19/08/2017

A Mulher que venceu Don Juan

Simion Doru Cristea

Se à partida Don Juan é de descendência espanhola, a mulher que venceu Don Juan é, indubitavelmente, portuguesa e ela, por sua vez, reúne os nomes de todas as mulheres. As personagens femininas que exemplificam no romance esta qualidade constituem tão só um enquadramento diegético.
Teresa Martins Marques
A capa deste livro (editora Âncora, 2013) concebida por Sofia Travassos Diogo, utilizando um pormenor da célebre pintura de Gustav KlimtO beijo, sublinha o valor afetivo da relação interiorizada pela amada de olhos fechados para absorver o prazer mais além do toque físico dos corpos, numa sedimentação de memórias e aberturas física, emocional e mental, envolvendo o amante no seu ser para o dominar com o braço pousado sobre os seus ombros. Dos três tamanhos diferentes de letras do título da capa destaca-se à primeira vista: A mulher Don Juan e numa segunda leitura o título inteiro: A mulher que venceu Don Juan. As duas leituras são justificadas pelo romance que promove a postura feminina de Don Juan, não apenas na personagem explícita de Joana “pouco a pouco a Joana transformava-se em Doña Juana” (p. 73), mas em todas as personagens femininas. Todo o romance se afirma como uma ode dedicada à mulher, deusa e sacrifício do Amor.
Os conceitos de Don Juan e de Mulher neste romance descritivo e interpretativo não constituem um par antonímico, mas uma osmose. O valor conceptual projeta-os numa dimensão virtual, intangível, num desenrolar do amor como desejo, aspiração, fuga, encontro do desencontro, relação na qual a mulher tem a vantagem de dominar a situação uma vez que Don Juan, concentrado no seu desejo de conquista da mulher, abstrai-se da realidade imediata, marcando fisicamente uma ausência, enquanto a mulher, detentora do mistério da vida, tem uma ligação ontológica com o imanente, conferindo-lhe todas as vantagens de conquista do indivíduo. Apenas ele próprio se vê e se considera Don Juan. Por outro lado, uma mulher apaixonada identifica-se no seu íntimo com aquele que ama, conduzindo-o afetivamente. No terceiro grau desta hipóstase ficcional dominadora de Don Juan assumida pela mulher, temos a sabedoria, a razão e a previsão do amor-crime colocado numa cadeia repetitiva e, como tal, o comportamento daquele, que uma vez cometendo um crime vai voltar a fazê-lo em várias situações com várias vítimas, é vigiado. Configura-se deste modo um nível superior da condição de Don Juan feminino oferecido pela própria experiência de vida à Dr.ª Lúcia que abriu, também ela, a luta contra a aterradora hidra que foi desde sempre a violência da parte do fisicamente mais forte e intelectualmente fraco.
As personagens masculinas deste romance, embora aspirando-o, não conseguem assumir a condição de Don Juan, personagem tornada objeto de reflexão filosófica e interpretação literária com ricas referências bibliográficas em torno de O Diário do Sedutor do “Dinamarquês Universal” (p. 229) Sørel Kierkegaard, “escolhido como tema-base da tese de doutoramentopela sua [Manuela] imensa curiosidade sobre comportamentos humanos” (p. 116).
O mais perigoso, o Dr. Amaro Fróis, “cirurgião plástico muito conhecido” (p. 168), relaciona-se com a violência, não com o amor e não passa de um violador, como o apresenta sinteticamente Lúcia ao comissário do Porto Paulo Ventura: “O Amaro é um violador inveterado. Violou-me a mim, à Sara, ao Manaças e sei lá se também à Joana, que bem pode ser filha dele. O homem é um refinado psicopata” (p. 284). No seu refinamento erótico evidencia também atitudes homossexuais como no passado para com o Rui, o jovem namorado de Lúcia que morreu num acidente de carro por ele provocado, atitudes esclarecidas pela violação de Manaças e na confissão da Sara: “Ele deu-me a entender, por meias palavras, que sabia da minha ligação com o Alberto e chegou mesmo a insinuar que não se importaria, se eu lhe contasse pormenores de cama. Agora faz todo o sentido. O Amaro simularia o sexo mental com o Alberto através de mim, se eu tivesse alinhado a contar” (p. 290).
Da geração mais jovem, Carlos Manaças “um sujeito estranho, de Avintes, professor até há pouco tempo em Lisboa” (p. 273) como é apresentado no seu relato policial pelo comissário Paulo Ventura, assume o papel de confessor traidor dos seus amigos, entre os quais o Luís, superficial em tudo e, como tal, assume a imagem de dandy na Faculdade de Letras de Lisboa e nas suas relações amorosas e, porque nunca ia ao fundo das coisas, mudou várias vezes o tema da tese de doutoramento, aliás nunca terminada. Como vítima, é violado pelo seu próprio pai, Dr. Amaro Fróis, tendo sido também testemunha ocular da sua morte baleado pela sua mãe, Gertrudes (p. 312). Sendo o principal suspeito deste crime, Manaças foge para o Brasil donde passa para a Argentina onde consegue, finalmente, encontrar a sua vocação de animador, cantor e dançarino de tango em Buenos Aires, conhecido como Don Carlito (p. 317).
Luís apresenta-se como um intelectual que exercita a sua arte de fascínio intelectual ex catedra sobre as suas alunas, uma delas a sua própria mulher, Joana, que há alguns meses o deixara sozinho numa vida insípida e monótona. Preso na sua paixão por Joana, vive desesperadamente a traição do amor da sua vida, a sua alma gémea, mete-se nos copos com os amigos para esquecer, sendo um deles o mais jovem Carlos Manaças (cf. Capítulo In vino veritas, pp. 47–54). O raio de luz entra na sua casa com a sua empregada doméstica Esmeralda Cardoso, identidade emprestada por Sara Fróis (p. 40). Eles vão encher e completar as suas vidas de uma forma mútua. Tiveram sorte que a Dr.ª Lúcia tenha planejado entrelaçar as suas vidas.
Francisco, namorado de Lúcia, é o seu verdadeiro colega de coração, uma presença masculina quente e protetora, um apoiante ativo das suas causas social e moral, uma sombra luminosa da qual uma mulher determinada como ela necessita neste mundo.
As histórias de vida de várias personalidades históricas referenciadas ao longo deste romance, e não sou poucas, relacionam-se com a condição do conquistador, caçador e vingativo, ou daquele que sofre condenado injustamente por causa do seu amor correspondido. Mencionamos o enredo histórico do conde Gregório Taumaturgo de Castelo Branco apresentado no romance de Fernando Campos O Prisioneiro da Torre Velha, sobre Dona Brázia de Vilhena, casada com o seu tio, Taumaturgo, um criminoso em série, que mata as suas esposas (pp. 107–111) e planeja igualmente a punição de Dom Francisco “condenado pela vingança do marido traído e pelos ciúmes do rei” [D. João IV] (p. 110), também amante da condessa Dona Mariana, a terceira esposa do Taumaturgo. Dom Francisco, o poeta apaixonado, perdeu todos os seus bens ficando preso dos 33 aos 45 anos (p. 111).
O lado inédito deste romance de 324 páginas estruturado em 34 capítulos é a anulação do limite entre a ficção e a realidade conhecida hoje pelos leitores. A autora oferece-nos uma sobreposição das personagens com pessoas reais referenciadas entre as quais se conta a própria autora (p. 154). Os nossos conhecidos e reconhecidos encontrados no romance, com os seus nomes, maneira de ser e estar, seus horizontes culturais e afetivos preenchem de vida os lugares e instituições como APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), a Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa manuelina, Cidade Universitária, Alfama, Jardim Constantino, Saldanha, Avenida da Liberdade, Chiado, Tavira com as suas duas Associações ativas e maior renome no estrangeiro do que em Portugal: a Associação Internacional de Paremiologia e o Núcleo de Amigos Fotógrafos do Algarve (cf. o capítulo Na Veneza Algarvia, pp. 147–162). De norte a sul todo o Portugal está presente neste romance, como um pódio histórico-cultural digno para a mulher que saiu do mito e se incorporou na atual intelectual que vence Don Juan, sem sair do espaço cultural ibérico onde Portugal está carregado de memórias dos atos históricos sedimentados durante séculos. As personagens vivenciam sonhos materializados numa história mantida viva pelos intelectuais deste país que atualizam o passado e também, por sua vez, se sedimentam na história, ficando vivos no imaginário inalterável do romance. A entrada das pessoas ainda em vida no romance anula o valor estático da eternidade expressa nas lápides dos túmulos e por isso, para além de qualquer amizade, têm que mostrar os seus reconhecimentos para continuarem a presenciar no romance a sua vida normal afetiva e intelectual, longe de qualquer exemplaridade. Como intelectuais são os intérpretes que chamam à vida tantas e tantas histórias e obras e, falando sobre a genialidade dos outros, revelam o seu próprio valor.
Consideramos não muito certa a questão: “Quem é a mulher que venceu Don Juan?” Porque neste romance cada mulher conhecedora deste mito vence Don Juan, inclusivamente a Filomena que “tinha aparecido morta com um golpe fundo na garganta e o bandido foi entregar-se todo lampeiro e cumpridor das leis” (p. 45). Esta interpretação contravém à intenção da autora de criar um romance na linha de arte com tendência, para promover e apoiar a luta contra a violência doméstica e de qualquer outro tipo. Não seguimos igualmente a linha do complexo de Estocolmo, que defende o agressor culpando a vítima. Como Filomena venceu Don Juan uma vez que o bandido a matou? Não suportando mais a sua vida doméstica, o tratamento inumano, fugiu de casa e pediu ajuda à APAV, viveu com outras colegas do mesmo sofrimento na casa de férias da Dr.ª Lúcia no Monte da Caparica, lugar de onde desapareceu em circunstâncias desconhecidas que levantam várias suposições, o certo é que a caça foi ao reencontro com o caçador. Ela venceu Don Juan, o homem que amava, sempre presente no seu coração, confessando ao agressor o seu grande amor pela vida e pelo homem dos seus sonhos que sempre irá amar, a verdadeira imagem do seu amante, a única que lhe deu razão para viver. Filomena venceu Don Juan porque o bandido entendeu que nunca iria chegar à nobreza da sua pobre mulher, ele não é e nunca vai ser Don Juan e por isso a besta ofereceu-lhe a oportunidade de ela própria vencer Don Juan através da morte, abraçando-o eternamente, como no quadro O Beijo de Gustav Klimt.
A personagem principal, Sara Fróis, a princesa à procura do seu reinado, vence duas vezes o Don Juan à sua maneira: através do coração de criança e o horizonte juvenil de virgem, Sara vence Don Juan que era Amaro, seu marido com dupla personalidade a quem foi entregue pelos seus pais e, como Esmeralda, conquista com o seu coração e horizonte de mulher delicada e culta o académico Luís, comentador imaginativo de Don Juan. Assistimos à redação do diário de Sara escrito num estado místico de alma, no qual entrelaça a alegria, a inocência pueril e o exuberante desejo juvenil com a sua sede de conhecimentos numa formação académica interdita na juventude pelo seu marido, a sua sensibilidade, cultura e horizonte de autodidata que falava fluentemente várias línguas, escrevia chicoteada pelas lembranças de tantas traições, da parte dos seus pais, do marido e criadas, restando-lhe apenas fieis o seu motorista Joaquim que lhe salvou a vida após o aborto provocado por Amaro (pp. 16–18), o comissário Paulo que investigou o seu caso de violência doméstica, a Dr.ª Lúcia e todos aqueles que se solidarizaram com o seu sofrimento. Abraça-a inconscientemente o calor vindo da parte de Luís, o homem que mais respeitava, vivendo juntos o desejo da união e amor sempre sonhados. Encontra alívio e calma na sua escrita oferecida ao seu único leitor-confessor, Luís, estratagema libertador do seu íntimo,
A Dr.ª Lúcia vence os seus Don Juans e o número de várias configurações afetivas e imaginativas de Don Juan das suas pacientes protegidas pela APAV. Domina e interpreta com a sua sobrinha Manuela o horizonte cultural desta constante intelectual e paradigma humano, incentivando Manuela a estudar esta face da realidade humana.
Indo mais além das referências comparatistas literárias com Werther “Werther é interioridade, Don Juan é exterioridade, Werther é haute couture, Don Juan é pronto-a-despir, Werther é gourmet, Don Juan é fast food” (p. 73), ou a sua representação decrépita na qual “a velhice é o verdadeiro castigo de Don Juan quando as armas da sedução começam a falhar” (pp. 233–234) com referência à peça La mort qui fait le trottoir de Montherlant, nas conversas com a sua tia Dr.ª Lúcia sobre a condição do sedutor, a vestal Manuela vence Don Juan especializando-se no estudo deste tema, evoca o lado mítico resumido por Kierkegaard em três palavras: “fruição, dúvida e desespero” e “aquelas três palavras correspondem a três figuras: Don Juan, Fausto e Ahasverus” (p.144) no sentido que “estas três figuras não constituem somente tipos históricos, são tipos humanos que se encontram igualmente nos dias de hoje” (ibidem). Liga Don Juan à condição do Sísifo: “É assim que vejo as conquistas de Don Juan. Uma auto condenação a subir e deixar cair a pedra. Continuamente.” (ibidem, p. 238). Abordando a complexidade da sedução, a mesma pesquisadora relaciona-a com o “complexo de Édipo”: “No donjuanismo existe frequentemente um complexo de Édipo, não resolvido. A volubilidade indicia imaturidade afetiva, medo de assumir compromissos próprios da adultícia, somada à ausência de culpa e de remorso” (p. 233). Não faltam as referências à obra de Rougement, Les Mythes de L’Amour onde se insiste no “déficit identitário de Don Juan” (p. 234), de onde surge o seu relacionamento com o mito de Narciso: “Não sente afeto por ninguém a não ser por si mesmo. Sendo que o afeto pelo outro define a identidade, Don Juan-Narciso é uma máscara ambulante, um lugar vazio” (p. 234), este aspeto visa a atividade intelectual que abstrai a pessoa, projetando-a no mundo interior da leitura, imaginação, reflexão, e por isso Don Juan é o intelectual que exige da sua parte e dos outros o absoluto, a perfeição, desejo que alimenta o seu contínuo descontentamento. Não falta a referência à metamorfose que transforma o amador na pessoa amada: “A ninfa a que se alude é Cénis, transformada por Posídon em Ceneu, o homem por quem ela se tinha apaixonado. Este desejo expresso pelo sedutor de transformar a amadora no amado, em processo fusional de assimilação e de transferência do género, é bem significativo do recôndito ninguém fuma um cigarro duas vezes” (p. 238). Deste modo, fecha-se o círculo, Don Juan ultrapassando a limitação do género como esclarece Lúcia: “quem disse que o donjuanismo é exclusivo dos homens? Não, Luís, somos todos iguais, homens ou mulheres, para o bem e para o mal” (pp. 73–74).
A leitura deste romance cativa, informa e educa-nos, oferecendo-nos referências bibliográficas de mais de 45 títulos, sem esquecer várias edições originais e traduções da obra de Sørel Kierkegaard; no seu todo, o romance constitui-se como uma pleitearia argumentada e bem imaginada para a causa nobre de provar que as mulheres são Don Juan e incentivando-as a serem sempre aquelas que o vencem, nunca desistindo de lutar na defesa dos seus valores e dignidade, promovendo a igualdade do ser humano, bem como cultivando a nobreza do ser. Como numa verdadeira digressão pelo país, são referenciados nomes de restaurantes e cafés que podemos hoje encontrar e frequentar para nossa grande satisfação como: o Restaurante Olivier da Rua do Alecrim em Lisboa, (p. 15), Restaurante Cave Real, na Avenida 5 de Outubro, (p. 65), O Casarão de Tavira (p. 152), o Café Venezade Tavira (p. 161), o Solar dos Presuntos, (p. 173), o Serra da Estrela no Atrium Saldanha em Lisboa, (p. 173), o Café Majestic do Porto (p. 206) e tantos outros, cada um com a sua caraterística ambiental e paladares próprios, inesquecíveis.
Terminada a leitura, ficamos convencidos que a própria autora Teresa Martins Marques venceu Don Juan da melhor forma possível, como testemunham as personagens que decifraram a mensagem e perceberam perfeitamente o que têm de fazer, e nós todos, sendo para muitos e muitas um incentivo de mudança de vida.
O esplendor da mulher portuguesa ou A Mulher que venceu Don Juan, romance de Teresa Martins Marques, Âncora Editora, 2013, 326 p, formato 150 × 230 mm
Simion Doru Cristea
Se à partida Don Juan é de descendência espanhola, a mulher que venceu Don Juan é, indubitavelmente, portuguesa e ela, por sua vez, reúne os nomes de todas as mulheres. As personagens femininas que exemplificam no romance esta qualidade constituem tão só um enquadramento diegético.
A capa deste livro concebida por Sofia Travassos Diogo, utilizando um pormenor da célebre pintura de Gustav Klimt O beijo, sublinha o valor afetivo da relação interiorizada pela amada de olhos fechados para absorver o prazer mais além do toque físico dos corpos, numa sedimentação de memórias e aberturas física, emocional e mental, envolvendo o amante no seu ser para o dominar com o braço pousado sobre os seus ombros. Dos três tamanhos diferentes de letras do título da capa destaca-se à primeira vista: A mulher Don Juan e numa segunda leitura o título inteiro: A mulher que venceu Don Juan. As duas leituras são justificadas pelo romance que promove a postura feminina de Don Juan, não apenas na personagem explícita de Joana “pouco a pouco a Joana transformava-se em Doña Juana” (p. 73), mas em todas as personagens femininas. Todo o romance se afirma como uma ode dedicada à mulher, deusa e sacrifício do Amor.
Os conceitos de Don Juan e de Mulher neste romance descritivo e interpretativo não constituem um par antonímico, mas uma osmose. O valor conceptual projeta-os numa dimensão virtual, intangível, num desenrolar do amor como desejo, aspiração, fuga, encontro do desencontro, relação na qual a mulher tem a vantagem de dominar a situação uma vez que Don Juan, concentrado no seu desejo de conquista da mulher, abstrai-se da realidade imediata, marcando fisicamente uma ausência, enquanto a mulher, detentora do mistério da vida, tem uma ligação ontológica com o imanente, conferindo-lhe todas as vantagens de conquista do indivíduo. Apenas ele próprio se vê e se considera Don Juan. Por outro lado, uma mulher apaixonada identifica-se no seu íntimo com aquele que ama, conduzindo-o afetivamente. No terceiro grau desta hipóstase ficcional dominadora de Don Juan assumida pela mulher, temos a sabedoria, a razão e a previsão do amor-crime colocado numa cadeia repetitiva e, como tal, o comportamento daquele, que uma vez cometendo um crime vai voltar a fazê-lo em várias situações com várias vítimas, é vigiado. Configura-se deste modo um nível superior da condição de Don Juan feminino oferecido pela própria experiência de vida à Dr.ª Lúcia que abriu, também ela, a luta contra a aterradora hidra que foi desde sempre a violência da parte do fisicamente mais forte e intelectualmente fraco.
As personagens masculinas deste romance, embora aspirando-o, não conseguem assumir a condição de Don Juan, personagem tornada objeto de reflexão filosófica e interpretação literária com ricas referências bibliográficas em torno de O Diário do Sedutor do “Dinamarquês Universal” (p. 229) Sørel Kierkegaard, “escolhido como tema-base da tese de doutoramentopela sua [Manuela] imensa curiosidade sobre comportamentos humanos” (p. 116).
O mais perigoso, o Dr. Amaro Fróis, “cirurgião plástico muito conhecido” (p. 168), relaciona-se com a violência, não com o amor e não passa de um violador, como o apresenta sinteticamente Lúcia ao comissário do Porto Paulo Ventura: “O Amaro é um violador inveterado. Violou-me a mim, à Sara, ao Manaças e sei lá se também à Joana, que bem pode ser filha dele. O homem é um refinado psicopata” (p. 284). No seu refinamento erótico evidencia também atitudes homossexuais como no passado para com o Rui, o jovem namorado de Lúcia que morreu num acidente de carro por ele provocado, atitudes esclarecidas pela violação de Manaças e na confissão da Sara: “Ele deu-me a entender, por meias palavras, que sabia da minha ligação com o Alberto e chegou mesmo a insinuar que não se importaria, se eu lhe contasse pormenores de cama. Agora faz todo o sentido. O Amaro simularia o sexo mental com o Alberto através de mim, se eu tivesse alinhado a contar” (p. 290).
Da geração mais jovem, Carlos Manaças “um sujeito estranho, de Avintes, professor até há pouco tempo em Lisboa” (p. 273) como é apresentado no seu relato policial pelo comissário Paulo Ventura, assume o papel de confessor traidor dos seus amigos, entre os quais o Luís, superficial em tudo e, como tal, assume a imagem de dandy na Faculdade de Letras de Lisboa e nas suas relações amorosas e, porque nunca ia ao fundo das coisas, mudou várias vezes o tema da tese de doutoramento, aliás nunca terminada. Como vítima, é violado pelo seu próprio pai, Dr. Amaro Fróis, tendo sido também testemunha ocular da sua morte baleado pela sua mãe, Gertrudes (p. 312). Sendo o principal suspeito deste crime, Manaças foge para o Brasil donde passa para a Argentina onde consegue, finalmente, encontrar a sua vocação de animador, cantor e dançarino de tango em Buenos Aires, conhecido como Don Carlito (p. 317).
Luís apresenta-se como um intelectual que exercita a sua arte de fascínio intelectual ex catedra sobre as suas alunas, uma delas a sua própria mulher, Joana, que há alguns meses o deixara sozinho numa vida insípida e monótona. Preso na sua paixão por Joana, vive desesperadamente a traição do amor da sua vida, a sua alma gémea, mete-se nos copos com os amigos para esquecer, sendo um deles o mais jovem Carlos Manaças (cf. Capítulo In vino veritas, pp. 47–54). O raio de luz entra na sua casa com a sua empregada doméstica Esmeralda Cardoso, identidade emprestada por Sara Fróis (p. 40). Eles vão encher e completar as suas vidas de uma forma mútua. Tiveram sorte que a Dr.ª Lúcia tenha planejado entrelaçar as suas vidas.
Francisco, namorado de Lúcia, é o seu verdadeiro colega de coração, uma presença masculina quente e protetora, um apoiante ativo das suas causas social e moral, uma sombra luminosa da qual uma mulher determinada como ela necessita neste mundo.
As histórias de vida de várias personalidades históricas referenciadas ao longo deste romance, e não sou poucas, relacionam-se com a condição do conquistador, caçador e vingativo, ou daquele que sofre condenado injustamente por causa do seu amor correspondido. Mencionamos o enredo histórico do conde Gregório Taumaturgo de Castelo Branco apresentado no romance de Fernando Campos O Prisioneiro da Torre Velha, sobre Dona Brázia de Vilhena, casada com o seu tio, Taumaturgo, um criminoso em série, que mata as suas esposas (pp. 107–111) e planeja igualmente a punição de Dom Francisco “condenado pela vingança do marido traído e pelos ciúmes do rei” [D. João IV] (p. 110), também amante da condessa Dona Mariana, a terceira esposa do Taumaturgo. Dom Francisco, o poeta apaixonado, perdeu todos os seus bens ficando preso dos 33 aos 45 anos (p. 111).
O lado inédito deste romance de 324 páginas estruturado em 34 capítulos é a anulação do limite entre a ficção e a realidade conhecida hoje pelos leitores. A autora oferece-nos uma sobreposição das personagens com pessoas reais referenciadas entre as quais se conta a própria autora (p. 154). Os nossos conhecidos e reconhecidos encontrados no romance, com os seus nomes, maneira de ser e estar, seus horizontes culturais e afetivos preenchem de vida os lugares e instituições como APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), a Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa manuelina, Cidade Universitária, Alfama, Jardim Constantino, Saldanha, Avenida da Liberdade, Chiado, Tavira com as suas duas Associações ativas e maior renome no estrangeiro do que em Portugal: a Associação Internacional de Paremiologia e o Núcleo de Amigos Fotógrafos do Algarve (cf. o capítulo Na Veneza Algarvia, pp. 147–162). De norte a sul todo o Portugal está presente neste romance, como um pódio histórico-cultural digno para a mulher que saiu do mito e se incorporou na atual intelectual que vence Don Juan, sem sair do espaço cultural ibérico onde Portugal está carregado de memórias dos atos históricos sedimentados durante séculos. As personagens vivenciam sonhos materializados numa história mantida viva pelos intelectuais deste país que atualizam o passado e também, por sua vez, se sedimentam na história, ficando vivos no imaginário inalterável do romance. A entrada das pessoas ainda em vida no romance anula o valor estático da eternidade expressa nas lápides dos túmulos e por isso, para além de qualquer amizade, têm que mostrar os seus reconhecimentos para continuarem a presenciar no romance a sua vida normal afetiva e intelectual, longe de qualquer exemplaridade. Como intelectuais são os intérpretes que chamam à vida tantas e tantas histórias e obras e, falando sobre a genialidade dos outros, revelam o seu próprio valor.
Consideramos não muito certa a questão: “Quem é a mulher que venceu Don Juan?” Porque neste romance cada mulher conhecedora deste mito vence Don Juan, inclusivamente a Filomena que “tinha aparecido morta com um golpe fundo na garganta e o bandido foi entregar-se todo lampeiro e cumpridor das leis” (p. 45). Esta interpretação contravém à intenção da autora de criar um romance na linha de arte com tendência, para promover e apoiar a luta contra a violência doméstica e de qualquer outro tipo. Não seguimos igualmente a linha do complexo de Estocolmo, que defende o agressor culpando a vítima. Como Filomena venceu Don Juan uma vez que o bandido a matou? Não suportando mais a sua vida doméstica, o tratamento inumano, fugiu de casa e pediu ajuda à APAV, viveu com outras colegas do mesmo sofrimento na casa de férias da Dr.ª Lúcia no Monte da Caparica, lugar de onde desapareceu em circunstâncias desconhecidas que levantam várias suposições, o certo é que a caça foi ao reencontro com o caçador. Ela venceu Don Juan, o homem que amava, sempre presente no seu coração, confessando ao agressor o seu grande amor pela vida e pelo homem dos seus sonhos que sempre irá amar, a verdadeira imagem do seu amante, a única que lhe deu razão para viver. Filomena venceu Don Juan porque o bandido entendeu que nunca iria chegar à nobreza da sua pobre mulher, ele não é e nunca vai ser Don Juan e por isso a besta ofereceu-lhe a oportunidade de ela própria vencer Don Juan através da morte, abraçando-o eternamente, como no quadro O Beijo de Gustav Klimt.
A personagem principal, Sara Fróis, a princesa à procura do seu reinado, vence duas vezes o Don Juan à sua maneira: através do coração de criança e o horizonte juvenil de virgem, Sara vence Don Juan que era Amaro, seu marido com dupla personalidade a quem foi entregue pelos seus pais e, como Esmeralda, conquista com o seu coração e horizonte de mulher delicada e culta o académico Luís, comentador imaginativo de Don Juan. Assistimos à redação do diário de Sara escrito num estado místico de alma, no qual entrelaça a alegria, a inocência pueril e o exuberante desejo juvenil com a sua sede de conhecimentos numa formação académica interdita na juventude pelo seu marido, a sua sensibilidade, cultura e horizonte de autodidata que falava fluentemente várias línguas, escrevia chicoteada pelas lembranças de tantas traições, da parte dos seus pais, do marido e criadas, restando-lhe apenas fieis o seu motorista Joaquim que lhe salvou a vida após o aborto provocado por Amaro (pp. 16–18), o comissário Paulo que investigou o seu caso de violência doméstica, a Dr.ª Lúcia e todos aqueles que se solidarizaram com o seu sofrimento. Abraça-a inconscientemente o calor vindo da parte de Luís, o homem que mais respeitava, vivendo juntos o desejo da união e amor sempre sonhados. Encontra alívio e calma na sua escrita oferecida ao seu único leitor-confessor, Luís, estratagema libertador do seu íntimo,
A Dr.ª Lúcia vence os seus Don Juans e o número de várias configurações afetivas e imaginativas de Don Juan das suas pacientes protegidas pela APAV. Domina e interpreta com a sua sobrinha Manuela o horizonte cultural desta constante intelectual e paradigma humano, incentivando Manuela a estudar esta face da realidade humana.
Indo mais além das referências comparatistas literárias com Werther “Werther é interioridade, Don Juan é exterioridade, Werther é haute couture, Don Juan é pronto-a-despir, Werther é gourmet, Don Juan é fast food” (p. 73), ou a sua representação decrépita na qual “a velhice é o verdadeiro castigo de Don Juan quando as armas da sedução começam a falhar” (pp. 233–234) com referência à peça La mort qui fait le trottoir de Montherlant, nas conversas com a sua tia Dr.ª Lúcia sobre a condição do sedutor, a vestal Manuela vence Don Juan especializando-se no estudo deste tema, evoca o lado mítico resumido por Kierkegaard em três palavras: “fruição, dúvida e desespero” e “aquelas três palavras correspondem a três figuras: Don Juan, Fausto e Ahasverus” (p.144) no sentido que “estas três figuras não constituem somente tipos históricos, são tipos humanos que se encontram igualmente nos dias de hoje” (ibidem). Liga Don Juan à condição do Sísifo: “É assim que vejo as conquistas de Don Juan. Uma auto condenação a subir e deixar cair a pedra. Continuamente.” (ibidem, p. 238). Abordando a complexidade da sedução, a mesma pesquisadora relaciona-a com o “complexo de Édipo”: “No donjuanismo existe frequentemente um complexo de Édipo, não resolvido. A volubilidade indicia imaturidade afetiva, medo de assumir compromissos próprios da adultícia, somada à ausência de culpa e de remorso” (p. 233). Não faltam as referências à obra de Rougement, Les Mythes de L’Amour onde se insiste no “déficit identitário de Don Juan” (p. 234), de onde surge o seu relacionamento com o mito de Narciso: “Não sente afeto por ninguém a não ser por si mesmo. Sendo que o afeto pelo outro define a identidade, Don Juan-Narciso é uma máscara ambulante, um lugar vazio” (p. 234), este aspeto visa a atividade intelectual que abstrai a pessoa, projetando-a no mundo interior da leitura, imaginação, reflexão, e por isso Don Juan é o intelectual que exige da sua parte e dos outros o absoluto, a perfeição, desejo que alimenta o seu contínuo descontentamento. Não falta a referência à metamorfose que transforma o amador na pessoa amada: “A ninfa a que se alude é Cénis, transformada por Posídon em Ceneu, o homem por quem ela se tinha apaixonado. Este desejo expresso pelo sedutor de transformar a amadora no amado, em processo fusional de assimilação e de transferência do género, é bem significativo do recôndito ninguém fuma um cigarro duas vezes” (p. 238). Deste modo, fecha-se o círculo, Don Juan ultrapassando a limitação do género como esclarece Lúcia: “quem disse que o donjuanismo é exclusivo dos homens? Não, Luís, somos todos iguais, homens ou mulheres, para o bem e para o mal” (pp. 73–74).
A leitura deste romance cativa, informa e educa-nos, oferecendo-nos referências bibliográficas de mais de 45 títulos, sem esquecer várias edições originais e traduções da obra de Sørel Kierkegaard; no seu todo, o romance constitui-se como uma pleitearia argumentada e bem imaginada para a causa nobre de provar que as mulheres são Don Juan e incentivando-as a serem sempre aquelas que o vencem, nunca desistindo de lutar na defesa dos seus valores e dignidade, promovendo a igualdade do ser humano, bem como cultivando a nobreza do ser. Como numa verdadeira digressão pelo país, são referenciados nomes de restaurantes e cafés que podemos hoje encontrar e frequentar para nossa grande satisfação como: o Restaurante Olivier da Rua do Alecrim em Lisboa, (p. 15), Restaurante Cave Real, na Avenida 5 de Outubro, (p. 65), O Casarão de Tavira (p. 152), o Café Venezade Tavira (p. 161), o Solar dos Presuntos, (p. 173), o Serra da Estrela no Atrium Saldanha em Lisboa, (p. 173), o Café Majestic do Porto (p. 206) e tantos outros, cada um com a sua caraterística ambiental e paladares próprios, inesquecíveis.
Terminada a leitura, ficamos convencidos que a própria autora Teresa Martins Marques venceu Don Juan da melhor forma possível, como testemunham as personagens que decifraram a mensagem e perceberam perfeitamente o que têm de fazer, e nós todos, sendo para muitos e muitas um incentivo de mudança de vida.


Simion Doru Cristea nasceu em Bistrița, Roménia a 15.04.1965. Licenciado pela Faculdade de Filologia da Universidade Babeș-Bolyai de Cluj-Napoca,  Roménia, Curso de cinematografia, Cluj-Napoca, Alta Escola de Pós-Graduação de Filologia e História na mesma Universidade, o primeiro doutoramento em Filologia (Linguística Geral) Faculdade de Letras da Universidade “Babeș-Bolyai” de Cluj-Napoca (2001), o segundo doutoramento em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (2011). Membro do CLEPUL-FLUL, da Associação Internacional de Paremiologia AIP/IAP, da APT, professor no Instituto Cultural Romeno de Lisboa. As áreas da sua atividade cultural: folclore, linguística, literatura, artes, paremiologia, religião, história, psicologia da educação e filosofia. Participou em vários Colóquios Internacionais em Portugal e no estrangeiro. Publicou diferentes artigos em revistas, livros coletivos e livros: Manifestul elevului de nota 10 [O manifesto do aluno de nota 20], Casa de Editură Dokia, 2001, Funcția symbolic-mitică în textul religios [A função simbólico-mítica no texto religioso], Cluj-Napoca, GEDO Publishing House, 2005; Navegando no mar que nos navega: abordagens à obra Mar me quer de Mia Couto Lisboa, 2005 (co-autor), O homem ser falante, Lisboa, Pearlbooks, 2013; Să trăiți, Domule Președinte, romance, Cluj-Napoca, Casa de Editură Dokia, 2014, traduzido para Português: Viva, Senhor Presidente, Lisboa, Fólio Exemplar, 2017. Traduziu com Maria João Coutinho para língua romena: Edward Zellem, Afgan Proverbs Illustrated in Romanian and Dari Persian. Proverbe afgane illustrate, Cultures Direct LLC of USA, 2013. [Provérbios afegãos ilustrados]. Padre António Vieira, Opere alese [Obras seletas], Vitório Káli, Tupáriz și Șerpii Cerului [Tupáriz e as Serpentes do Céu], Ernesto Rodrigues, O fericire perfectă  [Uma felicidade perfeita], Iași, Editora Timpul, 2017. Realizador de vários filmes, dois apresentados no FESTin Lisboa, Salvador da Bahía e Guiné Bissau: Sem anos de solidão, 2012, Fraternuras, 2014.


04/12/2015

O Livro A Mulher que venceu Don Juan é de leitura obrigatória



A Mulher que venceu Don Juan, Teresa Martins Marques  
O Livro A Mulher que venceu Don Juan é de leitura obrigatória para a 10ª edição do Concurso Nacional de Leitura 2015/2016.

22/10/2015

DON JUAN AUX ENFERS - Charles BAUDELAIRE (1821-1867)


DON JUAN AUX ENFERS
Quand Don Juan descendit vers l'onde souterraine
Et lorsqu'il eut donné son obole à Charon,
Un sombre mendiant, l'oeil fier comme Antisthène,
D'un bras vengeur et fort saisit chaque aviron.
Montrant leurs seins pendants et leurs robes ouvertes,
Des femmes se tordaient sous le noir firmament,
Et, comme un grand troupeau de victimes offertes,
Derrière lui traînaient un long mugissement.
Sganarelle en riant lui réclamait ses gages,
Tandis que Don Luis avec un doigt tremblant
Montrait à tous les morts errant sur les rivages
Le fils audacieux qui railla son front blanc.
Frissonnant sous son deuil, la chaste et maigre Elvire,
Près de l'époux perfide et qui fut son amant,
Semblait lui réclamer un suprême sourire
Où brillât la douceur de son premier serment.
Tout droit dans son armure, un grand homme de pierre
Se tenait à la barre et coupait le flot noir,
Mais le calme héros, courbé sur sa rapière,
Regardait le sillage et ne daignait rien voir.
Charles BAUDELAIRE (1821-1867)
Les Fleurs du Mal, XV

06/08/2015

"A Mulher que Venceu Don Juan" no Plano Nacional de Leitura para o Ensino Secundário

"A Mulher que Venceu Don Juan", de Teresa Martins Marques, está na lista de livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura para o Ensino Secundário! Esta é uma obra de ficção que aborda temas muito pertinentes da vida actual, de que se destaca a violência nas relações. A prevenção é o melhor remédio, por isso, num país em que se estima que uma em cada três mulheres tenha sido ou seja vítima de violência doméstica, é urgente alertar os nossos jovens.

http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/escolas/uploads/livros/58_todas_as_listas_2014%283%29.pdf

05/08/2015

María José Rodríguez Figueíras e a A Mulher que Venceu Don Juan

A Mulher que Venceu Don Juan chegou às minhas mãos num sábado às 10 h da manhã, quando o abri pela primeira vez, e terminei as 326 páginas às 10 e meia da noite (tinha conhecimento de que havia sido publicado numa rede social e dado o seu êxito, a autora havia decidido convertê-lo num livro dando-lhe forma e desenvolvendo a trama).
Sinceramente esta história cativou-me, pela sensibilidade da autora, que soube tratar maravilhosamente um problema que afecta muitas mulheres e homens que na intimidade sofrem de violência doméstica, e de que até há pouco tempo nem se mencionava. Ou se pedia ajuda à família, respondiam que era o seu marido, disso não se fala, alguma coisa fizeste para merecer isso, etc. O tema é tão grave que se reclamou das Nações Unidas para que preste mais atenção a estes abusos no âmbito privado já que causam mais mortes que as guerras, e que custam segundo os especialistas mais de 6 191 milhões de euros por ano.
Desgraçadamente em Espanha já levamos 40 mortes nestes 11 meses, mulheres que são maltratadas física e psicologicamente (também há homens, detalhe que não quero esquecer.), nem tão pouco a essas mulheres que silenciosamente e por vergonha as sofrem no silencio das suas casas, e que seguramente entre as presentes haverá mais do que uma.
Este livro é especial por vários motivos, primeiro por retratar a violência num caso que ocorre numa classe social alta, quando estamos habituados a que cheguem aos nossos ouvidos casos como estes de famílias desestruturadas, e este tipo de comportamentos não tem classes, ocorre em todos os extractos da sociedade.
E segundo, por fazer um detalhe pormenorizado e detalhado do papel de D. Juan, com referências a textos da literatura espanhola, francesa, dinamarquesa, Kierkegaard, por exemplo… Senão porque paralelamente, a escritora Maria Teresa Martins Marques dá uma explicação teórica do comportamento destes sociopatas, da parte da responsabilidade que têm os pais, de educar os filhos colocando-os no centro da atenção dos seus progenitores, convertendo-os em absolutos egocêntricos que simplesmente não sabem dar nem conhecem o significado da palavra amar, assim como o mal que causam à sua volta, até em mulheres e homens com capacidade intelectual elevada que são subjugados emocionalmente devido à sua baixa auto-estima.
A autora faz deste trabalho algo vivo que cativa, onde se mistura a realidade mais absoluta, o sofrimento com a ironia e o sentido de humor que prende e não deixa abandoná-lo, na expectativa de conhecer na página seguinte o que acontece à protagonista, Sara, que teve a desgraça de se cruzar na sua vida com um depradador emocional? Um Don Juan, que abundam na nossa sociedade sobretudo em profissões liberais, médicos, políticos, advogados, etc. Uma trama de diferentes personagens implicadas entre si sem conhecer o motivo e que na trama final descobrem-se as suas entrelaçadas implicações. 
Recomendo encarecidamente a leitura deste grande livro, A Mulher que Venceu Don Juan, que estou convencida que não só será um êxito para a sua autora, Maria Teresa Martins Marques, senão também para a Âncora Editora, que teve a sensibilidade de dar-se conta do valor que estas páginas encerram.

María José Rodríguez Figueíras

20/06/2015

Vítor Matos e "A Mulher que Venceu Don Juan"


Tive o gosto de conhecer a autora numa viagem de trabalho e após a nossa primeira conversa achei que era uma pessoa com o dom da palavra, logo imaginei que a sua escrita seria interessantíssima.
 Com a minha colaboração no blogue comecei a ler os comentários e claro  decidi ler o romance.
Qual o meu espanto ao sentir me com vontade de “devorar” página atrás de página. O envolvimento das personagens e o decorrer da história é alternado com muito conhecimento literário e assuntos para mim desconhecidos, motivo pelo qual fico ainda mais agradado por ter absorvido todo este conhecimento e ter ficado com vontade de aprofundar várias temáticas abordadas.
Em suma, foi um livro que além de conter uma história extraordinária, bem construída e desenvolvida, com um final com o qual eu já contava, mas que nem por segundos imaginei que o desfecho fosse feito por parte de quem o fez...
Espero ainda que muitas “Saras” leiam este romance e se libertem dos seus “Amaros” pois não precisamos de tais histórias, infelizmente reais, na nossa sociedade.
Foi um livro que me despertou ainda mais para o mundo literário e me abriu a mente para um novo projecto que me breve revelarei, pelo que só tenho de agradecer à autora por tal feito.

Um beijo,
Vítor

Vítor Matos, técnico de informática, formador e fotógrafo, é colaborador do blogue Farrapos de Memória (de Leonel Brito), tem vários trabalhos fotográficos publicados em jornais regionais, participou como fotógrafo nos documentários: "Ernesto Rodrigues - 40 anos de Vida Literária", "Freixo de Espada à Cinta - à vista de pássaro", Arquivo de Memória Oral das Minas da Borralha, Arquivo de Memória Oral de Freixo de Espada à Cinta e no filme "Do Roboredo ao Sabor", de Leonel Brito. Participou na exposição fotográfica intitulada "Alentejo", realizada em Elvas em Maio de 2015.

Giorgio de Marchis e "A mulher que venceu Don Juan"

Cara Teresa,
Acabo de ler A mulher que venceu Don Juan. Devido aos mil afazares no Departamento., demorei um pouco mais do que esperava para começar a leitura. Mas uma vez começada a leitura do romance, li sem parar e devorei o livro em poucos dias. O seu romance tem vigor, ritmo, mistério, denúncia social e encara questões sérias com seriedade, oferecendo ao leitor pérolas de humor e sabedoria (eu aprendi muito sobre muitas coisas que desconhecia em Portugal). Enfim, o seu romance é mesmo seu porque há nele tudo o que eu aprecio na sua autora.
Além disso, foi um prazer ver tantos amigos e conhecidos transformados em personagens romanescas. O seu, o nosso!, Prof. Ernesto Rodrigues aparece várias vezes e é sempre um gosto deparar-se nele, tanto na vida real como num romance.
Agora, esse doutor Amaro acho que entra de direito entre os malvados da literatura portuguesa. Aliás, o seu romance poderia chamar-se também Os Crimes do Doutor Amaro e acho que o Eça não ficava ofendido com isso.
Agora, aguardo o seguinte romance e, por enquanto, mando-lhe desde Roma o meu “grazie” pelas horas de deleitosa leitura que me ofereceu.
Um abraço amigo do seu leitor,
Giorgio 


Giorgio de Marchis é professor associado de Literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Roma III. No âmbito das suas investigações, tem estudado o primeiro e o segundo Modernismo português, organizando edições crítico-genéticas de obras de Mário de Sá-Carneiro (O silêncio do dândi e a morte da esfinge. Edição crítico-genética de «Dispersão», Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2007) e de José Régio. Além de se interessar pelo romance português e brasileiro dos séculos XIX e XX, nos últimos anos tem estudado vários aspectos da literatura popular em Portugal (E… Quem é o autor desse crime? Il romanzo d’appendice in Portogallo dall’Ultimatum alla Repubblica (1890-1910), Milano, LED, 2009).

01/02/2015

"A Mulher que Venceu Don Juan," traduzido para húngaro, por Hargitai Evelin Gabriella

A nő, aki legyőzte Don Juan-t
1
La donna è mobile

Honvágyat csak a tenger iránt érzek. A Foz -nál elém táruló látvány hiányzik. Bár azt mondják, az Atlanti-óceán mindenütt egyforma, ezt, amit itt, Monte da Caparica -nál látok az ablakomból, nem érzem sajátomnak. Foz más volt.
Evelin Gabriella HARGITAI
Foz más volt; az új házból szemlélve, ahol az utolsó évben az életemet a boltról boltra rohanás töltötte ki: megkeresni a tökéletes műtárgyat a tökéletes helyre. Bármennyit is szaladtam, bármennyit is fáradtam vele, soha nem találtam olyat, ami elnyerte volna Amaro tetszését. Szép volt, csakhogy... Ő ellenben tudott választani. Vagy azt gondolta, hogy tud. Soha semmi nem volt tökéletes, az ő precíz kezei alól kikerülő plasztikai sebészi munka kivételével.
Mindig is a részletek okoztak nekem örömet, talán így menekülök el a lényeg elől, ami igazából felzaklat engem. Mindig szükségem volt arra, hogy valamivel eltereljem a figyelmemet, mert attól megkönnyebbülök. Most a balkonnövényeimre gondolok, amelyek kiszáradtak, elfonnyadtak, mert már nem beszélgetek velük. Hiányzik a veranda. Ellenben a tágas ház, ahol szinte elvesztem, nem. Fehér volt és steril. Meg kell halni, olyan szép, ahogyan Becas mondta, meghalni, mondtam én, lassú halállal, ha nincs remény új életet kezdeni. Persze, nem érthetett engem. Én pedig nem tudtam megértetni magam.
A foz-i új házzal kapcsolatban az én véleményem nem számított. Az én létem is olyan volt, akár egy műtárgyé. Szótlanul, díszként szolgáltam Amaro életében. Nem tudom, mire voltam jó, hacsak nem arra, hogy aláírjak.
– Holnap 11 órára legyen készen. El kell menni a közjegyzőhöz, aláírni az új lakás papírjait.
Homályosan már beszélt valamit egy épületről a Gomes da Costa Marsall sugárúton, ami, noha egy időre felfüggesztették az építkezést, végül elkészült. Az én családi örökségemből vette meg, de még csak nem is hívott el magával a bemutató szint bejárására. Kész tények elé állított. Erről nem beszélhetek senkinek. Ha beszélnék, senki nem hinne nekem. Vagy még nagyobb bolondnak néznének, mint amilyen egyébként voltam. Ezért írom inkább ezt a Naplót, ami nem kérdez, és nem bírál felül. Elég a cenzúra, amit magammal szemben alkalmazok, mert ma már tudom, hogy az én hibám is volt, nagyon is, mert gyenge voltam. Vakká tett a szerelem.
Honnan is tudhattam volna én, a tizenhat éves kamasz, hogy ez az Adonisz, aki filmbe illő módon toppant elém a granja-i parton, egyszer démonná fog változni. Pedig nyilvánvaló volt. Egy túlzottan jólnevelt, túlzottan hidegfejű, túlzottan visszafogott férfi, túlzottan sok kezitcsókolommal, nem megbízható. A normális emberek nem túlságosan ilyenek vagy olyanok. A túlzott tökéletesség még Odüsszeusznak sem kellett, ott is hagyta sírva Kalüpszót Ogügié szigetén. Pénelopé türelmes volt, ezzel jobban szolgálta az érdekeit. Az én odüsszeiám más fonalból, más szemekből szövődött, amiben sem istenek, se hősök nem őrködtek felettem.

Teresa Martins Marques e Ernesto Rodrigues entrevistados pela Rádio Brigantia

Ernesto Rodrigues. Teresa Martins Marques e José Eduardo Franco,
nas comemorações dos 40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues


23/01/2015

A MULHER QUE VENCEU DON JUAN: UM MODO CATIVANTE DE "CONTAR" ,por Urbano Bettencourt

.A MULHER QUE VENCEU DON JUAN: UM MODO CATIVANTE DE "CONTAR"
Teresa,
Tenho-a visto aqui pelo FB e sempre que a vejo lembro-me que nunca lhe disse nada sobre o seu livro, que li e de que gostei muito, pelas questões suscitadas, pela história e pelo modo «cativante» de a contar (isto é, prendendo a atenção do leitor). É por isso tudo um livro duro, não piegas nem demagógico.
São apenas algumas observações que me surgem agora, já à distância da leitura que fiz e de que lhe devia ter dado conta, com mais pormenor, na altura apropriada, mas que «as minhas circunstâncias» me impediram de fazer.

Urbano Bettencourt
Professor de literatura, licenciado em Filologia Românica e doutorado em Estudos Portugueses. Tem centrado a sua investigação no estudo de  literaturas insulares,especialmente a açoriana e a cabo-verdiana; uma parte dessa investigação encontra-sereunida em quatro volumes de ensaios:  O Gosto das Palavras (3 vols: 1983,1995; 1999) e Ilhas conforme as circunstâncias (2003). Tem ainda publicada outra obra no domínio da narrativa e da lírica. 

03/01/2015

Casa Vermelha - «Pintura Manual. E. Canavarro e João F. Blane. Obra de Henrique Cardoso»

Seguiram a pé até à Rua Joaquim Bonifácio e pararam junto de um prédio vermelho, quase centenário, com varandins de pedra lioz e gradeamento verde-escuro. Na fachada, à direita da porta, um azulejo  com a data de construção − 1924. A vendedora abriu a pesada porta de ferro verde-escura. A entrada era espaçosa, com plantas ornamentais. Mas o que de imediato lhes chamou a atenção foi a inscrição num azulejo: «Pintura Manual. E. Canavarro e João F. Blane. Obra de Henrique Cardoso». A vendedora não perdeu a oportunidade de dizer que a escada do prédio fora recentemente  decorada e que os proprietários não tinham poupado esforços para preservar aquele prédio tradicional. 
– De facto – disse Sara − que olhava para os murais de azulejos representando o Palácio das Necessidades, a Sé e a Basílica da Estrela. Subiam devagar a escada encerada, de corrimão azul e branco a condizer com as portas antigas da mesma cor, e ficaram admirados com a exposição de quadros nas paredes, com motivos lisboetas, alternando com documentos encaixilhados relativos ao prédio: a biografia de Joaquim Bonifácio, que deu nome à rua, alvarás, licenças de construção, de habitação, escrituras do primitivo proprietário, intimações camarárias para manutenção, numa palavra, toda a história do edifício. No primeiro andar, o painel mostrava o Terreiro do Paço, no segundo, o Teatro Dona Maria, no terceiro, o Palácio de São Bento, no quarto, o Mosteiro dos Jerónimos, no quinto, a Praça de Touros do Campo Pequeno, a Ponte 25 de Abril, e, por último, o Aqueduto das Águas Livres. Era uma visita completa aos lugares canónicos da cidade.
Já no quinto andar, Sara reparou numa moldura que contava a história da quase morte do prédio – a tragédia ali ocorrida no dia 18 de Dezembro de 1987. O quadro relatava que de cima para baixo as varandas tinham começado a desabar e com elas arrastaram as cozinhas e as casas de jantar das traseiras. Tinha sido um verdadeiro pandemónio, relatado com todos os pormenores no Correio da Manhã.
– Quem vê o prédio, agora, não pode imaginar o passado.
– Pois não – remata Luís − e a vendedora concorda.
 A história deste prédio antigo duplicava a sua vida. Da derrocada  surgira uma nova estética. Dos escombros do passado reconstruía-se uma nova Sara.
Quando a vendedora lhes mostrou o apartamento do terceiro andar esquerdo já ela tinha decidido que gostaria de morar ali, mesmo que fosse apenas por pouco tempo, não sabendo ainda que rumo viria a ter a sua vida futura. O corredor comprido acabava na cozinha e depois numa varanda que dava para uma escada de ferro em caracol. Os quartos sucediam-se, como se a casa fosse um comboio e a ideia de viagem, de percurso com saída de emergência, fê-la identificar-se com o lugar. Em frente, um Templo Adventista. Na varanda, dois pombos debicavam migalhas. O sol de Julho entrava a jorros pelas janelas.
– O que acha, Luís?
– Deve estar-se bem aqui a ler ao fim da tarde – foi a resposta, com um sorriso.
– Ficamos com ela – e Luís sorriu, agradado deste plural.

In: "A Mulher que Venceu Don Juan" de Teresa Martins Marques

31/12/2014

Giovanni Ricciardi e "A Mulher que Venceu Don Juan"

Cara Teresa,

                     Acabei anteontem a leitura do teu... "romance",  "ensaio romanceado", folhetim à maneira dos Dumas, manual para a manutenção da mulher, tratado de psicologia, pro-memória para as mulheres de hoje,...? Um livro múltiplo, que se lê com prazer e interesse, imântico em muitas de suas páginas (será que existe o adjectivo imântico de imã?)
                    Apreciei a leveza dos diálogos, que muito me lembra o brasileiro Luís Vilela e as tuas curiosidades históricas . Não conheço Tavira e gostaria de lá ir.

Nota Biográfica

 Giovanni Ricciardi, prof. de literaturas portuguesa e brasileira, aposentado. Interessou-se pela sociologia da literatura, publicando em 1971, em Lisboa, Sociologia da literatura; 
em 1999, ainda em Lisboa,Soeiro Pereira Gomes, uma biografia literária e Biografia e criação literária;
entrevistas com 123 escritores brasileiros em sete volumes, 2008-2010.

A nivel didático organizou Antologia della letteratura portoghese, Napoli,1998  eScrittori brasiliani, Napoli, 2002.

28/12/2014

Conceição Pereira e " A Mulher que Venceu Don Juan"

Querida Teresa:

Antes de mais, venho agradecer o livro, que fui buscar dia 22 (por coincidência o dia do meu aniversário) e que já li. Acabei hoje de manhã. Já há muito tempo que não lia um livro tão depressa e com tanta vontade. Foi, por isso, uma bela prenda de anos.
Espero que não fiques por aqui. Acabada a biografia, será tempo de começar outro romance, ou contos, ou o que te apetecer. Sairá bem, de certeza.
Parabéns pelo romance e muito obrigada pelas horas de boa leitura proporcionadas.

Um grande beijinho e boas festas felizes para ti, para o Ernesto e para toda a família,

Conceição

Nota biográfica:
Conceição Pereira ensina Português no Ensino Secundário, é orientadora cooperante no Mestrado em Ensino do Português (FLUL), investigadora no CLEPUL-FLUL e formadora acreditada pelo CCPFC. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos Portugueses e Ingleses (1984) e além do mestrado (2000) e do doutoramento (2007) em Teoria da Literatura, na FLUL, concluiu uma especialização em Ciências da Educação (2008), na Universidade Aberta, e outra em Estudos Portugueses – Língua Estrangeira / Língua Segunda (2012), na FLUL. Publica regularmente ensaios sobre literatura, incluindo a infanto-juvenil, ensino da literatura e banda desenhada.


07/12/2014

Apresentação do livro "A Mulher que venceu Don Juan" - Primeiro Aniversário


Teresa Martins Marques from Leonel Brito on Vimeo.

Apresentação do livro "A Mulher que venceu Don Juan" de Teresa Martins Marques em Tavira,dia 8 de Fevereiro de 20014.

"A Mulher que Venceu Don Juan" inclui no entrecho ficcional três personagens de fundo donjuanesco. Amaro Fróis, cirurgião plástico, procura nas mulheres a vingança de um passado tenebroso; Manaças, serial lover, recalca uma pulsão proibida; Joana colecciona os namorados das amigas. Os três serão vencidos: o primeiro por uma mulher que subestimou; o segundo pelo verdadeiro objecto do desejo recalcado; a terceira por uma presidiária, cujo companheiro seduziu.A protagonista, Sara Dornelas, escapa à morte e encontra o amor, realizando, pelo estudo, um sonho antigo. Dois seres de eleição, a psicóloga Lúcia e Paulo, comissário da polícia, assumem um papel decisivo no desmantelamento de uma rede tentacular e no castigo dos criminosos, unidos por ignorados laços de sangue.Travejada por diálogos vivos, ora dramáticos ora humorísticos, a acção decorre em múltiplos lugares, potenciando o efeito de real pela intrusão de figuras verídicas que interagem com as personagens ficcionais.Entretanto, Manuela, jovem doutoranda, prima de Doña Juana, prepara em Copenhaga, e defende com sucesso, uma tese sobre o Diário do Sedutor, de Kierkegaard, duplicando, no plano teórico, os meandros do desejo, no plano da acção, e gerando uma atmosfera de suspense até ao último fio da intriga romanesca.

25/11/2014

Especialmente para os LEITORES de A MULHER QUE VENCEU DON JUAN

A minha Amiga, cuja história terrível me inspirou para escrever o romance A MULHER QUE VENCEU DON JUAN, conseguiu finalmente o divórcio, ontem, depois de muito sofrimento, porque os Amaros deste mundo são o que bem sabemos!

A Sara está agora muito feliz com o seu Luís (um leitor do meu romance) e ambos me chamam madrinha, porque me dizem que foi o meu romance que os aproximou.
Acreditem que isto que vos conto não é ficção!



Fonte: https://www.facebook.com/teresa.martinsmarques?ref=ts&fref=ts

07/11/2014

“A Mulher que Venceu Don Juan” - um romance clássico e moderno, por José Correia Tavares

“A Mulher que Venceu Don Juan”, primeiro romance da autora, é um livro surpreendente e raro, pois, não perdendo de vista referências clássicas nacionais, como Camilo, nele se cruzam, nunca deixando de ser original, e com assinalável mestria, algumas das linhas dominantes da moderna ficção narrativa.
José Correia Tavares.
(Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores)

José Correia Tavares – Nota biobibliográfica

Nasceu em Castelo Branco, em 1938. Licenciado em Ciências Antropológicas e Etnológicas, é técnico superior principal aposentado do Ministério da Educação e vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Revelado, como poeta, num concurso literário, em 1957, e distinguido com outros prémios, publicou, desde 1961, vinte e um livros, reunindo, em O Timbre das Vozes (2001), todas as entrevistas que realizou. Foi tradutor e revisor, desenvolvendo, ainda jovem, apreciável actividade jornalística, literária e artística, nomeadamente enquanto caricaturista, coordenando, então e mais tarde, suplementos e outras publicações culturais de prestígio nacional. Tem colaboração dispersa por numerosos jornais e revistas e está representado em vinte e sete antologias poéticas e diversos estudos ensaísticos e colectâneas. Dezenas de poemas seus foram musicados, para edições áudio. Com destacado papel na divulgação do Livro Português, de 1966 a 1983, integra, regularmente, júris de importantes prémios literários, sendo responsável pela organização dos Grandes Prémios de Romance e Novela e de Literatura Biográfica da APE, bem assim dos Prémios Revelação. Em 1993, foi um dos quatro membros da Comissão de Selecção das Obras Candidatas ao Prémio Literário Europeu, nas áreas da poesia, da ficção e do ensaio.

03/11/2014

PLANO NACIONAL DE LEITURA - "A MULHER QUE VENCEU DON JUAN"


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"A MULHER QUE VENCEU DON JUAN" - De Vrouw Die Don Juan Versloeg, por Maria Van der Bent

A MULHER QUE VENCEU DON JUAN
De Vrouw Die Don Juan Versloeg

Ter nagedachtenis aan mijn ouders
LA DONNA È MOBILE
Heimwee heb ik alleen naar de zee. Naar het zeezicht van Foz. Hoezeer ik ook denk dat het dezelfde Atlantische Oceaan is, beleef ik deze hier, die ik uit het raam van Monte da Caparica zie, niet als de mijne. De Foz was iets anders.
De Foz was echt iets anders, zo bekeken vanuit dat nieuwe huis dat het afgelopen jaar mijn dagen vulde met winkelen op zoek naar de juiste siervoorwerpen voor de juiste plek. Hoeveel ik ook holde, hoezeer ik me ook uitsloofde, toch zou ik nooit iets vinden dat bij Amaro in de smaak zou vallen. Prachtig, maar ..... Híj kon wel goed kiezen. Of dacht dat ie dat kon. Nooit was er iets perfect, behalve het werk dat uit zijn precieze handen van de plastische chirurg kwam.
Ik heb altijd gevoel voor detail gehad, waarschijnlijk als een uitvlucht uit het wezenlijke, uit datgene wat me in werkelijkheid verontrust. Ik heb altijd een afleiding nodig gehad, een ieder verschaft zich zijn opluchting naar vermogen. Op dit moment denk ik aan de planten op m’n balcon, uitgedroogd, verschrompeld uit dorst naar mijn gesprekken met ze. Ik heb heimwee naar het balkon. Niet zozeer naar het grote huis, waar ik verdwaalde, wit en steriel, bloedmooi zoals Becas zei, bloedmooi zei ik, voor een langzame dood zonder hoop op verandering van leven. Zij kon dat niet begrijpen. Ik kon dat niet verduidelijken.
Synopsis:

“De Vrouw Die Don Juan Versloeg” bevat in het fictieve plot drie personages met een donjuanesk karakter. Amaro Fróis is een plastisch chirurg, die in vrouwen wraak zoekt op zijn duister verleden; Manaças, een serial lover, onderdrukt een verboden gedrevenheid; Joana verzamelt de mannen van haar vriendinnen. De drie zullen worden verslagen: de eerste door een vrouw die hij onderschatte; de tweede door het ware object van zijn onderdrukt verlangen; de derde door een gevangene, wiens partner zij verleidde. De hoofdpersoon, Sara Dornelas, ontsnapt aan de dood, vindt de ware liefde en vervult een oude droom door het volgen van een studie. Twee bijzondere personen, de psycholooge Lúcia en Paulo, een commissaris van politie, spelen een beslissende rol in de ontmanteling van een wijd vertakt crimineel netwerk en in de bestraffing van de misdadigers, die verenigd zijn door een niet bekende bloedverwantschap. Gedragen door levendige, soms dramatische, soms humoristische dialogen, vindt de actie op meerdere locaties plaats. Het realistische effect wordt versterkt door de introductie van echt bestaande personen, die met de fictieve personages een samenspel voeren. Ondertussen wordt in Kopenhagen door Manuela, een jonge doctoranda en nichtje van Doña Juana, een proefschrift over het “Dagboek van een Verleider” van Kierkegaard voorbereid, welke zij met succes verdedigt. Op deze wijze worden op het theoretisch vlak, de kronkels van het verlangen qua actieniveau verspiegeld en is een sfeer van suspense tot aan de laatste bladzijde van de roman gegarandeerd.

30/10/2014

“A Mulher Que Venceu Don Juan” - DIE FRAU, DIE DON JUAN BESIEGTE, por Ana Diogo

A Mulher Que Venceu Don Juan
DIE FRAU, DIE DON JUAN BESIEGTE

Im Andenken an meine Eltern

LA DONNA È MOBILE
Heimweh habe ich nur nach dem Meer. Nach dem Blick von der Foz1 auf das Meer. So sehr mir mein Verstand sagt, der Atlantik sei überall derselbe, empfinde ich den, den ich hier von meinem Fenster in Monte da Caparica2 aus sehe, als fremd. Die Foz war etwas anderes.
Die Foz war etwas anderes vom neuen Haus aus betrachtet, das im letzten Jahr meine Tage völlig mit Streifzügen durch Geschäfte ausgefüllt hat, auf der Suche nach genau dem richtigen Schmuckgegenstand für die passgenaue Nische. Egal, wie weit ich laufen und mich anstrengen würde, nie würde ich je durch meine Wahl Amaros Geschmack treffen. Wunderschön, aber ...  Er, und nur er allein wusste zu wählen. Oder jedenfalls glaubte er das. Nichts als das, was er durch die Präzisionsarbeit der Hände eines plastischen Chirurgen zustande brachte, galt als perfekt.
Seit je habe ich eine Vorliebe fürs Detail gehabt, vielleicht, um dem Wesentlichen zu entkommen, dem, was mich eigentlich beunruhigt. Ich habe schon immer Ablenkung gebraucht, jeder schafft sich auf seine Weise Erleichterung. In Moment denke ich an meine Balkonpflanzen, trocken, aus Mangel an meinen Gesprächen mit ihnen verdorrt. Ich vermisse den Balkon. Nicht unbedingt das große Haus, in dem ich mich verlor, steril und weiß, zum Sterben schön, wie Becas sagte, schön, darin zu sterben sagte ich, eines langsamen Todes, ohne Hoffnung auf Lebensveränderung. Sie konnte mich nicht verstehen. Ich konnte mich nicht verständlich ma­chen.

1Foz - Flussmündung des Douro in Porto
2Monte da Caparica – Klein­stadt in der Nähe von Lissabon

Synopse:
Im Roman Die Frau, die Don Juan besiegte dreht sich die Handlung um drei Personen, jede auf ihre Art ein Don Juan. Der plastische Chirurg Amaro Fróis versucht, sich an Frauen für seine dunkle Vergangenheit zu rächen; Manaças, ein Schürzenjäger (serial lover), verdrängt eine verbotene Leidenschaft; Joana sammelt die Liebhaber ihrer Freundinnen. Die drei werden besiegt: der erste von einer Frau, die er unterschätzt hat; der zweite durch das wahre Lustobjekt seiner Verdrängung; die dritte von einer Ge­fan­ge­nen, deren Gefährten sie einst verführte.
Die Hauptfigur Sara Dornelas entgeht dem Tod, findet Liebe, und erfüllt sich durch ein Studium einen lang gehegten Traum. Zwei ausgelesene Persönlichkeiten, die Psychologin Lucia und Polizeikommissar Paulo, spielen eine entscheidende Rolle beim Aufdecken eines weitläufigen Netzwerkes und bei der Bestrafung der Verbrecher, die durch eine ihnen nicht bekannte Blutsverwandtschaft verbunden sind.
Von lebendigen Dialogen getragen, manche dramatisch, manche humorvoll, findet die Handlung an diversen Orten statt. Das Auftreten von wirklichen Personen in Interaktion mit fiktionalen Charakteren verstärkt den Eindruck von Wirklichkeit. Schließlich ist da noch Manuela, eine junge Doktorandin und Doña Juanas Kusine, die in Kopenhagen eine Doktorarbeit über Kierkegaards Tagebuch des Verführers schreibt und erfolgreich verteidigt. Durch diese werden auf theoretischer Ebene die Verflechtungen von Liebesbedürfnissen in der Handlung verdoppelt und bis zur letzten Seite des Romans eine Atmosphäre voller Spannung geschaffen.