
Imagine-se
o trabalho do autor do folhetim do século XIX, o ter de prender o leitor ao seu
texto, cativá-lo, fideliza-lo, de forma a fazê-lo seguir semana após semana, ou
mês após mês, a trama da sua novela ou romance. Imagine-se o escritor a esperar
que nas várias casas as meninas, mais os seus pais, as mães, os jovens
cavalheiros e mais as senhoras da copa e as criadas de dentro e de fora tenham
os corações a bater de entusiasmo, porque chega o jornal ou a revista com os
sonhados capítulos. E, depois, quando as páginas chegarem ao fim, o autor
imagina-os a suspirar de curiosidade pelo que se seguirá e que ainda está na
sua pena. Ágil, realista, rica de eventos, plena da emoção, das misérias e das
grandezas da condição humana, a narrativa era pensada na relação próxima com o
leitor, numa ligação de sedução, de cumplicidade e de mútuo incentivo
estabelecida entre o escritor e o seu público. O leitor sentia como suas as
palavras que lhe chegavam desse autor que teimava em lhe falar, como um vizinho
de casa, ou de coração. Teresa Martins Marques optou, antes da publicação em
livro do romance A Mulher que Venceu Don Juan, pela sua edição em capítulos no
Facebook, recorrendo e reinventando as técnicas do folhetim à nova realidade,
mas produzindo o mesmo efeito de outrora nos leitores que a seguiam – a
curiosidade pelo próximo capítulo, a alegria de ver chegar um novo, o sentir-se
preso a um fio de uma história que passa a viver connosco, como se as
personagens andassem lá por casa, os ambientes se interseccionassem, real e
imaginário unidos. Um efeito que me faz vir à mente a ideia do oblíquo, o de
Fernando Pessoa quando olhava cair a chuva.