juvenil com a sua sede de conhecimentos numa formação académica interdita na juventude pelo seu marido, a sua sensibilidade, cultura e horizonte de autodidata que falava fluentemente várias línguas, escrevia chicoteada pelas lembranças de tantas traições, da parte dos seus pais, do marido e criadas, restando-lhe apenas fieis o seu motorista Joaquim que lhe salvou a vida após o aborto provocado por Amaro (pp. 16–18), o comissário Paulo que investigou o seu caso de violência doméstica, a Dr.ª Lúcia e todos aqueles que se solidarizaram com o seu sofrimento. Abraça-a inconscientemente o calor vindo da parte de Luís, o homem que mais respeitava, vivendo juntos o desejo da união e amor sempre sonhados. Encontra alívio e calma na sua escrita oferecida ao seu único leitor-confessor, Luís, estratagema libertador do seu íntimo,
A Dr.ª Lúcia vence os seus Don Juans e o número de várias configurações afetivas e imaginativas de Don Juan das suas pacientes protegidas pela APAV. Domina e interpreta com a sua sobrinha Manuela o horizonte cultural desta constante intelectual e paradigma humano, incentivando Manuela a estudar esta face da realidade humana.
Indo mais além das referências comparatistas literárias com Werther “Werther é interioridade, Don Juan é exterioridade, Werther é haute couture, Don Juan é pronto-a-despir, Werther é gourmet, Don Juan é fast food” (p. 73), ou a sua representação decrépita na qual “a velhice é o verdadeiro castigo de Don Juan quando as armas da sedução começam a falhar” (pp. 233–234) com referência à peça La mort qui fait le trottoir de Montherlant, nas conversas com a sua tia Dr.ª Lúcia sobre a condição do sedutor, a vestal Manuela vence Don Juan especializando-se no estudo deste tema, evoca o lado mítico resumido por Kierkegaard em três palavras: “fruição, dúvida e desespero” e “aquelas três palavras correspondem a três figuras: Don Juan, Fausto e Ahasverus” (p.144) no sentido que “estas três figuras não constituem somente tipos históricos, são tipos humanos que se encontram igualmente nos dias de hoje” (ibidem). Liga Don Juan à condição do Sísifo: “É assim que vejo as conquistas de Don Juan. Uma auto condenação a subir e deixar cair a pedra. Continuamente.” (ibidem, p. 238). Abordando a complexidade da sedução, a mesma pesquisadora relaciona-a com o “complexo de Édipo”: “No donjuanismo existe frequentemente um complexo de Édipo, não resolvido. A volubilidade indicia imaturidade afetiva, medo de assumir compromissos próprios da adultícia, somada à ausência de culpa e de remorso” (p. 233). Não faltam as referências à obra de Rougement, Les Mythes de L’Amour onde se insiste no “déficit identitário de Don Juan” (p. 234), de onde surge o seu relacionamento com o mito de Narciso: “Não sente afeto por ninguém a não ser por si mesmo. Sendo que o afeto pelo outro define a identidade, Don Juan-Narciso é uma máscara ambulante, um lugar vazio” (p. 234), este aspeto visa a atividade intelectual que abstrai a pessoa, projetando-a no mundo interior da leitura, imaginação, reflexão, e por isso Don Juan é o intelectual que exige da sua parte e dos outros o absoluto, a perfeição, desejo que alimenta o seu contínuo descontentamento. Não falta a referência à metamorfose que transforma o amador na pessoa amada: “A ninfa a que se alude é Cénis, transformada por Posídon em Ceneu, o homem por quem ela se tinha apaixonado. Este desejo expresso pelo sedutor de transformar a amadora no amado, em processo fusional de assimilação e de transferência do género, é bem significativo do recôndito ninguém fuma um cigarro duas vezes” (p. 238). Deste modo, fecha-se o círculo, Don Juan ultrapassando a limitação do género como esclarece Lúcia: “quem disse que o donjuanismo é exclusivo dos homens? Não, Luís, somos todos iguais, homens ou mulheres, para o bem e para o mal” (pp. 73–74).
A leitura deste romance cativa, informa e educa-nos, oferecendo-nos referências bibliográficas de mais de 45 títulos, sem esquecer várias edições originais e traduções da obra de Sørel Kierkegaard; no seu todo, o romance constitui-se como uma pleitearia argumentada e bem imaginada para a causa nobre de provar que as mulheres são Don Juan e incentivando-as a serem sempre aquelas que o vencem, nunca desistindo de lutar na defesa dos seus valores e dignidade, promovendo a igualdade do ser humano, bem como cultivando a nobreza do ser. Como numa verdadeira digressão pelo país, são referenciados nomes de restaurantes e cafés que podemos hoje encontrar e frequentar para nossa grande satisfação como: o Restaurante Olivier da Rua do Alecrim em Lisboa, (p. 15), Restaurante Cave Real, na Avenida 5 de Outubro, (p. 65), O Casarão de Tavira (p. 152), o Café Venezade Tavira (p. 161), o Solar dos Presuntos, (p. 173), o Serra da Estrela no Atrium Saldanha em Lisboa, (p. 173), o Café Majestic do Porto (p. 206) e tantos outros, cada um com a sua caraterística ambiental e paladares próprios, inesquecíveis.
Terminada a leitura, ficamos convencidos que a própria autora Teresa Martins Marques venceu Don Juan da melhor forma possível, como testemunham as personagens que decifraram a mensagem e perceberam perfeitamente o que têm de fazer, e nós todos, sendo para muitos e muitas um incentivo de mudança de vida.


Simion Doru Cristea nasceu em Bistrița, Roménia a 15.04.1965. Licenciado pela Faculdade de Filologia da Universidade Babeș-Bolyai de Cluj-Napoca,  Roménia, Curso de cinematografia, Cluj-Napoca, Alta Escola de Pós-Graduação de Filologia e História na mesma Universidade, o primeiro doutoramento em Filologia (Linguística Geral) Faculdade de Letras da Universidade “Babeș-Bolyai” de Cluj-Napoca (2001), o segundo doutoramento em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (2011). Membro do CLEPUL-FLUL, da Associação Internacional de Paremiologia AIP/IAP, da APT, professor no Instituto Cultural Romeno de Lisboa. As áreas da sua atividade cultural: folclore, linguística, literatura, artes, paremiologia, religião, história, psicologia da educação e filosofia. Participou em vários Colóquios Internacionais em Portugal e no estrangeiro. Publicou diferentes artigos em revistas, livros coletivos e livros: Manifestul elevului de nota 10 [O manifesto do aluno de nota 20], Casa de Editură Dokia, 2001, Funcția symbolic-mitică în textul religios [A função simbólico-mítica no texto religioso], Cluj-Napoca, GEDO Publishing House, 2005; Navegando no mar que nos navega: abordagens à obra Mar me quer de Mia Couto Lisboa, 2005 (co-autor), O homem ser falante, Lisboa, Pearlbooks, 2013; Să trăiți, Domule Președinte, romance, Cluj-Napoca, Casa de Editură Dokia, 2014, traduzido para Português: Viva, Senhor Presidente, Lisboa, Fólio Exemplar, 2017. Traduziu com Maria João Coutinho para língua romena: Edward Zellem, Afgan Proverbs Illustrated in Romanian and Dari Persian. Proverbe afgane illustrate, Cultures Direct LLC of USA, 2013. [Provérbios afegãos ilustrados]. Padre António Vieira, Opere alese [Obras seletas], Vitório Káli, Tupáriz și Șerpii Cerului [Tupáriz e as Serpentes do Céu], Ernesto Rodrigues, O fericire perfectă  [Uma felicidade perfeita], Iași, Editora Timpul, 2017. Realizador de vários filmes, dois apresentados no FESTin Lisboa, Salvador da Bahía e Guiné Bissau: Sem anos de solidão, 2012, Fraternuras, 2014.