22/08/2014

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA - «Não venceu só o Don Juan, venceu os cobardolas.»

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA
(Professor catedrático da Brown University- EUA)
Foi um tal trambulhar estes dias. Chegar a casa  e ter de ficar lá muito pouco tempo porque... Guess what?  o tema do seu romance: tínhamos emprestado a casa a uma amiga com dois filhos que teve de sair de um casamento por causa de uma situação semelhante às das mulheres do seu romance. Como o divórcio ainda não está resolvido, deixámo-la ficar lá até ao final do mês e viemos para o Maine. No meio disto tudo, o seu livro ficou atrás num dos caixotes trazidos de Lisboa. Portanto, tudo o que aqui disser é de cor.
Acho que a expressão da Leonor - um page turner - está correcta. Chega-se ao fim de uma página e quer-se logo passar à seguinte a ver o que se vai passar. Estão sempre a acontecer coisas e por isso, nesse aspecto, o livro tem muito de TV e de filme, até porque não me recordo de um livro português com tanto diálogo. É impressionante a vivacidade deles, as temáticas abordadas, a vida que as cenas ganham naquelas trocas de frases. Tem aí uma grande novidade na literatura portuguesa, sempre muito descritiva e algo mortiça.
O livro é também um belo retrato da sociedade portuguesa de hoje e dos seus problemas que afloram a cada passo nos diálogos.
Pareceu-me que, para um romance, a protagonista é demasiado impecável, como se se tratasse de uma novela exemplar. Distingo aqui as pessoas da vida real e as personagens de romance, que normalmente (no romance moderno) costumam ser complexas e exibir atitudes nem sempre recomendáveis. Ou pelo menos auto-irónicas.  É verdade que a certa altura ela afirma só ter dúvidas, mas acaba nunca agindo como se as tivesse. Sabe sempre o que deve ser feito e sem qualquer hesitação. Repito: estou a falar da personagem do romance.
Claro que estou demasiado influenciado pela escrita anglo-americana, mas  o enredo, o estilo cinematográfico e os vivíssimos diálogos não me faziam lembrar outra coisa. E ainda bem porque não tenho pachorra para o moer em vão de muita ficção portuguesa.
Aqui e acolá, pareceu-me um excesso de erudição. Também - e para continuar a ser completamente sincero - não fiquei convencido da necessidade de mencionar pessoas da vida real pelo seu nome, sobretudo porque o faz apenas para elogiá-las. Faltou o outro lado. Já que preferiu não acrescentar essa outra dimensão, creio que teria sido melhor usar nomes fictícios.
Tudo isso são registos de leitor que têm a ver só comigo e com as minhas preferências. Disse-lhe do que gostei e do que gostei menos.
E não lhe falei ainda do meu muito agrado pelas posições éticas que defende ao tratar de um problema tão sério como esse da situação das mulheres abusadas. No meio de tanta literatura pós-moderna que não se preocupa com a  ética, tiro-lhe o chapéu. Não venceu só o Don Juan, venceu os cobardolas.

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA (Professor catedrático da Brown University- EUA)


Biografia
Estudou no Seminário de Angra e depois na Universidade Católica, em Lisboa, onde se bacharelou em 1972, ano em que emigrou para os EUA. Em 1977 completou uma licenciatura e em 1980 um doutoramento no Departamento de Filosofia da Brown University (Providence, Rhode Island). Em 1975 começou a leccionar no Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros dessa mesma universidade, que ajudou a criar. Em 1981 foi nomeado Assistente nesse Centro; em 1987, promovido a Professor Associado; em 1991, a Professor Catedrático. O Centro entretanto passou a Departamento e foi dele seu director de 1991-2003. É Fellow do Wayland Collegium for Liberal Learning, um Instituto de Estudos Interdisciplinares na Brown University, onde lecciona uma cadeira sobre Valores e Mundividências.
Para além das obras em livro, tem centenas de escritos em revistas e livros colectivos. Fundou e dirige a editora Gávea-Brown, dedicada à edição em inglês de obras de literatura e cultura portuguesas, que edita também a revista Gávea-Brown – a Bilingual Journal of Portuguese American Letters and Studies, que ele fundou e co-dirige. É co-editor do e-Journal of Portuguese History e de Pessoa Plural, ambas revistas electrónicas editadas em cooperação internacional e publicadas na Brown University.
Desde 1979 mantém um programa bimensal no Portuguese Channel, de New Bedford, Massachusetts, e durante dois anos manteve um programa semanal – “Onésimo à conversa com…” – na RTP Açores. Foi colaborador regular n’ O Jornal e no Diário de Notícias. É colaborador regular na revista LER, na PNETLiteratura e no Jornal de Letras. Entre as organizacões a que pertence, é membro da direcção da PALCUS – Portuguese-American Leadership Council of the United States. Foi Vice-Presidente do Rhode Island Council for the Humanities e da Associação Internacional de Lusitanistas. Foi eleito Membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa.

18/08/2014

Maria Margarida Cascarejo - Variações sobre um Tema

Teresa Martins Marques
       a propósito de   A Mulher que Venceu Don Juan
               de Teresa Martins Marques

 Era uma vez
Uma Princesa
Com nome helénico
Mas não Helena
Que nasceu na Cidade Alta
Mas não Atenas …
De neves Eternas !

Um dia decidiu
Descer da sua Torre de Marfim
Onde na sua Infância
Passava os dias sem fim
Envolta no seu casaquinho
De pele alva                                                                
Alva como as Neves Eternas
Alva, digno de uma Princesa
 De Cidade Alta
Mas não Atenas !
Every face, a different shade

E decidiu descer ao Mundo Real …
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
… Quando amadas se perfumam
… Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram …

Fazendo o percurso inverso
Do tradicional, ardente
Caçador de Princesas,
Garbosos Adónis
De Atenas …

Mas
… faces in an inhuman race
Os enigmas habituais
Agora mais pareciam … virtuais
Os crocodilos do fosso
Meras lagartixas LACOSTE
De contrafacção !
Run and hide
But a face will still pursue you !
O dragão tinha dentes
Amarelecidos
O seu fogo
Em crise de petróleo, talvez !
Mas no fim da noite
Aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas !

A ponte levadiça fez-lhe lembrar
Tower Bridge, tão amada …
Ahhhhhhhh, aquele azulinho claro
Inocente !
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Têm medo apenas
Vestem-se de negro, se encolhem.

Depois de saltar o Muro
A Princesa agora Mulher
Não pequena, Helena
Viu um Aviso …
                  É PROIBIDA A ENTRADA
                  A QUEM NÃO ANDAR
               ESPANTADO DE EXISTIR !

Ah Sim !
Esta é a Vida
Presente, Positiva
Agora
Look around …
QUEM ?
JOÃO SEM MEDO ?
Elas não têm gosto ou vontade
Têm medo apenas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro
The Past is a foreign country;
They do things differently there.’
Paper faces on parade
But a face
Will still pursue you !

Aquela jovem Mulher
Como outras
Não pequenas, Helenas
Não de Atenas
Queria Sim
Agora
Presente
 Positiva
Conhecer
Aquele
JOÃO SEM MEDO !

Look around
There’s another  Mask
Behind you !

 Era uma Vez
Duas
Três
Muitas Vezes …

Afinal
Era
Um Pretérito Imperfeito !

Bravo, Teresa
Encore !


Por Maria Margarida Cascarejo

Colaboradores virtuais: Chico Buarque ‘Mulheres de Atenas’, José Gomes Ferreira ‘Aventuras de João Sem Medo’, ‘O Fantasma da Ópera’ – Andrew Lloyd Webber (música), Charles Hart e Richard Stilgoe (letra de ‘Masquerade’), London Town (Tower Bridge), L. P. Hartley ‘The Go-Between’ e …

                                                           Look around
                                                                                        There’s another Mask

                                                                                        Behind you …

13/08/2014

Ana Daniela Soares conversa com Teresa Martins Marques

Teresa Martins Marques na Livraria Ferin

As Vozes Que Nos Escrevem

Ana Daniela Soares conversa com Teresa Martins Marques, investigadora, ensaísta, crítica literária, autora do livro A mulher que venceu D. Juan







OUVIR: http://www.rtp.pt/play/p922/e162820/as-vozes-que-nos-escrevem

10/08/2014

Ana Diogo - Diário de bordo

Apresentação do livro em Moncorvo.Foto :Lb
Ana Diogo
Um romance arrebatador que retrata uma hedionda realidade social
Incidindo sobre uma temática extremamente actual e dramática, o romance de Teresa Martins Marques é uma obra envolvente pelo seu assombroso realismo e conteúdo pungente… Como leitora, senti-me constantemente seduzida, incapaz de pousar o livro até ao final – não há um momento de cansaço, pelo contrário, o desejo e prazer de ler crescem à medida que se avança na leitura, e que a trama, altamente emotiva e cativante, se desenrola. É uma obra belíssima a todos os níveis e de inquestionável qualidade literária. Permito-me felicitar a autora pela excelência da escrita, pela audaz escolha de um tema tão polémico quanto urgente, pela seriedade com que o trata, mas também pelo enorme empenhamento cívico que a obra deixa transparecer. Nas palavras da personagem central - "A violência é um polvo tentacular. Não raro, vem embrulhada em celofane com o falso rótulo de amor." Recomendo vivamente!
(21.01.14)

 Contar a Leitura

Ana Diogo                        08-12-2013 17:50
Querida Teresa, Embora ansiosa por iniciar a leitura do seu livro, este fds tem sido demasiado agitado, com visita de familiares, e ainda pouco consegui avançar. No entanto, tive agora um tempinho e quero dizer-lhe que não consigo ultrapassar o capítulo "Na cave real" que li e reli uma data de vezes emocionadíssima. Sabe, nunca esqueci uma resposta um tanto enigmática que me deu no Verão quando eu me queixava de ter os meus netos tão longe... A Teresa respondeu algo que me impressionou muito: "Acredite que há ainda pior do que isso... E agora, lendo este capítulo (novo para mim), juro que não consigo sair daqui... estou em lágrimas e tinha que lhe dizer. Um beijinho, Teresa. A minha admiração e carinho transvasam.
.
Teresa Martins Marques            08-12-2013 19:19
É isso, querida Ana. Temos de saber ultrapassar os capítulos e os problemas. É preciso criar outros laços, outros interesses, outras formas de viver. Cada instante. Enquanto formos vivos. Um  beijo, T.
Ana Diogo          09-12-2013 22:32
Voltei, querida Amiga. Tenho medo de estar a ser inconveniente com esta necessidade de lhe dar conta das minhas impressões à medida que vou lendo o seu livro. Não me leve a mal... Isto de conhecer a autora é complicado... Ontem disse-me "Temos de saber ultrapassar os capítulos" e entendi que devia preparar-me para maiores dores. Compreendo agora quando uma vez disse que chorou muito ao escrever este livro. Eu tenho chorado a lê-lo, não posso sequer imaginar como terá sido dolorosa a sua escrita! E agora que tive de ler e reler o capítulo. "Ciúme e Narcisismo", parece que levei eu uma tareia de morte! Eu, mera leitora... Resta-me a esperança que tenha servido também de algum alívio, de catarse, à autora, porque coragem, acho que precisou de muita, desmedida! Desculpe estar a importuná-la com as minhas reacções, um pouco infantis talvez, à leitura que vou fazendo, mas é muito forte o impacto! Penso que outras pessoas talvez também tenham reagido e não tem de responder se lhe custa. Vou acabá-lo hoje, não tenha dúvida, porque estou absolutamente rendida à forma magnífica como escreve! Mesmo que doa… E depois vou reler, com mais calma – para aprender muito consigo… Não há forma de lhe agradecer uma tal dádiva! Um beijinho, Teresa. Imenso. Com muita ternura.
Ana Diogo          10-12-2013 16:55
Queridíssima Teresa
Como tencionava, terminei ontem a leitura do seu livro tão extraordinário! E digo-o não só em termos da temática que aborda, mas da forma primorosa como escreve. Como leitora senti-me constantemente seduzida, incapaz de pousar o livro, verdadeiro magnete – não há um momento de cansaço, pelo contrário, a apetência cresce à medida que se avança na leitura, dolorosa, sim, pelo conteúdo tão pungente, mas de inquestionável qualidade literária! O livro é belíssimo a todos os níveis, Teresa – só posso felicitá-la e regozijar-me consigo!
Tinha dito que os capítulos finais seriam duros de roer – obrigada por me ter avisado. São duros, muito mesmo, revelam meandros e podres da sociedade que nem se imaginam… e como é atroz a história de Lúcia, essa mulher extraordinária, tão generosa! Em contrapartida, o ‘Tango’ do Manaças é absolutamente delicioso, hilariante! 
E tem razão – que consolo, que beleza a carta de Beatriz! Se todo o livro é uma vigorosa tareia para o leitor, uma convocação do acordar para realidades tão escondidas, tão negligenciadas…, esta carta, plena de sensibilidade, de ternura, constitui um remate auspicioso, reabilitador da crença no ser Humano…

Neste momento estou embrenhada na 2ª leitura começada ontem já de madrugada, inadiável. Vou recolhendo as inestimáveis informações e esclarecimentos de âmbito literário (e não só!!) com que tão sábia e inteligentemente foi enriquecendo a obra. E educando o leitor menos esclarecido… Mas vou também observando com mais pormenor a forma admirável com que desfia este rol de personagens intensas, complexas, humanas, para o bem e para o mal, dando-lhes alma e dimensão psicológica. Magistralmente!

Ontem não cheguei a responder à sua observação sobre o prédio vermelho… Pelo pormenor e gosto com que o descreveu não me surpreende que seja a sua casa. Deve ser belíssima! Mas parece-me que o que mais a satisfez foi mesmo o facto de poder incluí-la no romance para aquele efeito específico! A Teresa é extraordinária!
Não sei como expressar de outro modo o quanto amei estas Mulheres/Homem que venceram os seus demónios! E acho que nunca lhe disse, mas vou dizer agora – gosto muito, muito e tenho um enorme orgulho na minha Amiga Teresa Martins Marques!

09/08/2014

A escritora Teresa Martins Marques apresentou no dia 1 de Agosto, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo a sua recente obra “A Mulher que Venceu Don Juan”.


 A escritora Teresa Martins Marques apresentou no dia 1 de Agosto, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo a sua recente obra “A Mulher que Venceu Don Juan”.
O livro aborda a problemática da violência doméstica, apresentando vidas escondidas de três personagens de fundo Amaro Fróis, Manaças e Joana.
A sessão teve início com as palavras do Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Nuno Gonçalves. José Mário Leite procedeu à apresentação do livro, tomando ainda a palavra Teresa Martins Marques e um representante da âncora editora.
No final da cerimónia a autora deu uma sessão de autógrafos no pátio que interliga a Biblioteca Municipal e o Centro de Memória acompanhada por um porto de honra.

 O público aderiu à iniciativa promovida pelo Município de Torre de Moncorvo. 

Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, 6 de Agosto de 2014
Luciana Raimundo

04/08/2014

Mª Idalina Alves de Brito e " A MULHER QUE VENCEU DON JUAN "

Teresa Martins Marques em Torre de Moncorvo

De uma realidade nua e crua, tão longínqua e tão próxima, solta-se, de Trás-os-Montes ao Algarve e, por terras de além mar: Moçambique, Brasil ou Argentina, este romance tridimensional de Teresa Martins Marques, " A Mulher que venceu Don Juan ". O ela, nós e eles, entre elementos ficcionais e pessoas concretas, amadas e conhecidas do eu, na aventura do diálogo constante, directo e indirecto do drama ou do humor, nessa corajosa analogia de palavras com diferentes  valores simbólicos (alma, lama, frio, frois, froid, pág.43). "Tu és eu e eu sou tu" (pág. 79). Leonor caminha pela verdura do amor desalentado e cansado de mãe como em diversos socalcos da verdadeira vida. Quisera que a realidade fosse diferente! Mas, a violência assume contornos diversificados, mesmo na própria casa, e, com as pessoas que mais amamos.
O papel da APAV no apoio contra essas formas de tirania, revê-se na figura da Dr.ª Lúcia e das mulheres vítimas de violência doméstica como Sara, Marta e Odete e, mesmo no Prof. Luís, que transformaram o medo em sobrevivência heroica contida em raiva. Porque: "o amor não é mais forte do que nós. Se deixarmos que o seja, acabou-se a liberdade" (pág.88). Teremos de matar  "esse veneno chamado destino" e "recomeçar, não ter medo de recomeçar. Amanhã é sempre outro dia" (pág.103).
Uma cativante  aventura pelos caminhos da Filosofia, Literatura e Psicologia, evidenciando um imenso conhecimento literário, cultural e histórico, numa linguagem rigorosa e atrativa, que nos prende e suspende às suas páginas, na ânsia da compreensão do desenlace final. São exemplo: o conhecimento da Tavira árabe, o Porto ou a Lisboa de hoje e de ontem; a psicanálise de Freud e a filosofia de Kierkegaard e o seu " Diário do Sedutor " (págs  136, 137, 303 e 304), na interpretação da sexualidade patológica do Don Juanismo (masculino e feminino) e a sua essência teatral e manipuladora, do " não-ser e o não-estar em parte alguma, a não ser em trânsito ", para dominar e violentar o outro: " pássaro e cobra " da sedução, dada a sua incapacidade de amar outrem, a não ser a si próprio, na compulsividade inconsciente de se afastar (reprimir) do objecto do seu desejo: alguém do mesmo sexo, que quer, afinal (pág 234 e 235). Porque, na impossibilidade de " curar " um psicopata do amor "serial lover", o " amar é separar-se, quando do convívio só resulta dor " (pág 302).
Emerge este belo e cativante romance de Teresa Martins Marques, pelos mares bravios da realidade existencial que impiedosa  e cruel, nas diferentes faces de violência e exploração do ser humano, contrasta com os percursos laterais das ondas suaves de amor,  tolerância, solidariedade e liberdade, nunca desistindo de construir um mundo melhor pela dignificação da  vida das pessoas,  numa corajosa ética profissional, missão tão simples e dura de muitos (as) e tendo como lema de vida o de Manuela, numa frase de Eduardo Lourenço: " Não emprestarei os meus joelhos aos ídolos sentados no lugar impossível de Deus".
Parabéns e muito obrigada, Teresa Martins Marques, foste tu a Corajosa e Grande  " Mulher que venceu Don Juan ".
Bragança, 3 de agosto de 2014

Mª Idalina Alves de Brito

VER:

03/08/2014

ÂNCORA - UMA EDITORA AMIGA DOS AUTORES

Em Torre de Moncorvo.
Obrigada a António Baptista Lopes e a todo o staff da Editora!
Fizemos até agora 5 lançamentos do romance A MULHER QUE VENCEU DON JUAN:
Lisboa - Livraria Ferin- apresentação por Julieta Monginho e José Manuel Mendes.
Porto - Café Majestic - apresentação por Julio Machado Vaz.
Tavira - Salão Nobre da Câmara Municipal - apresentação por Adriana Freire Nogueira
Bragança- Centro Cultural Adriano Moreira - apresentação por Leonel Brito ou seja, Lelo Demoncorvo
Torre de Moncorvo- Biblioteca Municipal - apresentação por José Mário Leite.
Faremos ainda mais dois lançamentos:
Rio de Janeiro e São Paulo.
(Primeira e segunda quinzena de Setembro, respectivamente).
No mundo em que vivemos, os livros têm de ser dinâmicos e procurar os leitores.

OBRIGADA A TODOS OS APRESENTADORES!


Teresa Martins Marques

28/07/2014

A senhora Adelina,a Igreja de Moncorvo e o Padre Victor

Padre Victor na Igreja Matriz de
Torre de Moncorvo.
Fotografia de Filipe Calado
A senhora Adelina teve o gosto de assistir ao casamento do seu filho no registo civil, em Lisboa, e até mudou de opinião sobre o valor indiscutível do casamento religioso que não tinha garantido nenhuma bênção de felicidade à nora. Mas, lá  bem no fundo do seu coração de mãe, tinha desejado outra coisa e não podia compreender por que  motivo as pessoas só podiam casar-se uma única vez pela Igreja. Logo agora que tinham lá aquele  padre Victor, um rapaz novinho, que entusiasmava  novos e  velhos, a Igreja sempre cheia. Aquela gente ia à missa como quem vai para uma festa.O padre era músico, tinha gravado um CD, que foi aproveitado para banda sonora de uma telenovela. Nunca se vira uma coisa assim por aqueles lados. Ai, graças a Deus!
Fonte: A MULHER QUE VENCEU DON JUAN de Teresa Martins Marques,Editora Âncora.
Nota do editor: O livro será apresentado por José Mário Leite ,sexta,1 de Agosto,pelas 21 horas,na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.

27/07/2014

A trama é muito forte,por Júlia Ribeiro

“A Mulher que venceu Don Juan”

A trama é muito forte, a urdidura impecável, e a construção das personagens muito definida e concreta .  O leitor fica agarrado desde o início .
A certa altura comecei a dar comigo a pensar que tudo iria encaixar para um ajuste de contas. E, afinal, aparece mesmo o "ajuste de contas".
 Em suma,  gostei de tudo no teu romance.

Parabéns , Teresa,   mil parabéns.
Perdoa pela demora em dar-te esta insossa opinião.

Júlia
...aos quinze anos


Ver : http://lelodemoncorvo.blogspot.pt/2011/07/constantinorei-dos-floristas-escaparate.html
C.V.
Maria Júlia Ferreira de Barros Guarda Ribeiro (Biló)
Data de nascimº -   17.08.1938
Local de nascimº –  Torre de Moncorvo
Escolaridade:
Ensino Primário -  de 45/46 até 48/49 – Moncorvo
Ensino Secund.º - Colégio Campos Monteiro – de 49/50 até 53/54
                               Liceu de Bragança -   54/ 55 e 55/56
Ensino Superior – Univ. de Coimbra – de 56/57 até 60/61 -  Licenciatura em Filologia Germânica  e  Curso de Ciências Pedagógicas.
Tema da Tese de Lic. -  Após recusa do meu trabalho sobre “Der kaukasische Kreidekreis”  ( O Círculo de Giz Caucasiano) de Bert Brecht – então proibido em Portugal - voltei-me para a dramaturgia de Schiller,  tendo escolhido  “Don Karlos,  Infant von Spanien”,  extraordinário hino á Liberdade,  para  análise literária, histórica e política, sendo a  tradução do drama para Português obrigatória.

Prémios e Bolsas de estudo enquanto estudante:
1956, Setº -  Prémio Camilo Castelo Branco pela melhor nota global no exame nacional do 7º Ano (actual 12º),  no Liceu de Bragança.
1956, Dezº  – Prémio do Goethe Institut pela melhor nota no exame nacional de Alemão : bolsa de estudos para um curso de  seis semanas na Univ. de Heidelberg. (Agosto / Setembro de 1957).
1960 –  Por proposta do Professor Paulo Quintela,  obtive uma bolsa de estudos  do Deutscher Akademischer Austauschdienst  (DAAD)  para um Curso de Verão em Göttingen.

26/07/2014

Mensagens de Bucareste

Teresa Martins Marques conseguiu trazer à vida, através da tecnologia moderna, um Don Juan que conseguiu adaptar-se ao nosso século, um sedutor que embora tenha mantido as características dos séculos passados, agora está numa fase especial da sua metamorfose. Como sabemos, o mito baseia-se na regra do triângulo:aparece o sedutor, seguido pela vítima, uma mulher nobre e o comandante ou convidado de pedra. O romance de Teresa Martins Marques mantém a mesma divisão triangular, mas adaptada à nossa contemporaneidade: aparecem três personagens de fundo donjuanesco. Amaro Fróis, cirurgião plástico, que procura nas mulheres vingança, Manaças que é serial lover e Juana que colecciona os namorados das amigas. Todos serão vencidos no romance, porque como sabemos Don Juan é sempre vencido pelo seu desejo o pelo seu comportamento. O que é interessante no romance é o personagem feminino, Manuela ,uma jovem doutoranda, prima de Doña Juana, que prepara uma tese sobre o Diário do Sedutor de Kierkegaard, falando então sobre todos os sedutores importantes. No fim do livro, Teresa Martins Marques utiliza uma técnica literária chamada mise en abyme, criando uma circularidade com o título do livro. O que é verdadeiramente maravilhoso é como apareceu o seu romance [....]

Alexandru Gabriel Streinu
Facultatea de Limbi si Literaturi Straine
BUCHAREST

24/07/2014

Apresentação do livro em Torre de Moncorvo


A recensão de Eugénio Lisboa

 A recensão de Eugénio Lisboa, sábia e bem-disposta, faz justiça a romance cuja matriz folhetinesca ‒ na veiculação semanal ‒ encantou leitores, a maioria dos quais repetiu a experiência em livro, entretanto revisto e acrescentado. Conformes no «protocolo do ‘roman-feuilleton’», cujos cultores e títulos maiores são enunciados, parece-me haver uma retracção do crítico na parte final, ao afirmar que «não é folhetim quimicamente puro», por duas razões principais: o passeio de Sara pela Lisboa do Guia de Portugal e o trabalho de tese em curso de Manuela. Quanto ao passeio, e com mais informação (datas, etc.), bastaria olhar ao grande folhetim camiliano A Queda Dum Anjo, em que Calisto Elói se mune de primeiras edições seiscentistas para visitar as fontes e outros lugares da capital, sendo que, na falta de transportes e vias de comunicação, ao tempo, o folhetim era o repositório mais completo de quem não saía da sua terra. Viajava-se pela imaginação, ciceronerando os leitores por universos nem sempre verosímeis. Quanto à presença de Manuela, e suas preocupações, estas são a do leitor que se interroga sobre os tipos, causas e efeitos do donjuanismo, transportando para o diálogo com figura central, Lúcia, a explicação mais concorde, e, do mesmo passo, iluminando a acção. Ainda aqui, antes do romance-ensaio (que este também é) no século XX, a ficção oitocentista levantou, junto do grande público, questões de moral que só poucos filósofos discutiam.

Ernesto Rodrigues

Ernesto Rodrigues (1956) é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Antigo jornalista e leitor de Português na Universidade de Budapeste entre 1981 e 1986, publicou 20 obras de poesia e ficção, desde 1973 até à mais recente, A Casa de Bragança, em 2013.
Prefaciou 21 autores portugueses e traduziu mais de 20 obras húngaras, incluindo o Prémio Nobel Imre Kertész, os escritores Sándor Márai, Deszo Kosztolányi e Magda Szabó e ainda uma Antologia da Poesia Húngara, em 2002. Reuniu oito volumes de ensaios, merecendo particular menção Mágico Folhetim: Literatura e Jornalismo em Portugal (1998) e Cultura Literária Oitocentista (1999).
O seu currículo pode ser consultado em www.ernestorodrigues.blogspot.com 
Entrevistas:
2008. Padre António Vieira, Sermões, Cartas, Obras Várias. Selecção e Prefácio de Ernesto Rodrigues. Lisboa, Tupam Editores, 2008. Entrevista de Ana Marques Gastão em Diário de Notícias (Lisboa), 17-3-2008.
2010. 5 de Outubro. Uma Reconstituição. Lisboa, Gradiva, 2005. Entrevistas: À volta dos Livros, Antena 1, 17-2-2010; JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1030, 24-3-2010, p. 43; Carlos Pinto Coelho entrevista Ernesto Rodrigues [ver: ernestorodrigues.blogspot.pt].
2011. O Romance do Gramático. Lisboa, Gradiva, 2011. Entrevista de Ana Aranha na RDP, Antena 2, Páginas de Português, 12-2-2012.
2011. António José Saraiva e Luísa Dacosta: Correspondência. Edição de Ernesto Rodrigues. Lisboa, Gradiva, 2011. Entrevista na RTP2, Diário Câmara Clara, 23-1-2012.
2012. Bragança, 550 anos. Entrevista de José do Carmo Francisco, Ler, Livros & Leitores, julho-agosto de 2012, p. 65.
Ler este texto:

20/07/2014

Os Amantes de Primeiras Edições (A propósito do romance A Mulher que Venceu Don Juan) Por Eugénio Lisboa

O livro que Teresa Martins Marques acaba de publicar, A Mulher que Venceu Don Juan, é um empolgante romance, que se revê, folgadamente, no protocolo do “roman-feuilleton”, que fez fortuna em meados do século XIX. Cultivaram-no, entre outros, Alexandre Dumas (Pai), Eugène Sue (Les Mystères de Paris, Le JuifErrant), Ponson du Terrail (Les Exploits de Rocambole), Paul Féval (Les Mystères de Londres, Les Amours de Paris), FrédéricSoulié (Les DeuxCadavres, Les Mémoires du Diable), ou, entre nós, Camilo (Os Mistérios de Lisboa) ou Eça/Ramalho (O Mistério da Estrada de Sintra).
O próprio desta ficção, que se publicava, originalmente, semana após semana, nos jornais, era arrastar, em continuada suspensão, uma interminável e sensacional intriga, com pistas e contra-pistas, e revelações cada vez mais surpreendentes – e sempre provisórias – à medida que a narrativa progredia e, no final, um saboreado ajuste de contas, a que não havia que fugir e que tinha a função terapêutica de limpar o fígado aos leitores e aos protagonistas do “lado certo”. De tudo isto participa desenvoltamente este romance “moderno”, que a autora quis que servisse de veículo, precisamente, para um ajuste de contas com os Don Juans de serviço, os quais acumulam, não infrequentemente, o gosto de coleccionar conquistas, com o gosto, não menos maligno, de maltratar, física, psicológica e moralmente, as conquistas perpetradas.Neste aspecto, a criação do monstro Amaro Fróis é façanha de mestre. Como o é o dos outros “donJuans e Juanas” (o Manaças, a Juana), que se destacam, como criação de personagem, com um relevo que deixa um pouco apagados os restantes, que povoam o universo ficcional congeminado por Teresa Martins Marques. Logo de entrada, a pequena cena da ceia, no restaurante Olivier, a seguir a um espectáculo de ópera, em Lisboa, poderia ter a assinatura de um dos grandes mestres do realismo: Flaubert, Maupassant, Martin du Gard.
Não se trata, note-se, de um romance feminista e, muito menos, de um panfleto do mesmo cariz. Teresa Martins Marques fustiga, com igual eloquência e abundância de argumentos, Don Juans e Donas Juanas. Porque estas últimas existem, em igual profusão, causando, a si próprias e aos outros, o mesmo teor de estragos que deixam, atrás de si, os homólogos do sexo masculino. Para dar só um exemplo, conta-se a história de uma autora e actriz francesa, Mademoiselle Dubois, que se gabava de ter entretido, ao longo de um período de vinte anos, 16 537 “affaires”, ou seja, cerca de três por dia... Ao lado disto, o Don Juan (Tenório), com as suas míseras 2594 conquistas, não passou de um “dinkytoy”.
Teresa Martins Marques disseca, com mão experta de romancista, de ensaísta e de psicóloga, este tipo de personagem ambíguo e devorador (inseguro) que é o coleccionador de conquistas femininas (ou masculinas). Alguns especializam-se em desflorar virgens, como o editor inglês Leonard Smithers (1861 – 1907), do qual, Oscar Wilde, sublinhando, ironicamente, esta inclinação, dizia: “Smithers adora primeiras edições.” A virgindade não é, no entanto, obrigatória, para o orgulho do Don Juan. O importante é mudar, isto é, largar a pessoa, uma vez comida – uma vez. Por isso, mudar de mulher, mesmo não virgem, mesmo casada, é não querer uma repetição, isto é, uma 2ª edição da mesma obra.
Trata-se, pois, de um livro – o de Teresa Martins Marques – não diria tanto de tese, mas antes de causa (ou de causas). Estas obras podem facilmente tornar-se ensaios disfarçados de ficção, sendo, nesses casos, de leitura, em geral, menos apelativa. Para o evitar, Teresa Martins Marques resolveu desposar o protocolo capitoso e ruidoso do “roman-feuilleton” (no primeiro ciclo de Les Thibault – “Le Cahier Gris” – Martin du Gard não hesitou em usar o cheirinho bom do romance policial, logo a partir da 1ª página...) O “roman-feuilleton” cativa sempre o leitor, mesmo o moderno.O apelo é tão forte, que se conta ter sido Eugène Sue – o dos Mistérios de Paris – em certa ocasião, solto da prisão, para que a publicação de um seu romance em folhetins não fosse interrompida... Cumpra-se a lei, sim, mas devagar! (Aqui fica o palpite, caso a Teresa, no futuro, venha a necessitar de um precedente jeitoso!)
Sem deixar de dar o seu a seu dono, isto é, sem deixar de reconhecer o que a leitura deste livro tem de empolgante, devo, no entanto, acentuar que ele não é folhetim quimicamente puro: mistura, galhardamente, a narrativa de acção sensacional com o ensaísmo escarolado, bem informado, erudito e minucioso, às vezes, quase até ao desespero. Montherlant fá-lo, com eficácia felina, nas páginas inesquecíveis e magnéticas da sua tetralogia Les JeunesFilles  e um pouco, mas sempre com grande desenvoltura, em toda a sua obra romanesca. Misturando alegremente os géneros, ao contrário do que recomendava a retórica clássica, pois, dizia ele, com maldade de boa pontaria, se a grande literatura clássica não mistura os géneros, a vida não faz outra coisa que não seja misturá-los. Teresa Martins Marques imita a vida e não a arte clássica – e fá-lo com descaramento saudável. Misturar o douto ensaísmo e, mesmo, o material de construção de um doutoramento, com os saltos de acção imprevistos, mais próprios do Rocambole, dá-lhe, a ela, gozo, e, ao leitor, gozo e proveito. No entanto, a autora, por vezes, exagera: quando, por exemplo, a protagonista Sara, fugida ao monstro do marido (Amaro), resolve deambular, turisticamente, por Lisboa, a autora observa que ela (Sara) “queria ver com os seus olhos o que lhe dizia o Guia de Portugal, na edição da Fundação Gulbenkian, reproduzindo a 1ª de 1924, dada à estampa na edição da Biblioteca Nacional, pela mão zelosa de Raul Proença.” Esta gratuita exibição de conhecimento bibliográfico, inserida no miolo do fluxo da narrativa, soa,não só, a despropósito, como se torna quase cómica. Digamos que a minúcia bibliográfica, aqui, não rima com a música do fluxo novelesco. Não estou a ver Martin du Gard, nos Thibault, quando insinua a influência que terá tido, sobre Jacques e Daniel, a leitura de Les Nourritures Terrestres, a entrar em precisões de autoria (André Gide), nem de editor, nem de ano de publicação, nem de qual fosse a edição lida pelos dois adolescentes... Mais, o grande romancista francês nem sequer indica o título da obra que tanta repercussão teve em todo o mundo: transcreve algumas passagens mais escaldantes, que teriam feito ferver a imaginação exaltada de Jacques e Daniel. É, a pensar nisto, que pode causar alguma crispação toda a tralha bibliográfica, a atravancar a narrativa. O mesmo se pode dizer de certos diálogos como o que se trava entre Lúcia e Manuela, demasiado “didácticos” e artificiais, obviamente destinados a “passar informação” ao leitor... (A propósito de Lúcia., seria interessante comparar o aspecto funcional desta personagem com a personagem típica do “roman-feuilleton”, exemplificada no príncipe Rudolfo, de um romance de Eugène Sue, o qual assombra Paris, escondendo-se no baixo-mundo, punindo os maus e recompensando os virtuosos, que, misteriosamente protege... Ver-se-á, no romance de Teresa, que Lúcia andou, secretamente, por detrás de muita coisa boa.)
Seja como for, prefiro, francamente, o descoco indisfarçado do ensaísmo, que faz contraponto desavergonhado com o cavalgar incontido das pistas escandalosas e das revelações melodramáticas, aquecidas a temperatura de alto forno.
Resumindo muito, Teresa Martins Marques produziu um primeiro romance forte, original e denso, um material fogoso de debate, sobre um problema que assola esta nossa sociedade, em tempo de crise: o da violência doméstica, o da perda de auto-estima, num universo em que os valores se dissolvem e o bezerro de ouro se torna o único deus reverenciado, sobretudo se entregue à fruição de poucos, com o apoio e a bênção dos que nos governam, detêm o poder e abrem as portas do inferno aos desprotegidos.

09/07/2014

Relê-lo é fundamental

Também somos os livros que lemos, aqueles que mais nos"marcaram”. Tenho por hábito relê-los, passados longos períodos de tempo. Por curiosidade, por necessidade de saber até que ponto mudei ou se sigo igual ao que fui. Já tive algumas (poucas) desilusões. Se conheço a biografia do autor, tento não o confundir com a obra. Acontece que admiro alguns como escritores e abomino-os como pessoas.
Vem isto a propósito da minha segunda leitura de “ A mulher que venceu Don Juan”. Tive o privilégio de conhecer a Teresa pessoalmente depois do meu primeiro contacto com o romance. A escritora talentosa, a intelectual culta e séria revelou-se-me uma mulher calorosa, despretensiosa, simples, comunicativa, amiga. A sua vida pessoal, os seus projectos de escrita despertaram em mim o desejo, a curiosidade de entrar outra vez no romance, estar mais atenta a todos os pormenores, descobrir aspectos que me passaram despercebidos. A primeira leitura, de um fôlego, por ansiar conhecer o desfecho do enredo, deu lugar a outra demorada, cuidada, reflectida. De novo me “agarraram” o tema central, os vários outros temas que se entrelaçam, a qualidade literária, a trama engenhosa que nos “prende” desde as primeiras páginas, o humor e a fina ironia, a erudição que não enfastia, a informação que nos abre caminhos, o carácter pedagógico de certas passagens.
Se já leram o livro, leiam-no  novamente. Na primeira leitura, devora-se. Na segunda, degusta-se com prazer redobrado.
Odete Brito


Odete Brito – Professora aposentada. Licenciatura em Filologia Germânica e curso de Ciências Pedagógicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professora do ensino liceal e técnico. Leitora de Português na Universidade de Leeds, Inglaterra.Colaboração na elaboração de um curso de Português,”Get by  in Portuguese”, produzido e transmitido pela BBC. Professora de Português a Estrangeiros no Departamento de Língua e Cultura Portuguesas da Universidade de Lisboa. Orientadora na formação de novos leitores de Português no mesmo Departamento. Professora de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade Popular ,na Faculdade de Educação e Faculdade de Ciências (Universidade da Estremadura),em Badajoz.

Bárbara Guimarães, a Mulher que Venceu Don Juan


07/07/2014

Monte da Caparica,APAV , a violência doméstica e "A Mulher que...

 No Monte da Caparica o cheiro bom da cozinha, onde a Maria preparava o jantar. Como se chamaria ela? Ali todas usavam um nome falso, só a Drª Lúcia sabia o verdadeiro. A vivenda da APAV era confortável, as outras  mulheres sentiam-se  como peixe na água, não fora a poluição da memória.
−  Maria, fizeste pataniscas ?
− E tu que não acertasses logo, com esse faro que Deus te deu!
Sete meses passaram desde que entrou naquela casa. Foi a Maria que lhe limpou os restos de sangue, foi a Antónia que lhe lavou a roupa, uma senhora tão linda e tão fina o que é que lhe fizeram, santo Deus!?  Foi a Marta que lhe disse, não está sozinha, agora nós somos a sua família.
Os monstros aqui não entram. − Dizia a Odete levantando uma  vassoura no ar.  Foi com essa vassoura que me ensinou a varrer e a tirar as teias de aranha.  Semanas depois, já  queria dar-me o diploma de mestra de limpezas.
− Ai se a sonsa da tua criada te visse agora! Nunca mais fazia troça da patroa dondoca, que não sabia estrelar um ovo nem mexer uma palha. Agora agarravas na vassoura, partias-lhe os cornos a ela e ao mânfio do teu marido. Ganda-filho-da-puta!
− Cala-te, mulher, − atalhou  a Maria, − não ponhas mais lume na fogueira.
 Sara tapava os ouvidos com as duas mãos, fugia para o quarto, metia-se na cama e lembrava-se das sovas, do resto. De tudo. De patroa ela só tinha o nome. Era ele quem pagava o  ordenado à criada,  ficava bem claro quem era ali o patrão.
   Agora não queria pensar no lixo do passado. Queria sentar-se à mesa diante daquela comida simples, esquecer-se do último jantar no Olivier da Rua do Alecrim e, sobretudo, esquecer o que se seguiu depois. Ter esperança de algum dia esquecer.
 −  Esmeralda, conta lá como é que é esse  teu patrão?
 −  Como os outros. Tu não dizes que são todos iguais?
 −  Lá isso são, mas há uns ainda mais marafados do corname…
 − Mas que é isto? Respeitinho, que é bonito e eu gosto! − atirou outra a fuzilar a linguaruda.
− Mulher, inda te vais embeiçar por ele… Era agora a Maria, profeta  finória  como só ela sabia ser.
− Desculpa lá! Tu és a única madama no mundo que eu trato por tu. E carregava no “tu”. Desculpa, mas tou quem nem posso, com essa do corname! E ria, ria muito. Porra para eles!
−  E ela a dar-lhe.
−  Se não me rir inda é pior.
Começavam todas a rir, muito alto, um riso estridente, molhado de lágrimas que limpavam ao avental.  Riam a fingir de esquecidas dos maus tratos, esquecendo ou fingindo que não lembram que um dia pode aparecer um bandido à porta, como o da Filomena, de faca na mão a gritar, ganda- cabra, tu fugiste-me ? Mas vais voltar comigo já pró redil, que eu é que te  amanso, minha  cordeira lanzuda!  E puxava-lhe a farta cabeleira negra, enquanto gritava e agitava a faca como um florete: 
 − Já à minha frente, sua ganda-puta!
E a Filomena, que parecia tão valente, começou a esbracejar, com a voz repassada de medo, encandeada, como o passarinho e a cobra .
− Isto é o vinho, logo lhe passa, deixem, deixem…
E deixou uma chinela para trás, com o puxão que  lhe deu, as outras a gritar, Nossa Senhora  de Fátima nos acuda, eu escondida  ao fundo do corredor a ouvir tudo, pregada ao chão,  a tremer.  A Antónia agarrada a mim, aos empurrões, a proteger-me, toca a andar  já daqui para fora.
  A Filomena. Passaram alguns meses sem sabermos dela. Um dia a  Drª Lúcia trouxe a notícia. Tinha aparecido morta com um golpe fundo na  garganta e o bandido  foi entregar-se  todo lampeiro e cumpridor das leis – “Já cá estou, ó senhor guarda, não precisa de me ir buscar a casa… Estava com os copos  não sei o que fiz.”
  Depois de vários interrogatórios já sabia o que tinha feito:
− A cabra estava a pedi-las… Espero que aquele monte de esterco  não me deixe ficar nódoas nos mosaicos da cozinha.
Lá foi a pagá-las a Custóias. Ela em Agramonte.

Durante dias ninguém riu, andávamos de luto pela Filomena. De luto por nós todas. Pensava para dentro, um dia poderei ser eu.  Por fim, sobra o silêncio.
Fonte: "A Mulher Que Venceu Don Juan"

06/07/2014

Cristina Sofia Dias : Efectivamente li o livro num ápice

Comentário de Cristina Sofia Dias 
sobre A Mulher que Venceu Don Juan


Efectivamente li o livro num ápice, gostei imenso, já o recomendei a várias pessoas.   Se me mantiver ao corrente  de outras iniciativas suas, terei muito gosto em acompanhar uma próxima; fiquei com muita vontade de a conhecer!
Achei o livro muito bem escrito, ter conseguido “embrulhar” questões como o Donjuanismo, a violência contra as mulheres (em particular, a violência que não é necessariamente física, e que muitas vezes a vítima só se apercebe que o é quando deixa de estar sob influência do violentador), as complexas relações pais-filhos dos tempos actuais (confesso que não tenho filhos, mas tenho sobrinhos e amigos próximos com filhos, e bem vejo os malabarismos que é preciso fazer muitas vezes para os “educar” e o complexo de culpa que causa não ter tempo para simplesmente estar com eles…), numa história com tantos cambiantes como a que escreveu é deveras fascinante, os meus parabéns, gostei mesmo muito!

Cristina Sofia Dias 
Jurista. Quadro Superior do Ministério das Finanças.