Teresa Martins Marques viaja com "A Mulher que Venceu Don Juan" até ao Brasil! A autora falará sobre a obra nas seguintes datas e locais:
- 3 de Setembro, 15:30 horas, Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro;
- 9 de Setembro, 19:30 horas, UNESP, Assis;
- 12 de Setembro, 20:00 horas, Faculdades Integradas Rio Branco, São Paulo.
Fonte: Âncora Editora
02/09/2014
30/08/2014
O RESGATE DO RESPEITO E DO AFECTO, por Helena Martins Marques Faria
A MULHER QUE VENCEU DON JUAN:
Como profissional de educação, não posso deixar de dar os
parabéns à minha querida irmã, pelo exímio tratado de educação que tão
sabiamente desenvolveu no romance A Mulher que Venceu Don Juan.
Um livro abrangente que versa toda a espécie de violência,
não esquecendo a violência dos filhos em relação aos pais. A nossa geração quis
dar o melhor aos filhos, sonhámos grandes sonhos para eles, foram criados como
"reizinhos" e agora?
Assistimos a comportamentos de filhos que não reconhecem a
autoridade dos pais e não refiro autoritarismo. Nivelam as relações como se
fossem iguais entre si. Não tendo a noção da dívida moral e ética que o filho
tem na cadeia da existência.
É fundamental o resgate do respeito e do afecto.
Helena Martins Marques Faria
22/08/2014
ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA - «Não venceu só o Don Juan, venceu os cobardolas.»
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ONÉSIMO
TEOTÓNIO ALMEIDA
(Professor
catedrático da Brown University- EUA)
|
Foi um tal
trambulhar estes dias. Chegar a casa e
ter de ficar lá muito pouco tempo porque... Guess what? o tema do
seu romance: tínhamos emprestado a casa a uma amiga com dois filhos que teve de
sair de um casamento por causa de uma situação semelhante às das mulheres do
seu romance. Como o divórcio ainda não está resolvido,
deixámo-la ficar lá até ao final do mês e viemos para o Maine. No meio disto
tudo, o seu livro ficou atrás num dos caixotes trazidos de Lisboa. Portanto,
tudo o que aqui disser é de cor.
Acho que a
expressão da Leonor - um page turner - está correcta. Chega-se ao fim de
uma página e quer-se logo passar à seguinte a ver o que se vai passar. Estão
sempre a acontecer coisas e por isso, nesse aspecto, o livro tem muito de TV e
de filme, até porque não me recordo de um livro português com tanto diálogo. É
impressionante a vivacidade deles, as temáticas abordadas, a vida que as cenas
ganham naquelas trocas de frases. Tem aí uma grande novidade na literatura
portuguesa, sempre muito descritiva e algo mortiça.
O livro é
também um belo retrato da sociedade portuguesa de hoje e dos seus problemas que
afloram a cada passo nos diálogos.
Pareceu-me
que, para um romance, a protagonista é demasiado impecável, como se se tratasse
de uma novela exemplar. Distingo aqui as pessoas da vida real e as personagens
de romance, que normalmente (no romance moderno) costumam ser complexas e
exibir atitudes nem sempre recomendáveis. Ou pelo menos auto-irónicas. É
verdade que a certa altura ela afirma só ter dúvidas, mas acaba nunca agindo
como se as tivesse. Sabe sempre o que deve ser feito e sem qualquer hesitação.
Repito: estou a falar da personagem do romance.
Claro que
estou demasiado influenciado pela escrita anglo-americana, mas o enredo, o estilo cinematográfico e os
vivíssimos diálogos não me faziam lembrar outra coisa. E ainda bem porque não
tenho pachorra para o moer em vão de muita ficção portuguesa.
Aqui e acolá,
pareceu-me um excesso de erudição. Também - e para continuar a ser
completamente sincero - não fiquei convencido da necessidade de mencionar
pessoas da vida real pelo seu nome, sobretudo porque o faz apenas para elogiá-las.
Faltou o outro lado. Já que preferiu não acrescentar essa outra dimensão, creio
que teria sido melhor usar nomes fictícios.
Tudo isso são
registos de leitor que têm a ver só comigo e com as minhas preferências.
Disse-lhe do que gostei e do que gostei menos.
E não lhe
falei ainda do meu muito agrado pelas posições éticas que defende ao tratar de
um problema tão sério como esse da situação das mulheres abusadas. No meio de
tanta literatura pós-moderna que não se preocupa com a ética, tiro-lhe o
chapéu. Não venceu só o Don Juan, venceu
os cobardolas.
ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA (Professor catedrático da Brown University- EUA)
Biografia
Estudou no Seminário de Angra e depois na Universidade
Católica, em Lisboa, onde se bacharelou em 1972, ano em que emigrou para os
EUA. Em 1977 completou uma licenciatura e em 1980 um doutoramento no
Departamento de Filosofia da Brown University (Providence, Rhode Island). Em
1975 começou a leccionar no Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros dessa
mesma universidade, que ajudou a criar. Em 1981 foi nomeado Assistente nesse
Centro; em 1987, promovido a Professor Associado; em 1991, a Professor Catedrático.
O Centro entretanto passou a Departamento e foi dele seu director de 1991-2003.
É Fellow do Wayland Collegium for Liberal Learning, um Instituto de Estudos
Interdisciplinares na Brown University, onde lecciona uma cadeira sobre Valores
e Mundividências.
Para além das obras em livro, tem centenas de escritos em
revistas e livros colectivos. Fundou e dirige a editora Gávea-Brown, dedicada à
edição em inglês de obras de literatura e cultura portuguesas, que edita também
a revista Gávea-Brown – a Bilingual Journal of Portuguese American Letters and
Studies, que ele fundou e co-dirige. É co-editor do e-Journal of Portuguese
History e de Pessoa Plural, ambas revistas electrónicas editadas em cooperação
internacional e publicadas na Brown University.
Desde 1979 mantém um programa bimensal no Portuguese
Channel, de New Bedford, Massachusetts, e durante dois anos manteve um programa
semanal – “Onésimo à conversa com…” – na RTP Açores. Foi colaborador regular n’
O Jornal e no Diário de Notícias. É colaborador regular na revista LER, na
PNETLiteratura e no Jornal de Letras. Entre as organizacões a que pertence, é
membro da direcção da PALCUS – Portuguese-American Leadership Council of the
United States. Foi Vice-Presidente do Rhode Island Council for the Humanities e
da Associação Internacional de Lusitanistas. Foi eleito Membro da Academia
Internacional de Cultura Portuguesa.
18/08/2014
Maria Margarida Cascarejo - Variações sobre um Tema
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| Teresa Martins Marques |
a propósito de A Mulher que Venceu Don Juan
de Teresa Martins Marques
Era uma vez
Uma Princesa
Com nome helénico
Mas não Helena
Que nasceu na Cidade Alta
Mas não Atenas …
De neves Eternas !
Um dia decidiu
Descer da sua Torre de Marfim
Onde na sua Infância
Passava os dias sem fim
Envolta no seu casaquinho
De pele alva
Alva como as Neves Eternas
Alva, digno de uma Princesa
De Cidade Alta
Mas não Atenas !
Every
face, a different shade
E decidiu descer ao Mundo Real …
Mirem-se
no exemplo
Daquelas
mulheres de Atenas
… Quando
amadas se perfumam
… Quando
fustigadas não choram
Se
ajoelham, pedem, imploram …
Fazendo o percurso inverso
Do tradicional, ardente
Caçador de Princesas,
Garbosos Adónis
De Atenas …
Mas
…
faces in an inhuman race
Os enigmas habituais
Agora mais pareciam … virtuais
Os crocodilos do fosso
Meras lagartixas LACOSTE
De contrafacção !
Run
and hide
But a face will still pursue you !
O dragão tinha dentes
Amarelecidos
O seu fogo
Em crise de petróleo, talvez !
Mas
no fim da noite
Aos
pedaços
Quase
sempre voltam pros braços
De
suas pequenas, Helenas !
A ponte levadiça fez-lhe lembrar
Tower Bridge, tão amada …
Ahhhhhhhh, aquele azulinho claro
Inocente !
Geram
pros seus maridos
Os novos
filhos de Atenas
Elas
não têm gosto ou vontade
Têm
medo apenas
Vestem-se
de negro, se encolhem.
Depois de saltar o Muro
A Princesa agora Mulher
Não pequena, Helena
Viu um Aviso …
É PROIBIDA A ENTRADA
A
QUEM NÃO ANDAR
ESPANTADO DE EXISTIR !
Ah Sim !
Esta é a Vida
Presente, Positiva
Agora
Look
around …
QUEM ?
JOÃO SEM MEDO ?
Elas
não têm gosto ou vontade
Têm
medo apenas
Não
fazem cenas
Vestem-se de negro
‘The Past is a foreign country;
They do things
differently there.’
Paper faces on parade
But a face
Will
still pursue you !
Aquela jovem Mulher
Como outras
Não pequenas, Helenas
Não de Atenas
Queria Sim
Agora
Presente
Positiva
Conhecer
Aquele
JOÃO SEM MEDO !
Look
around
There’s another
Mask
Behind you !
Era uma Vez
Duas
Três
Muitas Vezes …
Afinal
Era
Um Pretérito Imperfeito !
Bravo, Teresa
Encore !
Por Maria
Margarida Cascarejo
Colaboradores virtuais: Chico Buarque ‘Mulheres de
Atenas’, José Gomes Ferreira ‘Aventuras de João Sem Medo’, ‘O Fantasma da
Ópera’ – Andrew Lloyd Webber (música), Charles Hart e Richard Stilgoe (letra de
‘Masquerade’), London Town (Tower Bridge), L. P. Hartley ‘The Go-Between’ e …
Look around
There’s another Mask
Behind you …
13/08/2014
Ana Daniela Soares conversa com Teresa Martins Marques
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| Teresa Martins Marques na Livraria Ferin |
As Vozes Que Nos Escrevem
Ana Daniela Soares conversa com Teresa Martins Marques, investigadora, ensaísta, crítica literária, autora do livro A mulher que venceu D. Juan
OUVIR: http://www.rtp.pt/play/p922/e162820/as-vozes-que-nos-escrevem
10/08/2014
Ana Diogo - Diário de bordo
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| Apresentação do livro em Moncorvo.Foto :Lb |
Ana
Diogo
Um
romance arrebatador que retrata uma hedionda realidade social
Incidindo
sobre uma temática extremamente actual e dramática, o romance de Teresa Martins
Marques é uma obra envolvente pelo seu assombroso realismo e conteúdo pungente…
Como leitora, senti-me constantemente seduzida, incapaz de pousar o livro até
ao final – não há um momento de cansaço, pelo contrário, o desejo e prazer de
ler crescem à medida que se avança na leitura, e que a trama, altamente emotiva
e cativante, se desenrola. É uma obra belíssima a todos os níveis e de
inquestionável qualidade literária. Permito-me felicitar a autora pela
excelência da escrita, pela audaz escolha de um tema tão polémico quanto
urgente, pela seriedade com que o trata, mas também pelo enorme empenhamento
cívico que a obra deixa transparecer. Nas palavras da personagem central -
"A violência é um polvo tentacular. Não raro, vem embrulhada em celofane
com o falso rótulo de amor." Recomendo vivamente!
(21.01.14)
Contar a Leitura
.
É isso, querida Ana. Temos de
saber ultrapassar os capítulos e os problemas. É preciso criar outros laços,
outros interesses, outras formas de viver. Cada instante. Enquanto formos
vivos. Um beijo, T.Voltei, querida Amiga. Tenho medo de estar a ser inconveniente com esta necessidade de lhe dar conta das minhas impressões à medida que vou lendo o seu livro. Não me leve a mal... Isto de conhecer a autora é complicado... Ontem disse-me "Temos de saber ultrapassar os capítulos" e entendi que devia preparar-me para maiores dores. Compreendo agora quando uma vez disse que chorou muito ao escrever este livro. Eu tenho chorado a lê-lo, não posso sequer imaginar como terá sido dolorosa a sua escrita! E agora que tive de ler e reler o capítulo. "Ciúme e Narcisismo", parece que levei eu uma tareia de morte! Eu, mera leitora... Resta-me a esperança que tenha servido também de algum alívio, de catarse, à autora, porque coragem, acho que precisou de muita, desmedida! Desculpe estar a importuná-la com as minhas reacções, um pouco infantis talvez, à leitura que vou fazendo, mas é muito forte o impacto! Penso que outras pessoas talvez também tenham reagido e não tem de responder se lhe custa. Vou acabá-lo hoje, não tenha dúvida, porque estou absolutamente rendida à forma magnífica como escreve! Mesmo que doa… E depois vou reler, com mais calma – para aprender muito consigo… Não há forma de lhe agradecer uma tal dádiva! Um beijinho, Teresa. Imenso. Com muita ternura.
Queridíssima Teresa
Como tencionava, terminei ontem a leitura do seu livro tão
extraordinário! E digo-o não só em termos da temática que aborda, mas da forma
primorosa como escreve. Como leitora senti-me constantemente seduzida, incapaz
de pousar o livro, verdadeiro magnete – não há um momento de cansaço, pelo
contrário, a apetência cresce à medida que se avança na leitura, dolorosa, sim,
pelo conteúdo tão pungente, mas de inquestionável qualidade literária! O livro
é belíssimo a todos os níveis, Teresa – só posso felicitá-la e regozijar-me
consigo!
Tinha dito que os capítulos finais seriam duros de roer – obrigada por me ter avisado.
São duros, muito mesmo, revelam meandros e podres da sociedade que nem se
imaginam… e como é atroz a história de Lúcia, essa mulher extraordinária, tão
generosa! Em contrapartida, o ‘Tango’ do Manaças é absolutamente delicioso,
hilariante!
E tem
razão – que consolo, que beleza a carta de Beatriz! Se todo o livro é uma
vigorosa tareia para o leitor, uma convocação do acordar para realidades tão
escondidas, tão negligenciadas…, esta carta, plena de
sensibilidade, de ternura, constitui um remate auspicioso, reabilitador da
crença no ser Humano…
Neste
momento estou embrenhada na 2ª leitura começada ontem já de madrugada,
inadiável. Vou recolhendo as inestimáveis informações e esclarecimentos de
âmbito literário (e não só!!) com que tão sábia e inteligentemente foi
enriquecendo a obra. E educando o leitor menos esclarecido… Mas vou também
observando com mais pormenor a forma admirável com que desfia este rol de
personagens intensas, complexas, humanas, para o bem e para o mal, dando-lhes
alma e dimensão psicológica. Magistralmente!
Ontem
não cheguei a responder à sua observação sobre o prédio vermelho… Pelo pormenor
e gosto com que o descreveu não me surpreende que seja a sua casa. Deve ser
belíssima! Mas parece-me que o que mais a satisfez foi mesmo o facto de poder
incluí-la no romance para aquele efeito específico! A Teresa é extraordinária!
Não
sei como expressar de outro modo o quanto amei estas Mulheres/Homem que
venceram os seus demónios! E acho que nunca lhe disse, mas vou dizer agora –
gosto muito, muito e tenho um enorme orgulho na minha Amiga Teresa
Martins Marques!
09/08/2014
A escritora Teresa Martins Marques apresentou no dia 1 de Agosto, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo a sua recente obra “A Mulher que Venceu Don Juan”.
A escritora Teresa Martins Marques apresentou no dia 1 de
Agosto, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo a sua recente obra “A
Mulher que Venceu Don Juan”.
O livro aborda a problemática da violência doméstica,
apresentando vidas escondidas de três personagens de fundo Amaro Fróis, Manaças
e Joana.
A sessão teve início com as palavras do Presidente da Câmara
Municipal de Torre de Moncorvo, Nuno Gonçalves. José Mário Leite procedeu à
apresentação do livro, tomando ainda a palavra Teresa Martins Marques e um representante
da âncora editora.
No final da cerimónia a autora deu uma sessão de autógrafos
no pátio que interliga a Biblioteca Municipal e o Centro de Memória acompanhada
por um porto de honra.
Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, 6 de Agosto de 2014
Luciana Raimundo
07/08/2014
04/08/2014
Mª Idalina Alves de Brito e " A MULHER QUE VENCEU DON JUAN "
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| Teresa Martins Marques em Torre de Moncorvo |
De uma realidade nua e crua, tão longínqua e tão próxima, solta-se, de
Trás-os-Montes ao Algarve e, por terras de além mar: Moçambique, Brasil ou
Argentina, este romance tridimensional de Teresa Martins Marques, " A Mulher que venceu Don Juan
". O ela, nós e eles, entre elementos ficcionais e pessoas concretas,
amadas e conhecidas do eu, na aventura do diálogo constante, directo e
indirecto do drama ou do humor, nessa corajosa analogia de palavras com
diferentes valores simbólicos (alma,
lama, frio, frois, froid, pág.43). "Tu és eu e eu sou tu" (pág. 79). Leonor
caminha pela verdura do amor desalentado e cansado de mãe como em diversos socalcos
da verdadeira vida. Quisera que a realidade fosse diferente! Mas, a violência
assume contornos diversificados, mesmo na própria casa, e, com as pessoas que
mais amamos.
O papel da APAV no apoio contra essas formas de tirania, revê-se na figura
da Dr.ª Lúcia e das mulheres vítimas de violência doméstica como Sara, Marta e
Odete e, mesmo no Prof. Luís, que transformaram o medo em sobrevivência heroica
contida em raiva. Porque: "o amor não é mais forte do que nós. Se
deixarmos que o seja, acabou-se a liberdade" (pág.88). Teremos de matar "esse veneno chamado destino" e
"recomeçar, não ter medo de recomeçar. Amanhã é sempre outro dia"
(pág.103).
Uma cativante aventura pelos
caminhos da Filosofia, Literatura e Psicologia, evidenciando um imenso
conhecimento literário, cultural e histórico, numa linguagem rigorosa e
atrativa, que nos prende e suspende às suas páginas, na ânsia da compreensão do
desenlace final. São exemplo: o conhecimento da Tavira árabe, o Porto ou a
Lisboa de hoje e de ontem; a psicanálise de Freud e a filosofia de Kierkegaard
e o seu " Diário do Sedutor " (págs 136, 137, 303 e 304), na interpretação da
sexualidade patológica do Don Juanismo (masculino e feminino) e a sua essência
teatral e manipuladora, do " não-ser e o não-estar em parte alguma, a não
ser em trânsito ", para dominar e violentar o outro: " pássaro e
cobra " da sedução, dada a sua incapacidade de amar outrem, a não ser a si
próprio, na compulsividade inconsciente de se afastar (reprimir) do objecto do
seu desejo: alguém do mesmo sexo, que quer, afinal (pág 234 e 235). Porque, na
impossibilidade de " curar " um psicopata do amor "serial
lover", o " amar é separar-se, quando do convívio só resulta dor "
(pág 302).
Emerge este belo e cativante romance de Teresa Martins Marques, pelos
mares bravios da realidade existencial que impiedosa e cruel, nas diferentes faces de violência e
exploração do ser humano, contrasta com os percursos laterais das ondas suaves
de amor, tolerância, solidariedade e
liberdade, nunca desistindo de construir um mundo melhor pela dignificação da vida das pessoas, numa corajosa ética profissional, missão tão
simples e dura de muitos (as) e tendo como lema de vida o de Manuela, numa
frase de Eduardo Lourenço: " Não emprestarei os meus joelhos aos ídolos
sentados no lugar impossível de Deus".
Parabéns e muito obrigada, Teresa Martins Marques, foste tu a Corajosa e
Grande " Mulher que venceu Don Juan ".
Bragança, 3 de agosto de 2014
Mª Idalina Alves de Brito
A página da Poeta no face: https://www.facebook.com/midalina.alvesdebrito
VER:
03/08/2014
ÂNCORA - UMA EDITORA AMIGA DOS AUTORES
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| Em Torre de Moncorvo. |
Obrigada a António Baptista Lopes e a todo o staff da
Editora!
Fizemos até agora 5 lançamentos do romance A MULHER QUE
VENCEU DON JUAN:
Lisboa - Livraria Ferin- apresentação por Julieta Monginho e
José Manuel Mendes.
Porto - Café Majestic - apresentação por Julio Machado Vaz.
Tavira - Salão Nobre da Câmara Municipal - apresentação por
Adriana Freire Nogueira
Bragança- Centro Cultural Adriano Moreira - apresentação por
Leonel Brito ou seja, Lelo Demoncorvo
Torre de Moncorvo- Biblioteca Municipal - apresentação por
José Mário Leite.
Faremos ainda mais dois lançamentos:
Rio de Janeiro e São Paulo.
(Primeira e segunda quinzena de Setembro, respectivamente).
No mundo em que vivemos, os livros têm de ser dinâmicos e
procurar os leitores.
OBRIGADA A TODOS OS APRESENTADORES!
Teresa Martins Marques
31/07/2014
28/07/2014
A senhora Adelina,a Igreja de Moncorvo e o Padre Victor
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| Padre Victor na Igreja Matriz de Torre de Moncorvo. Fotografia de Filipe Calado |
A senhora Adelina teve o gosto de assistir ao casamento do seu filho no
registo civil, em Lisboa, e até mudou de opinião sobre o valor indiscutível do
casamento religioso que não tinha garantido nenhuma bênção de felicidade à nora.
Mas, lá bem no fundo do seu coração de
mãe, tinha desejado outra coisa e não podia compreender por que motivo as pessoas só podiam casar-se uma
única vez pela Igreja. Logo agora que tinham lá aquele padre Victor, um rapaz novinho, que
entusiasmava novos e velhos, a Igreja sempre cheia. Aquela gente
ia à missa como quem vai para uma festa.O padre era músico, tinha gravado um
CD, que foi aproveitado para banda sonora de uma telenovela. Nunca se vira uma
coisa assim por aqueles lados. Ai, graças a Deus!
Fonte: A MULHER QUE VENCEU DON JUAN de Teresa Martins Marques,Editora Âncora.
Nota do editor: O livro será apresentado por José Mário Leite ,sexta,1 de Agosto,pelas 21 horas,na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.
27/07/2014
A trama é muito forte,por Júlia Ribeiro
“A Mulher que venceu Don Juan”
A trama é muito forte, a urdidura impecável, e a construção
das personagens muito definida e concreta .
O leitor fica agarrado desde o início .
A certa altura comecei a dar comigo a pensar que tudo iria
encaixar para um ajuste de contas. E, afinal, aparece mesmo o "ajuste de
contas".
Em suma, gostei de tudo no teu romance.
Parabéns , Teresa,
mil parabéns.
Perdoa pela demora em dar-te esta insossa opinião.
Júlia
![]() |
| ...aos quinze anos |
C.V.
Maria Júlia Ferreira de Barros Guarda Ribeiro (Biló)
Data de nascimº -
17.08.1938
Local de nascimº –
Torre de Moncorvo
Escolaridade:
Ensino Primário - de
45/46 até 48/49 – Moncorvo
Ensino Secund.º - Colégio Campos Monteiro – de 49/50 até
53/54
Liceu de
Bragança - 54/ 55 e 55/56
Ensino Superior – Univ. de Coimbra – de 56/57 até 60/61
- Licenciatura em Filologia
Germânica e Curso de Ciências Pedagógicas.
Tema da Tese de Lic. -
Após recusa do meu trabalho sobre “Der kaukasische Kreidekreis” ( O Círculo de Giz Caucasiano) de Bert Brecht
– então proibido em Portugal - voltei-me para a dramaturgia de Schiller, tendo escolhido “Don Karlos,
Infant von Spanien”,
extraordinário hino á Liberdade,
para análise literária, histórica
e política, sendo a tradução do drama
para Português obrigatória.
Prémios e Bolsas de estudo enquanto estudante:
1956, Setº - Prémio
Camilo Castelo Branco pela melhor nota global no exame nacional do 7º Ano
(actual 12º), no Liceu de Bragança.
1956, Dezº – Prémio
do Goethe Institut pela melhor nota no exame nacional de Alemão : bolsa de
estudos para um curso de seis semanas na
Univ. de Heidelberg. (Agosto / Setembro de 1957).
1960 – Por proposta
do Professor Paulo Quintela, obtive uma
bolsa de estudos do Deutscher
Akademischer Austauschdienst (DAAD) para um Curso de Verão em Göttingen.
26/07/2014
Mensagens de Bucareste
Teresa Martins Marques conseguiu trazer à vida, através da tecnologia moderna, um Don Juan que conseguiu adaptar-se ao nosso século, um sedutor que embora tenha mantido as características dos séculos passados, agora está numa fase especial da sua metamorfose. Como sabemos, o mito baseia-se na regra do triângulo:aparece o sedutor, seguido pela vítima, uma mulher nobre e o comandante ou convidado de pedra. O romance de Teresa Martins Marques mantém a mesma divisão triangular, mas adaptada à nossa contemporaneidade: aparecem três personagens de fundo donjuanesco. Amaro Fróis, cirurgião plástico, que procura nas mulheres vingança, Manaças que é serial lover e Juana que colecciona os namorados das amigas. Todos serão vencidos no romance, porque como sabemos Don Juan é sempre vencido pelo seu desejo o pelo seu comportamento. O que é interessante no romance é o personagem feminino, Manuela ,uma jovem doutoranda, prima de Doña Juana, que prepara uma tese sobre o Diário do Sedutor de Kierkegaard, falando então sobre todos os sedutores importantes. No fim do livro, Teresa Martins Marques utiliza uma técnica literária chamada mise en abyme, criando uma circularidade com o título do livro. O que é verdadeiramente maravilhoso é como apareceu o seu romance [....]
Alexandru Gabriel Streinu
Facultatea de Limbi si Literaturi Straine
BUCHAREST
Alexandru Gabriel Streinu
Facultatea de Limbi si Literaturi Straine
BUCHAREST
24/07/2014
A recensão de Eugénio Lisboa
A recensão de Eugénio Lisboa, sábia e
bem-disposta, faz justiça a romance cuja matriz folhetinesca ‒ na veiculação
semanal ‒ encantou leitores, a maioria dos quais repetiu a experiência em
livro, entretanto revisto e acrescentado. Conformes no «protocolo do
‘roman-feuilleton’», cujos cultores e títulos maiores são enunciados, parece-me
haver uma retracção do crítico na parte final, ao afirmar que «não é folhetim
quimicamente puro», por duas razões principais: o passeio de Sara pela Lisboa
do Guia de Portugal e o trabalho de tese em curso de Manuela. Quanto ao
passeio, e com mais informação (datas, etc.), bastaria olhar ao grande folhetim
camiliano A Queda Dum Anjo, em que Calisto Elói se mune de primeiras edições
seiscentistas para visitar as fontes e outros lugares da capital, sendo que, na
falta de transportes e vias de comunicação, ao tempo, o folhetim era o
repositório mais completo de quem não saía da sua terra. Viajava-se pela
imaginação, ciceronerando os leitores por universos nem sempre verosímeis.
Quanto à presença de Manuela, e suas preocupações, estas são a do leitor que se
interroga sobre os tipos, causas e efeitos do donjuanismo, transportando para o
diálogo com figura central, Lúcia, a explicação mais concorde, e, do mesmo
passo, iluminando a acção. Ainda aqui, antes do romance-ensaio (que este também
é) no século XX, a ficção oitocentista levantou, junto do grande público,
questões de moral que só poucos filósofos discutiam.
Ernesto Rodrigues
Ernesto Rodrigues (1956) é professor na Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa e presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Antigo jornalista e leitor de Português na Universidade de Budapeste entre 1981
e 1986, publicou 20 obras de poesia e ficção, desde 1973 até à mais
recente, A Casa de Bragança, em 2013.
Prefaciou 21 autores portugueses e traduziu mais de 20 obras
húngaras, incluindo o Prémio Nobel Imre Kertész, os escritores Sándor Márai,
Deszo Kosztolányi e Magda Szabó e ainda uma Antologia da Poesia Húngara,
em 2002. Reuniu oito volumes de ensaios, merecendo particular menção Mágico
Folhetim: Literatura e Jornalismo em Portugal (1998) e Cultura
Literária Oitocentista (1999).
O seu currículo pode ser consultado em www.ernestorodrigues.blogspot.com
Entrevistas:
2008. Padre António Vieira, Sermões, Cartas, Obras
Várias. Selecção e Prefácio de Ernesto Rodrigues. Lisboa, Tupam Editores,
2008. Entrevista de Ana Marques Gastão em Diário de Notícias (Lisboa),
17-3-2008.
2010. 5 de Outubro. Uma Reconstituição. Lisboa,
Gradiva, 2005. Entrevistas: À volta dos Livros, Antena 1, 17-2-2010; JL
– Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1030, 24-3-2010, p. 43; Carlos
Pinto Coelho entrevista Ernesto Rodrigues [ver: ernestorodrigues.blogspot.pt].
2011. O Romance do Gramático. Lisboa, Gradiva,
2011. Entrevista de Ana Aranha na RDP, Antena 2, Páginas de Português,
12-2-2012.
2011. António José Saraiva e Luísa Dacosta:
Correspondência. Edição de Ernesto Rodrigues. Lisboa, Gradiva, 2011.
Entrevista na RTP2, Diário Câmara Clara, 23-1-2012.
2012. Bragança, 550 anos. Entrevista de José do
Carmo Francisco, Ler, Livros & Leitores, julho-agosto de 2012,
p. 65.
Ler este texto:
20/07/2014
Os Amantes de Primeiras Edições (A propósito do romance A Mulher que Venceu Don Juan) Por Eugénio Lisboa
O livro que
Teresa Martins Marques acaba de publicar, A
Mulher que Venceu Don Juan, é um empolgante romance, que se revê,
folgadamente, no protocolo do “roman-feuilleton”, que fez fortuna em meados do
século XIX. Cultivaram-no, entre outros, Alexandre Dumas (Pai), Eugène Sue (Les Mystères de Paris, Le JuifErrant), Ponson du Terrail (Les Exploits de Rocambole), Paul Féval (Les Mystères de Londres, Les Amours de Paris), FrédéricSoulié (Les DeuxCadavres, Les Mémoires du Diable), ou, entre nós, Camilo (Os Mistérios de Lisboa) ou Eça/Ramalho (O Mistério da Estrada de Sintra).
O próprio
desta ficção, que se publicava, originalmente, semana após semana, nos jornais,
era arrastar, em continuada suspensão, uma interminável e sensacional intriga,
com pistas e contra-pistas, e revelações cada vez mais surpreendentes – e
sempre provisórias – à medida que a narrativa progredia e, no final, um
saboreado ajuste de contas, a que não havia que fugir e que tinha a função
terapêutica de limpar o fígado aos leitores e aos protagonistas do “lado
certo”. De tudo isto participa desenvoltamente este romance “moderno”, que a
autora quis que servisse de veículo, precisamente, para um ajuste de contas com
os Don Juans de serviço, os quais acumulam, não infrequentemente, o gosto de
coleccionar conquistas, com o gosto, não menos maligno, de maltratar, física,
psicológica e moralmente, as conquistas perpetradas.Neste aspecto, a criação do
monstro Amaro Fróis é façanha de
mestre. Como o é o dos outros “donJuans e Juanas” (o Manaças, a Juana), que se
destacam, como criação de personagem, com um relevo que deixa um pouco apagados
os restantes, que povoam o universo ficcional congeminado por Teresa Martins
Marques. Logo de entrada, a pequena cena da ceia, no restaurante Olivier, a seguir a um espectáculo de
ópera, em Lisboa, poderia ter a assinatura de um dos grandes mestres do
realismo: Flaubert, Maupassant, Martin du Gard.
Não se
trata, note-se, de um romance feminista e, muito menos, de um panfleto do mesmo
cariz. Teresa Martins Marques fustiga, com igual eloquência e abundância de
argumentos, Don Juans e Donas Juanas. Porque estas últimas existem, em igual
profusão, causando, a si próprias e aos outros, o mesmo teor de estragos que
deixam, atrás de si, os homólogos do sexo masculino. Para dar só um exemplo,
conta-se a história de uma autora e actriz francesa, Mademoiselle Dubois, que
se gabava de ter entretido, ao longo de um período de vinte anos, 16 537
“affaires”, ou seja, cerca de três por dia... Ao lado disto, o Don Juan
(Tenório), com as suas míseras 2594 conquistas, não passou de um “dinkytoy”.
Teresa
Martins Marques disseca, com mão experta de romancista, de ensaísta e de
psicóloga, este tipo de personagem ambíguo e devorador (inseguro) que é o
coleccionador de conquistas femininas (ou masculinas). Alguns especializam-se
em desflorar virgens, como o editor inglês Leonard Smithers (1861 – 1907), do
qual, Oscar Wilde, sublinhando, ironicamente, esta inclinação, dizia: “Smithers
adora primeiras edições.” A virgindade não é, no entanto, obrigatória, para o
orgulho do Don Juan. O importante é mudar,
isto é, largar a pessoa, uma vez comida – uma
vez. Por isso, mudar de mulher, mesmo não virgem, mesmo casada, é não
querer uma repetição, isto é, uma 2ª
edição da mesma obra.
Trata-se,
pois, de um livro – o de Teresa Martins Marques – não diria tanto de tese, mas antes de causa (ou de causas). Estas obras podem facilmente tornar-se
ensaios disfarçados de ficção, sendo, nesses casos, de leitura, em geral, menos
apelativa. Para o evitar, Teresa Martins Marques resolveu desposar o protocolo
capitoso e ruidoso do “roman-feuilleton” (no primeiro ciclo de Les Thibault – “Le Cahier Gris” – Martin
du Gard não hesitou em usar o cheirinho bom do romance policial, logo a partir
da 1ª página...) O “roman-feuilleton” cativa sempre o leitor, mesmo o moderno.O
apelo é tão forte, que se conta ter sido Eugène Sue – o dos Mistérios de Paris – em certa ocasião,
solto da prisão, para que a publicação de um seu romance em folhetins não fosse
interrompida... Cumpra-se a lei, sim, mas devagar! (Aqui fica o palpite, caso a
Teresa, no futuro, venha a necessitar de um precedente jeitoso!)
Sem deixar
de dar o seu a seu dono, isto é, sem deixar de reconhecer o que a leitura deste
livro tem de empolgante, devo, no entanto, acentuar que ele não é folhetim
quimicamente puro: mistura, galhardamente, a narrativa de acção sensacional com
o ensaísmo escarolado, bem informado, erudito e minucioso, às vezes, quase até
ao desespero. Montherlant fá-lo, com eficácia felina, nas páginas inesquecíveis
e magnéticas da sua tetralogia Les
JeunesFilles e um pouco, mas sempre
com grande desenvoltura, em toda a sua obra romanesca. Misturando alegremente
os géneros, ao contrário do que recomendava a retórica clássica, pois, dizia
ele, com maldade de boa pontaria, se a grande literatura clássica não mistura
os géneros, a vida não faz outra coisa que não seja misturá-los. Teresa Martins
Marques imita a vida e não a arte clássica – e fá-lo com descaramento saudável.
Misturar o douto ensaísmo e, mesmo, o material de construção de um
doutoramento, com os saltos de acção imprevistos, mais próprios do Rocambole,
dá-lhe, a ela, gozo, e, ao leitor, gozo e proveito. No entanto, a autora, por
vezes, exagera: quando, por exemplo, a protagonista Sara, fugida ao monstro do
marido (Amaro), resolve deambular, turisticamente, por Lisboa, a autora observa
que ela (Sara) “queria ver com os seus olhos o que lhe dizia o Guia de Portugal, na edição da Fundação
Gulbenkian, reproduzindo a 1ª de 1924, dada à estampa na edição da Biblioteca
Nacional, pela mão zelosa de Raul Proença.” Esta gratuita exibição de
conhecimento bibliográfico, inserida no miolo do fluxo da narrativa, soa,não
só, a despropósito, como se torna quase cómica. Digamos que a minúcia
bibliográfica, aqui, não rima com a música do fluxo novelesco. Não estou a ver
Martin du Gard, nos Thibault, quando
insinua a influência que terá tido, sobre Jacques e Daniel, a leitura de Les Nourritures Terrestres, a entrar em
precisões de autoria (André Gide), nem de editor, nem de ano de publicação, nem
de qual fosse a edição lida pelos dois adolescentes... Mais, o grande
romancista francês nem sequer indica o título da obra que tanta repercussão
teve em todo o mundo: transcreve algumas passagens mais escaldantes, que teriam
feito ferver a imaginação exaltada de Jacques e Daniel. É, a pensar nisto, que
pode causar alguma crispação toda a tralha bibliográfica, a atravancar a narrativa.
O mesmo se pode dizer de certos diálogos como o que se trava entre Lúcia e
Manuela, demasiado “didácticos” e artificiais, obviamente destinados a “passar
informação” ao leitor... (A propósito de Lúcia., seria interessante comparar o
aspecto funcional desta personagem com a personagem típica do
“roman-feuilleton”, exemplificada no príncipe Rudolfo, de um romance de Eugène
Sue, o qual assombra Paris, escondendo-se no baixo-mundo, punindo os maus e
recompensando os virtuosos, que, misteriosamente protege... Ver-se-á, no
romance de Teresa, que Lúcia andou, secretamente, por detrás de muita coisa
boa.)
Seja como
for, prefiro, francamente, o descoco indisfarçado do ensaísmo, que faz
contraponto desavergonhado com o cavalgar incontido das pistas escandalosas e
das revelações melodramáticas, aquecidas a temperatura de alto forno.
Resumindo
muito, Teresa Martins Marques produziu um primeiro romance forte, original e
denso, um material fogoso de debate, sobre um problema que assola esta nossa
sociedade, em tempo de crise: o da violência doméstica, o da perda de
auto-estima, num universo em que os valores se dissolvem e o bezerro de ouro se
torna o único deus reverenciado, sobretudo se entregue à fruição de poucos, com
o apoio e a bênção dos que nos governam, detêm o poder e abrem as portas do
inferno aos desprotegidos.
09/07/2014
Relê-lo é fundamental
Também somos os livros que lemos,
aqueles que mais nos"marcaram”. Tenho por hábito relê-los, passados longos
períodos de tempo. Por curiosidade, por necessidade de saber até que ponto
mudei ou se sigo igual ao que fui. Já tive algumas (poucas) desilusões. Se
conheço a biografia do autor, tento não o confundir com a obra. Acontece que admiro
alguns como escritores e abomino-os como pessoas.
Vem isto a propósito da minha
segunda leitura de “ A mulher que venceu Don Juan”. Tive o privilégio de conhecer
a Teresa pessoalmente depois do meu primeiro contacto com o romance. A
escritora talentosa, a intelectual culta e séria revelou-se-me uma mulher
calorosa, despretensiosa, simples, comunicativa, amiga. A sua vida pessoal, os
seus projectos de escrita despertaram em mim o desejo, a curiosidade de entrar
outra vez no romance, estar mais atenta a todos os pormenores, descobrir
aspectos que me passaram despercebidos. A primeira leitura, de um fôlego, por
ansiar conhecer o desfecho do enredo, deu lugar a outra demorada, cuidada, reflectida.
De novo me “agarraram” o tema central, os vários outros temas que se
entrelaçam, a qualidade literária, a trama engenhosa que nos “prende” desde as
primeiras páginas, o humor e a fina ironia, a erudição que não enfastia, a
informação que nos abre caminhos, o carácter pedagógico de certas passagens.
Se já leram o livro, leiam-no novamente. Na primeira leitura, devora-se. Na
segunda, degusta-se com prazer redobrado.
Odete Brito
Odete Brito – Professora aposentada. Licenciatura em
Filologia Germânica e curso de Ciências Pedagógicas pela Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa. Professora do ensino liceal e técnico. Leitora de
Português na Universidade de Leeds, Inglaterra.Colaboração na elaboração de um curso de Português,”Get by in
Portuguese”, produzido e transmitido pela BBC. Professora de Português a
Estrangeiros no Departamento de Língua e Cultura Portuguesas da Universidade de
Lisboa. Orientadora na formação de novos leitores de Português no mesmo
Departamento. Professora de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade
Popular ,na Faculdade de Educação e Faculdade de Ciências (Universidade da
Estremadura),em Badajoz.
07/07/2014
Monte da Caparica,APAV , a violência doméstica e "A Mulher que...
No Monte da Caparica o cheiro bom
da cozinha, onde a Maria preparava o jantar. Como se chamaria ela? Ali todas
usavam um nome falso, só a Drª Lúcia sabia o verdadeiro. A vivenda da APAV era
confortável, as outras mulheres sentiam-se
como peixe na água, não fora a poluição
da memória.
− Maria, fizeste pataniscas ?
− E tu que não acertasses logo, com esse faro que Deus te deu!
Sete meses passaram desde que entrou naquela casa. Foi a Maria que lhe
limpou os restos de sangue, foi a Antónia que lhe lavou a roupa, uma senhora
tão linda e tão fina o que é que lhe fizeram, santo Deus!? Foi a Marta que lhe disse, não está sozinha, agora
nós somos a sua família.
Os monstros aqui não entram. − Dizia a Odete levantando uma vassoura no ar. Foi com essa vassoura que me ensinou a varrer
e a tirar as teias de aranha. Semanas
depois, já queria dar-me o diploma de
mestra de limpezas.
− Ai se a sonsa da tua criada te visse agora! Nunca mais fazia troça da
patroa dondoca, que não sabia estrelar um ovo nem mexer uma palha. Agora
agarravas na vassoura, partias-lhe os cornos a ela e ao mânfio do teu marido.
Ganda-filho-da-puta!
− Cala-te, mulher, − atalhou a
Maria, − não ponhas mais lume na fogueira.
Sara tapava os ouvidos com as duas
mãos, fugia para o quarto, metia-se na cama e lembrava-se das sovas, do resto. De
tudo. De patroa ela só tinha o nome. Era ele quem pagava o ordenado à criada, ficava bem claro quem era ali o patrão.
Agora não queria pensar no lixo
do passado. Queria sentar-se à mesa diante daquela comida simples, esquecer-se
do último jantar no Olivier da Rua do
Alecrim e, sobretudo, esquecer o que se seguiu depois. Ter esperança de algum
dia esquecer.
− Esmeralda, conta lá como é que é esse teu patrão?
− Como os outros. Tu não dizes que são todos
iguais?
−
Lá isso são, mas há uns ainda mais marafados do corname…
− Mas que é isto? Respeitinho, que
é bonito e eu gosto! − atirou outra a fuzilar a linguaruda.
− Mulher, inda te vais embeiçar por ele… Era agora a Maria, profeta finória
como só ela sabia ser.
− Desculpa lá! Tu és a única madama no mundo que eu trato por tu. E
carregava no “tu”. Desculpa, mas tou quem nem posso, com essa do corname! E
ria, ria muito. Porra para eles!
− E ela a dar-lhe.
− Se não me rir inda é pior.
Começavam todas a rir, muito alto, um riso estridente, molhado de
lágrimas que limpavam ao avental. Riam a
fingir de esquecidas dos maus tratos, esquecendo ou fingindo que não lembram que
um dia pode aparecer um bandido à porta, como o da Filomena, de faca na mão a
gritar, ganda- cabra, tu fugiste-me ? Mas vais voltar comigo já pró redil, que
eu é que te amanso, minha cordeira lanzuda! E puxava-lhe a farta cabeleira negra,
enquanto gritava e agitava a faca como um florete:
− Já à minha frente, sua
ganda-puta!
E a Filomena, que parecia tão valente, começou a esbracejar, com a voz
repassada de medo, encandeada, como o passarinho e a cobra .
− Isto é o vinho, logo lhe passa, deixem, deixem…
E deixou uma chinela para trás, com o puxão que lhe deu, as outras a gritar, Nossa
Senhora de Fátima nos acuda, eu
escondida ao fundo do corredor a ouvir
tudo, pregada ao chão, a tremer. A Antónia agarrada a mim, aos empurrões, a
proteger-me, toca a andar já daqui para
fora.
A Filomena. Passaram alguns meses
sem sabermos dela. Um dia a Drª Lúcia trouxe
a notícia. Tinha aparecido morta com um golpe fundo na garganta e o bandido foi entregar-se todo lampeiro e cumpridor das leis – “Já cá
estou, ó senhor guarda, não precisa de me ir buscar a casa… Estava com os
copos não sei o que fiz.”
Depois de vários interrogatórios
já sabia o que tinha feito:
− A cabra estava a pedi-las… Espero que aquele monte de esterco não me deixe ficar nódoas nos mosaicos da
cozinha.
Lá foi a pagá-las a Custóias. Ela em Agramonte.
Durante dias ninguém riu, andávamos de luto pela Filomena. De luto por
nós todas. Pensava para dentro, um dia poderei ser eu. Por fim, sobra o silêncio.
Fonte: "A Mulher Que Venceu Don Juan"
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