![]() |
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - Cartaz
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - Programa
A recensão de Eugénio Lisboa, sábia e
bem-disposta, faz justiça a romance cuja matriz folhetinesca ‒ na veiculação
semanal ‒ encantou leitores, a maioria dos quais repetiu a experiência em
livro, entretanto revisto e acrescentado. Conformes no «protocolo do
‘roman-feuilleton’», cujos cultores e títulos maiores são enunciados, parece-me
haver uma retracção do crítico na parte final, ao afirmar que «não é folhetim
quimicamente puro», por duas razões principais: o passeio de Sara pela Lisboa
do Guia de Portugal e o trabalho de tese em curso de Manuela. Quanto ao
passeio, e com mais informação (datas, etc.), bastaria olhar ao grande folhetim
camiliano A Queda Dum Anjo, em que Calisto Elói se mune de primeiras edições
seiscentistas para visitar as fontes e outros lugares da capital, sendo que, na
falta de transportes e vias de comunicação, ao tempo, o folhetim era o
repositório mais completo de quem não saía da sua terra. Viajava-se pela
imaginação, ciceronerando os leitores por universos nem sempre verosímeis.
Quanto à presença de Manuela, e suas preocupações, estas são a do leitor que se
interroga sobre os tipos, causas e efeitos do donjuanismo, transportando para o
diálogo com figura central, Lúcia, a explicação mais concorde, e, do mesmo
passo, iluminando a acção. Ainda aqui, antes do romance-ensaio (que este também
é) no século XX, a ficção oitocentista levantou, junto do grande público,
questões de moral que só poucos filósofos discutiam.