06/07/2014

«A Mulher que Venceu Don Juan» é um "PAGE TURNER" - Tertúlia


A Mulher que Venceu Don Juan é um romance que do começo até ao fim engaja a curiosidade e a atenção do leitor. Um page turner, como se diz lá por onde moro. Tal como o(s) seu(s) enredo(s), também a temática, cobrindo questões significativas e de todos os tempos, como relações filiais e de género (para nomear apenas as mais óbvias), despertam grande interesse pela sua pertinência e actualidade. Se algo me inspira alguma reticência será o que eu definiria como tendência para radicalizar comportamentos e temperamentos, gerando situações e personagens talvez demasiado extremadas para poderem sempre captar as profundas complexidades e nuances da vida humana.
Leonor Simas-Almeida, Directora de Estudos de Pós-Graduação, Department of Portuguese and Brazilian Studies, Brown University (EUA)

Teresa Martins Marques
Hoje disseram-me que «A Mulher que Venceu Don Juan» é um "PAGE TURNER"
O que pensam disso?
  • Jorge Gaspar Já era.
    há 19 horas · Gosto · 1
  • Helena Vasconcelos Claro que é. Vertiginoso.Ver tradução
    há 19 horas · Gosto · 2
  • Teresa Martins Marques Helena Vasconcelos fiquei sem saber se era censura ou o contrário. Tive vergonha de perguntar à pessoa.
    há 19 horas · Gosto · 1
  • Jorge Gaspar page-turner: um livro tão excitante ou emocionante que se é obrigado a lê-lo muito rapidamente.
    há 19 horas · Gosto · 2
  • Jorge Gaspar Ou seja... na emoção a realidade.
    há 19 horas · Gosto · 1
  • Alda Balula Foi mesmo ! Era tal o entusiasmo que continua apetecer entrar outra vez nele e ficar com ele por perto ! Gostei tanto que ... tenho recomendado ! Beijinho
    há 19 horas · Gosto · 1
  • Teresa Martins Marques E isso não será um pouco invasivo da vida do leitor?
  • Jorge Gaspar Nada disso, Teresa Martins Marques. Pelo contrario, há que falar do que é preciso . E combater.
    há 19 horas · Gosto · 1
  • Anabela Canhestro Ferro Eu quando começei a ler não parei at+e acabar!!!
    há 18 horas · Gosto · 2
  • Helena Vasconcelos Querida Teresa, é claramente um elogio, o que mais poderia ser?
    há 18 horas · Gosto · 3
  • Teresa Martins Marques Não acham que eu posso ter radicalizado os comportamentos? Olhem que eu estou mesmo a aconselhar-me convosco! Isto não é fita!!!!
    há 18 horas · Gosto · 1
  • Teresa Martins Marques Helena Vasconcelos A pessoa achou que eu radicalizei os comportamentos e na opinião dela isso não será bom.
  • Jorge Gaspar Salvo melhor opinião, comportamentos radicalizados estão no "comportamento" da história(s).
  • Ana Diogo Grande elogio, Teresa! Parabéns! e é bem verdade - uma vez começando, não há como largar e depois é preciso reler com mais calma para desfrutar de todo o prazer que a leitura nos oferece! Já mt gente lho tinha dito... Beijo.
    há 18 horas · Gosto · 3
  • Teresa Martins Marques Eu parti da hipótese de que um psicopata (Amaro) não muda e vai até ao limite. Uma borderline (Joana) vai agredir até ao fim dada a sua insegurança. Um histriónico (Manaças) fará de bobo sempre, porque é a sua natureza. E são estes os radicalizados. Mas há tanta maneira de ver as coisas! E eu presto muito atenção ao que me dizem.
    há 18 horas · Gosto · 3
  • Ana Diogo Qual radicalizar!! Construiu tipos - e bem reais!! Não há exageros - gente daquela existe, (in)felizmente. Para o bem e para o mal...
    há 18 horas · Editado · Gosto · 1
  • Teresa Martins Marques E outra coisa sobre a qual tenho dúvida: Deveria eu ter metido aquela teoria sobre o donjuanismo que está na base da tese da Manuela? Houve uma pessoa que me disse que aquilo atrasa a história, que está a mais.
    há 18 horas · Gosto · 1
  • Ana Diogo Penso que fez uma caracterização muito aprofundada desses 'tipos' e os analisou múltiplos aspectos. Não vejo que haja exagero...
    há 18 horas · Gosto · 2
  • Teresa Martins Marques Este livro nasceu a ouvir os leitores e vai continuar assim. Consulto-vos sempre que tenha dúvidas. Dão-me licença de publicar no blogue do romance este diálogo de hoje ?
    há 18 horas · Gosto · 4
  • Ana Diogo Essa questão é discutível - claro que há um corte na história, mas é totalmente plausível e torna a obra maior do que um simples thriller. Não é apenas entretenimento, tb se aprende... e isso só pode ser positivo!
    há 18 horas · Editado · Gosto · 3
  • Teresa Martins Marques Uma pessoa que fez um longo elogio ao romance disse que essa parte teórica "ofende a história". Eu fiquei a matutar nisso sobretudo por causa do verbo "ofender".
  • Jorge Gaspar Desde a publicação por aqui no Facebook, que a História se foi completando com as criticas e sugestões de todos. A publicação em livro serve para ter em papel, uma sumula de um tema bem "precioso" e de necessária divulgação.
    há 18 horas · Gosto · 2
  • Ana Diogo Não concordo nada com essa opinião! Ofender no sentido de afectar, será? Mas não acho - penso que enriquece. Mas acredito que alguns leitores poderão passar por cima da parte mais 'académica' por apenas estarem interessados na estória.
    há 18 horas · Gosto · 1
  • Teresa Martins Marques Eu creio que quis dizer "partir" Todavia "ofender "é mais forte : isto no contexto de um grande elogio deixou-me perplexa, sem saber bem o que pensar.
    há 18 horas · Gosto · 2
  • Jorge Gaspar E as palavras têm sempre, ou são passivas de interpretações...
    há 18 horas · Gosto · 2
  • Ana Diogo Não senti que houvesse um corte no desenrolar da narrativa. Há partes de grande reflexão (que são mt importantes) e a questão do tema da tese e da sua discussão vem absolutamente a propósito e parece-me mt bem integrada, introduzida na altura certa. É a minha opinião de leitora que devorou o livro.
    há 18 horas · Gosto · 2
  • Elisabete Bravo Que parvoíce.... Ver tradução
    há 18 horas · Gosto · 2
  • Manuel A. Belo Silva A melhor coisa que pode acontecer a um(a) escritor(a),é ter uma obra que seja " discutível "....não há melhor...!
    há 18 horas · Gosto · 4
  • Teresa Martins Marques Com isso eu concordo Manuel.
    há 18 horas · Editado · Gosto · 4
  • Teresa Martins Marques Elisabete Bravo Parvoíce eu perguntar? Ou parvoíce terem dito isso?
    há 18 horas · Gosto · 1
  • Teresa Martins Marques Lelo Demoncorvo Como ninguém se opôs acho que poderá publicar este diálogo. No blogue preserva-se mais do que no facebook.
    há 18 horas · Gosto · 2
  • Elisabete Bravo Dizerem e ficar a pensar nisso... não há já mais que provas ou mérito para? Digo eu. Beijinho.
    há 18 horas · Gosto · 1
  • Jorge Gaspar Salvo melhor opinião, nada a opôr. Tudo o que sirva para relevar a obra, é importante.
    há 18 horas · Gosto · 1
  • Teresa Martins Marques Elisabete Bravo É justamente nas críticas que devemos pensar ainda mais. Porque os elogios são muitas vezes fruto da generosidade e da amizade. Eu fico a pensar nisso construtivamente, porque no próximo romance tomarei tudo em conta: o negativo e o positivo. Um beijinho.
    há 18 horas · Gosto · 5
  • Elisabete Bravo Lógico mas... há críticas e... críticas. 
  • Manuel A. Belo Silva Se me permite Teresa,eu não faria nem uma coisa nem outra,porque, o que agora é por alguns,considerado negativo,na próxima,certamente,considerarão positivo e assim por diante....Ora,é sabido que jamais será consensual a pessoa que se atreve a escrever uma linha que seja. No panorama da escrita nacional é recorrente até entre os " escribas cá do burgo ",haver a falta de consenso nas e das suas obras,e,não é por tal facto que vão mudar os paradigmas ou " formas " de pensamento ou concepção das suas obras.Apenas um exemplo de dois Autores que se " degladiavam " ,umas vezes,veladamente,outras nem por isso....J. Saramago e A. L. Antunes.
    há 17 horas · Gosto · 4
  • Odete Coelho Só cheguei agora...Muito interessante a conversa. Na minha opinião, a parte teórica não "ofende" a história. Mas vou confessar uma coisa: na primeira vez que li o livro, quase que saltei essa parte, tal era a sofreguidão em chegar ao fim da teia do romance. Em leituras posteriores li essa parte e com todo o interesse. Vem a propósito e, como tal, enriquece o romance. É a minha percepção.
    há 17 horas · Gosto · 3
  • Teresa Martins Marques Agradeço-vos muito a vossa colaboração. E vamos ficar com esta conversa no blogue .
    há 16 horas · Gosto · 3
  • Maria van der Bent Tb. só cheguei agora. Resumindo:1) page turner, no sentido de apetecer ler de uma fiada, SIM. No sentido de best-seller rasca, obviamente não; 2) radicalização de certas personagens, quanto muito do Amaro que é mau through and through, como dizem os ingleses. Talvez essa pessoa nunca tenha conhecido alguém como ele e por isso ache exagerado. Estou a pensar neste momento num homem, no qual a Teresa tb. deve ter pensado, cujo comportamento, pelo que fez e faz sofrer a ex-mulher, é muito equivalente, no entanto, provavelmente sem a ligação ao crime organizado, não sei...3)quanto à parte teórica, acho que não prejudica nada o decorrer da acção e gostei muito de tudo o que se relaciona com a tese, como por ex., a conversa Lúcia/Manuela, mas eu sempre gostei do Ion e outros diálogos do Platão. Este ponto é mesmo uma questão de gosto. Mas, Teresa, nunca se pode agradar a toda a gente...a maioria gosta.
    há 16 horas · Gosto · 5
  • Teresa Martins Marques Obrigada, mesmo! Lelo Demoncorvo Blogue...
  • Manuel da Mata Este livro é um marco. Creio que se pode falar de um antes e de um depois de "A Mulher que Venceu D. Juan". Sendo um romance dos nossos dias, quando lido, fica-se a gostar dele como dos grandes romances do séc. XIX. O que não é coisa pouca.
    há 7 horas · Gosto · 2
  • Paulo Chinopa Teresa , eu percebi que os personagens estavam radicalizados mas, sempre parti do princípio que esse facto presidia à lógica do folhetim e constituía uma técnica de entrosamento com dinâmica narrativa. Se os personagens fossem mais espessos, o folhetim poderia ganhar alguma coisa, admito, mas também iria perder muito. Portanto, esse compromisso não tira valor à obra. 
    Já agora, fiquei a saber o que era "page turner" vulgo: para folhear. É que a princípio pensei que era deslumbramento, por analogia com os quadros do dito pintor: Turner.... 
    há 6 horas · Gosto · 2
  • Teresa Martins Marques Paulo Chinopa A definição dos dicionários para page-turner: um livro tão excitante ou emocionante que se é obrigado a lê-lo muito rapidamente.
    há 6 horas · Gosto · 3
  • Teresa Martins Marques Ver esta definição no comentário do Jorge Gaspar, que confirmei também no dicionário.
    há 6 horas · Gosto · 2
  • Teresa Martins Marques Para que nos entendamos sobre o significado de "Radicalizar" - Levar a extremos. Não significa falta de espessura. Significa excesso revelado nos comportamentos.
    há 6 horas · Gosto · 2
  • Teresa Martins Marques Logo à noite converso mais convosco, se for da vossa vontade.
    há 6 horas · Editado · Gosto · 1
  • Ana Diogo Já tinha ontem confirmado no dicionário:
    page-turner, noun
    - a book so exciting or gripping that one is compelled to read it very rapidly.
    ...Ver mais
    Ver tradução
    há 5 horas · Gosto · 1
  • Paulo Chinopa Então é um Page Turner, lê-se de um fôlego. Lembro-me de ter devorado livros, a uma velocidade que hoje já não consigo. Agora outra questão, ler-se assim tão rapidamente é negativo? Eu sei que é boa educação e salutar comer devagar, agora, o ler....já ...Ver mais
    há 5 horas · Gosto · 2
  • Ana Diogo Penso que é no sentido em que desperta tanto interesse que o leitor deseja continuar a ler sem parar, "de um fôlego" - isso é positivo, do meu ponto de vista. Como disse antes, é o tipo de livro que se deseja reler depois com mais vagar para o apreciar no seu aspecto estilístico e na sua textura.
    há 5 horas · Gosto · 1
  • Ana Diogo E concordo com Manuel da Mata - "Este livro é um marco. Creio que se pode falar de um antes e de um depois de "A Mulher que Venceu D. Juan"."
    há 4 horas · Gosto · 1
  •  Odete Coelho Concordo com a Ana Diogo. Foi exactamente o que aconteceu comigo como já referi. Uma primeira leitura "sôfrega" com pressa de chegar ao fim e saber o mais depressa possível o desenlace da história. As leituras seguintes com muito mais vagar para apreciar todos os pormenores. Nem todos os livros me "obrigam" a duas leituras...
    • Teresa Martins Marques Obrigada a todos(as) . Um abraço grato pela vossa disponibilidade .
      há 23 horas · Gosto · 3
    • Teresa Martins Marques Um nota final: Manuel da Mata e Ana Diogoclaramente viram o livro sob o signo da hipérbole. Nem pensar! Este é um livro honesto. Não pretende ser nada mais do que isso..
      há 22 horas · Editado · Gosto · 1
    • Ana Diogo Claro que "é um livro honesto"! Sem discussão! Mas é mais do que apenas um 'bom livro'!

      • Ana Diogo Foi uma discussão mt interessante. Obg, Lelo Demoncorvo, por a ter publicado no blog.
      • Teresa Martins Marques Obrigada Lelo Demoncorvo! Fica assim documentada a nossa relação dinâmica ! Considero absolutamente essencial que os autores oiçam os seus leitores. Obrigada a todos(as) !
      • Maria Carlos Aldeia · 3 amigos em comum
        A história (diegese) é bastante valorizada em A Mulher que Venceu Don Juan e está arquitectada por forma a cativar a atenção do leitor, sobretudo a partir do meio do romance, altura em que os fios da trama se começam a cruzar e o ritmo narrativo acelera. Considerando apenas este aspecto, poder-se-á enquadrar a obra no estereótipo referido de romance “page turner”. Porém, o romance de Teresa Martins Marques vai muito para além da sua diegese hiperdinâmica, pois esta é entrelaçada pelo discurso do narrador que com os seus excursos e digressões, que não obstante poderem atrasar a progressão da história e com isso frustrarem os leitores mais ansiosos, ele (o discurso) constitui uma parte fundamental do romance por várias razões de entre as quais destaco, o seu carácter informativo e formativo, cumprindo, por certo, alguma intenção autoral pedagógica, e também pelo seu pelo seu valor estético literário, que partilha com a própria história, ou seja, os dois, história e discurso, constituem duas metades da mesma concha, que unindo-se se completam. 
        Maria Carlos Lino Aldeia
      • Ana Diogo Maria Carlos Aldeia, concordo absolutamente com a sua análise! E quem me dera ter eu tido palavras para a fazer assim tão bem!
      • Teresa Martins Marques Muito obrigada pela atenção crítica.
        há 6 horas · Gosto · 1
      • Lelo Demoncorvo O INÍCIO ...A Mulher que Venceu Don Juan é um romance que do começo até ao fim engaja a curiosidade e a atenção do leitor. Um page turner, como se diz lá por onde moro. Tal como o(s) seu(s) enredo(s), também a temática, cobrindo questões significativas...Ver mais
        há 5 horas · Gosto · 1
      • Ana Diogo Pois... é com esta apreciação de "radicalizar comportamentos e temperamentos" que, como já disse, não concordo mesmo nada! Nem vejo "personagens extremadas", vejo a realidade descrita com a fealdade que tb existe na nossa sociedade. Quanto à 1ª parte, aí sim, estou de acordo!! "um romance que do começo até ao fim engaja a curiosidade e a atenção do leitor" com "pertinência e actualidade"!! Isso, sim!
        há 5 horas · Editado · Gosto · 1
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03/07/2014

A Igreja Adventista, o prédio vermelho e a Rua Joaquim Bonifácio: Um guia de Lisboa

Tinham vindo de metro, saíram no Saldanha, iam descendo a Avenida Casal Ribeiro, em direcção à Remax. A vendedora tomou-os por marido e mulher e eles não a desmentiram. Seguiram a pé até à Rua Joaquim Bonifácio e pararam junto de um prédio vermelho, quase centenário, com varandins de pedra lioz e gradeamento verde-escuro. Na fachada, à direita da porta, um azulejo  com a data de construção − 1924. A vendedora abriu a pesada porta de ferro verde-escura. A entrada era espaçosa, com plantas ornamentais. Mas o que de imediato lhes chamou a atenção foi a inscrição num azulejo: «Pintura Manual. E. Canavarro e João F. Blane. Obra de Henrique Cardoso». A vendedora não perdeu a oportunidade de dizer que a escada do prédio fora recentemente  decorada e que os proprietários não tinham poupado esforços para preservar aquele prédio tradicional. 
– De facto – disse Sara − que olhava para os murais de azulejos representando o Palácio das Necessidades, a Sé e a Basílica da Estrela. Subiam devagar a escada encerada, de corrimão azul e branco a condizer com as portas antigas da mesma cor, e ficaram admirados com a exposição de quadros nas paredes, com motivos lisboetas, alternando com documentos encaixilhados relativos ao prédio: a biografia de Joaquim Bonifácio, que deu nome à rua, alvarás, licenças de construção, de habitação, escrituras do primitivo proprietário, intimações camarárias para manutenção, numa palavra, toda a história do edifício. No primeiro andar, o painel mostrava o Terreiro do Paço, no segundo, o Teatro Dona Maria, no terceiro, o Palácio de São Bento, no quarto, o Mosteiro dos Jerónimos, no quinto, a Praça de Touros do Campo Pequeno, a Ponte 25 de Abril, e, por último, o Aqueduto das Águas Livres. Era uma visita completa aos lugares canónicos da cidade.
Já no quinto andar, Sara reparou numa moldura que contava a história da quase morte do prédio – a tragédia ali ocorrida no dia 18 de Dezembro de 1987. O quadro relatava que de cima para baixo as varandas tinham começado a desabar e com elas arrastaram as cozinhas e as casas de jantar das traseiras. Tinha sido um verdadeiro pandemónio, relatado com todos os pormenores no Correio da Manhã.
– Quem vê o prédio, agora, não pode imaginar o passado.
– Pois não – remata Luís − e a vendedora concorda.
 A história deste prédio antigo duplicava a sua vida. Da derrocada  surgira uma nova estética. Dos escombros do passado reconstruía-se uma nova Sara.
Templo Adventista
Quando a vendedora lhes mostrou o apartamento do terceiro andar esquerdo já ela tinha decidido que gostaria de morar ali, mesmo que fosse apenas por pouco tempo, não sabendo ainda que rumo viria a ter a sua vida futura. O corredor comprido acabava na cozinha e depois numa varanda que dava para uma escada de ferro em caracol. Os quartos sucediam-se, como se a casa fosse um comboio e a ideia de viagem, de percurso com saída de emergência, fê-la identificar-se com o lugar. Em frente, um Templo Adventista. Na varanda, dois pombos debicavam migalhas. O sol de Julho entrava a jorros pelas janelas.
– O que acha, Luís?
– Deve estar-se bem aqui a ler ao fim da tarde – foi a resposta, com um sorriso.
In : A "Mulher que Venceu Don Juan" de Teresa Martins Marques

Nota do editor: fotografia de Vítor Matos

02/07/2014

Carolina Freitas (Jornal de Letras) entrevista Teresa Martins Marques

Carolina Freitas
1. Como surgiu a ideia de escrever este livro?
Num domingo de Agosto de 2012, recebi um telefonema de uma amiga dizendo que precisava urgentemente de falar comigo. É uma jovem mulher, inteligente, bonita e culta. A voz dela traduzia uma profunda angústia. Nesse dia completava 45 anos. O presente de aniversário que o marido lhe ofereceu foi a ameaça de a atirar para o fundo de uma barragem. Ela tinha razões para acreditar que ele poderia fazê-lo. Eu mesma recebi uma mensagem indelicadíssima avisando-me que deveria afastar-me dela. Não só não me afastei, como essa ameaça constituiu a motivação para escrever um romance-folhetim, que desse voz às vítimas de violência doméstica. O donjuanismo é, não raro, a capa sob a qual se escondem certas formas de violência com o falso rótulo de paixão ou até mesmo de amor.
2. Começou por publicá-lo no Facebook. Por que motivo(s) optou por esta via?
Quando criei a minha página do Facebook fi-lo com a intenção de a tornar um espaço de homenagem à Literatura e à Cultura. Aí, comecei por publicar ensaios relativamente longos sobre Cesário, Gomes Leal, Régio, Raul Brandão, Miguéis, Régio e Nemésio, extraídos do meu livro «Leituras Poliédricas», há muito esgotado. A recepção foi excelente e os leitores fidelizaram-se. Estavam criadas as condições para uma publicação serial retomando a tradição oitocentista.

3. E como foi esse processo? (quando começou e quando terminou; publicava excertos, capítulos inteiros?...)
A publicação iniciou-se em Outubro de 2012 e terminou em Maio de 2013. Ao longo de 28 sábados, capítulo a capítulo (entre as dez e as doze páginas), publicou-se todo o romance-folhetim. A actual versão em livro é refundida e ampliada.
4. Uma das possibilidades do Facebook é a interactividade. Como aconteceu neste caso? Houve muitas pessoas a seguir este romance-folhetim? E a comentar? Até que ponto essa interacção influenciou a sua escrita e a própria história?
A interacção com os leitores foi permanente, não apenas para transmitir opinião, mas também para dar sugestões de continuidade à história, que aceitei por diversas vezes. Foram ultrapassados os três mil comentários, incluindo neste número as mensagens privadas. O último episódio registou 196 comentários. A interacção epistolar é, aliás, característica do romance-folhetim. Eugène Sue, aquando da publicação de «Les Mystères de Paris» (1843-1844), chegou a manter um escritório para receber a numerosa correspondência dos leitores.
5. Que balanço faz desta experiência?
O balanço é muito positivo. Entre as pessoas da minha geração é ainda comum pensar-se o Facebook apenas como um meio perigoso e viciante, sobretudo para os jovens. Ficou provado que é uma ferramenta com extraordinárias potencialidades, se for usada de forma adequada. Foi também muito importante o convite que o romance-folhetim recebeu da parte de Vania Chaves e Isabel Lousada para encerrar o II Encontro Luso-Afro-Brasileiro «As Mulheres e a Imprensa Periódica», que decorreu na Faculdade de Letras em Julho de 2013, o qual registou a presença de muitos leitores, alguns vindos de diversos pontos do país.
6. Que questões quis tratar em «A Mulher que Venceu Don Juan?
Focam-se comportamentos violentos escondidos sob a capa donjuanesca - o poder da sedução, as manhas e estratégias de caça, o narcisismo e o recalcamento homofóbico, assentando numa componente ensaísta que discute os seguintes textos : «Diário do Sedutor» de Kierkegaard; «Le Symbolisme du Pont et la Légende de Don Juan» de Sandór Ferenczi; «Don Juan, Ensayo sobre la Leyenda», de Gregorio Marañon.
7. Pode falar-nos um pouco destas personagens?
O entrecho ficcional inclui três personagens de fundo donjuanesco. Amaro Fróis, cirurgião plástico, procura nas mulheres a vingança de um passado tenebroso; Manaças, serial lover, recalca uma pulsão proibida; Joana colecciona os namorados e os pais das amigas. Os três serão vencidos: o primeiro por uma mulher que subestimou; o segundo pelo verdadeiro objecto do desejo recalcado; a terceira por uma presidiária, cujo companheiro seduziu. A protagonista, Sara Dornelas, escapa à morte e encontra o amor, realizando, pelo estudo, um sonho antigo. Dois seres de eleição, a psicóloga Lúcia e Paulo, comissário da polícia, assumem um papel decisivo no desmantelamento de uma rede tentacular e no castigo dos criminosos, unidos por ignorados laços de sangue.
8. Creio que a sua primeira incursão na ficção foi um conto intitulado «Carioca de Café» (2009). De que trata? E está publicado em livro? É agora que se estreia no romance de ficção. Era um desejo antigo?
«Carioca de Café» é um conto publicado numa antologia intitulada «Viana a Várias Vozes», edição da Câmara Municipal de Viana do Castelo (2009), organizada pelo saudoso Fernando Canedo, director da revista « Mealibra», órgão do Centro Cultural do Alto Minho. O tema fulcral é a denúncia do preconceito relativamente à mulher brasileira em Portugal, com um pano de fundo histórico: a «Chronica Adefonsi Imperatoris» e o Recontro dos Arcos de Valdevez, objectos de estudo da personagem.
9. Como é a sua relação com a escrita? (costuma escrever? tem 'diários'? contos, poemas, romances na gaveta?) É um prazer, uma necessidade...?
A escrita sempre fez parte de mim, embora a parte publicada seja no registo de ensaio. Mas, mesmo nesse registo, há uma dimensão que releva de um tom mais comunicante, menos académico. Veja-se o título da minha tese de doutoramento sobre David Mourão-Ferreira: «Clave de Sol - Chave de Sombra», o qual intertextualiza um verso do longo poema In Memoriam Memoriae.
No meu estudo, quer ensaístico quer ficcional, prefiro os temas que abalam zonas de conforto. E tanto a ficção como o ensaio podem cumprir essa função, sem deixarem de ser o que inevitavelmente são: exercícios de linguagem. Os dois registos conjugam-se. Há sempre uma ou mais personagens que têm em mão um trabalho ensaístico. No caso de «A Mulher que Venceu Don Juan», são numerosos os trechos de autores citados, entre eles D. Francisco Manoel de Melo, Camilo, Kierkegaard e Stendhal. Há também uma dimensão histórica, aqui concretizada num episódio da Guerra Civil de Espanha.
10. Tem dedicado a sua vida ao estudo e à investigação, nomeadamente na área da Literatura e Cultura Portuguesas. De que forma vive esse trabalho?
11. Que autores/projectos/trabalhos mais a têm apaixonado? E porquê?
A minha regra de ouro é escolher sempre para objecto do meu estudo os escritores da minha predilecção. Foi assim com José Rodrigues Miguéis, autor sobre o qual nunca me canso de escrever e ao qual cheguei pela mão de David Mourão-Ferreira, sobre o qual continuo a escrever, ampliando a tese. Gosto de fazer voo picado sobre os textos, e delicio-me com as micro-análises a mostrarem os bastidores da criação artística, para o que muito contribui o trabalho arquivístico que fiz como responsável pela organização do acervo davidiano, na Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1997 e 2004.
12. Actualmente, é investigadora no CLEPUL. Que projectos têm em mãos? Também dá aulas?
Já não dou aulas e posso reservar todo o meu tempo para a escrita e para acções de divulgação. Recentemente levei aos estudantes das Universidades de Constanta e Bucareste vários textos sobre o tema do ciúme em Miguéis, Régio e David Mourão-Ferreira. Foi uma experiência muito gratificante e alguns alunos continuam a comunicar comigo, justamente na minha página do Facebook.
Estou neste momento a trabalhar na biografia de Amadeu Ferreira, jurista, professor, poeta, romancista, tradutor, uma das figuras que mais contribuíram para o reconhecimento oficial da Língua Mirandesa como segunda língua de Portugal.
13. Onde nasceu? Como foi o seu percurso até ir para a universidade? O que a levou a seguir Letras?
Nasci na Guarda, onde fiz a escola primária. Frequentei depois o Colégio de Nossa Senhora da Bonança em Vila Nova de Gaia, com professores de alta qualidade, sobretudo nas áreas das Humanidades. Frequentei os últimos dois anos do Liceu na Guarda, tendo como professor de Grego um homem competentíssimo, Abílio Bonito Perfeito, autor do livro único e da Gramática de Grego. Estranhei bastante a pacatez da cidade, mas rapidamente criei dois pólos de interesse: a redacção do jornal estudantil « Riacho» e sobretudo um cineclube, onde coloquei em prática a formação que José Vieira Marques, futuro director do Festival de Cinema da Figueira da Foz, nos tinha ministrado num Curso Livre de Cinema no Colégio de Nossa Senhora da Bonança.
Nunca mais esqueci o meu filme preferido desse tempo,« Morangos Silvestres», de Ingmar Bergman. Quem sabe se não foi por isso que mais tarde escolhi como tema de tese a memória e a inquietude…
Ir para Letras era uma inevitabilidade, sendo eu viciada na leitura. Difícil foi decidir se deveria escolher Românicas, História ou Filosofia. Escolhi Românicas, mas creio que nunca desisti verdadeiramente dos outros dois cursos e, neste romance, mando fazer às minhas personagens os trabalhos que eu não pude fazer como aluna.

Cf. O artigo de Carolina Freitas « Teresa Martins Marques - Um romance-folhetim do século XXI» in «Jornal de Letras» de 22 /1/ 2012 (pp.15-16) .