13/04/2014

“A mulher que venceu Don Juan”, no Jornal Audiência

No passado dia 13 de fevereiro, decorreu a apresentação do livro “A mulher que venceu Don Juan”, de Teresa Martins Marques, no Majestic Café, no Porto. Trata-se do primeiro romance – folhetim português publicado no Facebook. A obra retrata o drama da violência doméstica.
“A forma mais eficaz de vencer Don Juan é percebê-lo para assim não cair nos alçapões”, afirma em tom de conselho Teresa Martins Marques, a autora do livro “A mulher que venceu Don Juan”. O tema que a obra retrata é a violência doméstica e para chegar a esta tem que se analisar os bastidores do Don Juanismo que representa o colecionismo em série, um serial lover, uma espécie de serial killer dos afetos.

Fonte: http://www.jornalaudiencia.pt/index.php/cultura/2468-a-mulher-que-venceu-don-juan

Saída: A Mulher que Venceu Don Juan de Teresa Martins Marques

Sinopse:A Mulher que Venceu Don Juan de autoria de Teresa Martins Marques


A Mulher que Venceu Don Juan inclui no entrecho ficcional três personagens de fundo donjuanesco. Amaro Fróis, cirurgião plástico, procura nas mulheres a vingança de um passado tenebroso; Manaças, serial lover, recalca uma pulsão proibida; Joana colecciona os namorados das amigas. Os três serão vencidos: o primeiro por uma mulher que subestimou; o segundo pelo verdadeiro objecto do desejo recalcado; a terceira por uma presidiária, cujo companheiro seduziu. A protagonista, Sara Dornelas, escapa à morte e encontra o amor, realizando, pelo estudo, um sonho antigo. Dois seres de eleição, a psicóloga Lúcia e Paulo, comissário da polícia, assumem um papel decisivo no desmantelamento de uma rede tentacular e no castigo dos criminosos, unidos por ignorados laços de sangue. Travejada por diálogos vivos, ora dramáticos ora humorísticos, a acção decorre em múltiplos lugares, potenciando o efeito de real pela intrusão de figuras verídicas que interagem com as personagens ficcionais. Entretanto, Manuela, jovem doutoranda, prima de Doña Juana, prepara em Copenhaga, e defende com sucesso, uma tese sobre o Diário do Sedutor de Kierkegaard, duplicando, no plano teórico, os meandros do desejo, no plano da acção, e gerando uma atmosfera de suspense até ao último fio da intriga romanesca.

Autor: Teresa Martins Marques
Editor: Âncora Editora (Dezembro, 2013)
Género: Romance
Páginas: 328

Referência Bibliográfica - Texto de divulgação de lançamento
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Sobre a Autora Teresa Martins Marques



Ensaísta,crítica literária e investigadora integrada no Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de Lisboa onde se licenciou em Filologia Românica (1975), obteve o mestrado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea (1992) e  doutoramento em Literatura e Cultura Portuguesas na Universidade de Lisboa.

Teve a seu cargo a direcção da organização do Acervo literário de David Mourão- Ferreira, na Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1997 e 2004. Autor tema da sua tese de doutoramento na Universidade de Lisboa.
Teresa Martins Marques,uma das mais fecundas ensaístas da literatura portuguesa contemporânea,por sua competente crítica literária. É muitíssimo respeitada e admirada no Mundo das Letras por sua brilhante produção literária,pela seriedade e dedicação do trabalho de investigação,por seu profissionalismo realizado ao longo de sua carreira, ou melhor, da sua vida.

por: Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer

Fonte: http://www.rtp.pt/icmblogs/rtp/comunidades/?k=Saida-A-Mulher-que-Venceu-Don-Juan-de---------------Teresa-Martins-Marques.rtp&post=46268

Carta da Roménia - do Poeta António Ferro


A MULHER QUE VENCEU DON JUAN
Romance
Autora: Teresa Martins Marques
Âncora Editora
Lisboa, 2013


Capítulo 1

LA DONNA È MOBILE


Saudades, só tenho do mar. Da vista do mar da Foz. Por mais que pense que o Atlântico é o mesmo, este que vejo aqui da janela do Monte da Caparica não o sinto como meu. A Foz era outra coisa.
A Foz era outra coisa, vista daquela casa nova, que no último ano me preencheu os dias a correr lojas à procura do bibelot exacto para o ângulo exacto. Por mais que corresse, por mais que me esfalfasse, nunca encontraria nada que ficasse ao gosto do Amaro. Lindo, mas… Ele, sim, sabia escolher. Ou achava que sabia. Nunca nada era perfeito, a não ser o trabalho que lhe saía das mãos exactas de cirurgião plástico.
Sempre tive o gosto do pormenor, talvez como fuga ao essencial, ao que na verdade me perturba. Sempre precisei de um derivativo, cada um constrói o alívio como pode. Neste momento, penso nas plantas da minha varanda, secas, mirradas da falta das minhas conversas com elas. Tenho saudades da varanda. Não propriamente da casa larga, onde me perdia, branca e asséptica, linda de morrer, como dizia a Becas, linda de morrer, dizia eu, de morte lenta, sem esperança de mudar de vida. Ela não podia entender-me. Eu não podia explicar-me.
Para a casa nova da Foz não fui ouvida nem achada. A minha existência era a mesma de um bibelot. Servia para enfeitar a vida dele, sem voz activa, fosse para o que fosse, a não ser para as assinaturas. Um dia, o meu marido chegou a casa e ao jantar disparou:
−Amanhã, esteja pronta às onze horas, é preciso ir ao notário assinar a escritura do apartamento novo.
Tinha falado vagamente num edifício, na Avenida Marechal Gomes da Costa, que ficara embargado por um tempo, mas que finalmente tinha sido construído. Comprou-o com o dinheiro herdado da minha família, e nem sequer me pediu para o acompanhar na visita ao andar modelo. Apresentou o caso consumado. Não posso contar isto a ninguém. Se contasse, ninguém acreditaria. Ou então seria julgada ainda mais insensata do que na realidade fui. Por isso escrevo este Diário, que não me questiona nem censura. Já bem me basta a censura que a mim mesma faço, porque hoje sei que a culpa também foi minha, muito minha, por ter sido fraca. A paixão cegou-me.

Como havia eu de imaginar, nos meus dezassete anos adolescentes, que o Adónis, aparecido, como num filme de efeitos especiais, naquele Verão, na Praia da Granja, se transformaria num demónio? E, todavia, estava na cara. Homem demasiado educado, demasiado cerebral, demasiado contido, com demasiados salamaleques, não é de confiança. As pessoas normais não são demasiado coisa nenhuma. Perfeição a mais nem Ulisses a quis e deixou Calypso a chorar-lhe a partida em Ogígia. Penélope era paciente, serviria melhor os seus intentos. Outras teias, outras malhas em que também ela se enredou, mas a minha odisseia é de outra natureza, sem deuses nem heróis que me valham.
A mamã adorava o doutor-do-beija-mão. Sarinha, homem fino, educado como este, não conheço outro. Uma linda carreira de cirurgião plástico pela frente. Tu precisas de alguém que tome conta de ti, quando te faltarmos. Não foi preciso repeti-lo muitas vezes. O Amaro, nesse tempo, era o charme em pessoa e os olhos gulosos das minhas amigas confirmavam a versão da mamã. Supersticiosa, nunca pronunciava o verbo morrer, foi a primeira a dar entrada no Cemitério de São Dinis, em Vila Real, e lá está no jazigo da família, mesmo ao lado da Virgínia Rosa Teixeira, a célebre quiromante que ficou conhecida como Madame Brouillard, em cujo consultório da Rua Nova do Carmo, em Lisboa, uma ilustre clientela do tempo da monarquia a procurava, até mesmo o ministro João Franco, que ainda assim não conseguiu prever o assassinato de D. Carlos.
Logo após o funeral de meu pai, Amaro tomou conta de tudo. A Clínica estética era rendosa, porém, dizia, dinheiro não ocupa lugar e virava o provérbio da sabedoria em seu proveito. Sempre achei estranho que nunca me tivesse apresentado à família, que inculcava vagamente aristocrática. Os pais tinham problemas de saúde, assim dizia, não vieram ao casamento, viviam muito longe, em Buenos Aires. Ouvi-lhe tanta mentira ao longo dos anos, que esta será mais uma léria e, se ainda forem vivos, devem ter sido abandonados pelo seu rico menino.
Sempre achei estranho não querer ter filhos. Nunca me apresentou uma razão válida para os não ter. Nos primeiros anos não se colocava a questão, por eu ser muito nova. Chegada aos trinta, não tive dúvidas de que a razão deveria ser outra. Argumentava que eu era a montra da Clínica, que não podia estragar o físico. Ora essa! Todos os dias via actrizes e modelos lindíssimas a perderem quilos da gravidez da noite para o dia. Sim, o motivo só podia ser outro e até hoje não descortinei qual fosse.
− Sara, não se esqueça de tomar a pílula.
E ele quase a enfiava pela boca abaixo, vigiando rigorosamente o blister. Farta de o ouvir e de não o entender, quando a Isa ficou grávida do terceiro, fiquei cheia de pena de mim, e decidi que era a minha última oportunidade. Com quase quarenta e cinco anos, não seriam já pequenos os riscos. Desses, confesso, tinha receio, embora a Drª Raquel me tivesse garantido que eram mínimos. Não tentei antes, porque ainda tinha esperança de sair de casa, de ir viver com o Alberto, mas ele não quis ou não conseguiu decidir-se, sei lá eu as razões que levam as pessoas a adiarem em definitivo as escolhas difíceis.
Então, passou-me pela cabeça que ter a criança é que era importante e, mesmo que o pai fosse o Amaro, talvez me fizesse sublimar a perda do Alberto. Acho que foi isso que a Drª Lúcia disse. Engravidei para sublimar a perda. Sempre vigiada, decidi fingir tomar a pílula, deixá-la debaixo da língua e deitá-la fora depois. Tinha tomado um antibiótico havia pouco tempo e sempre seria uma desculpa de ela não ter surtido efeito. Perante o facto consumado, Amaro não teria alternativa. Fosse como fosse, não poderia esconder o segredo por muito tempo.
Numa sexta-feira, ao jantar, comunicou-me que iríamos passar o fim-de-semana a Lisboa. Tinha mandado reservar bilhetes para o São Carlos. Queria ouvir o Renato Bruson, no Rigoletto, o melhor barítono desde Tito Gobbi, dizia ele, que eu de ópera percebo pouco, mas interessam-me as histórias. Sempre tive muita pena de Gilda, pobre menina que morre apaixonada pelo Duque de Mântua, um patife mulherengo que, do alto da sua desfaçatez, exclama: “La donna è mobile… qual piuma al vento,… muta d’accento… e di pensiero…” Sim, eles vêem-se ao espelho do que pensam das mulheres, esses “cortigiani, vil razza dannata” As ingénuas como Gilda e como eu, bem poderíamos dizer: “È sempre misero … chi a lei s’affida…” Mas não dizemos, ou dizemos demasiado tarde.
Tinha de arranjar coragem para lhe contar que estava grávida. Pareceu-me que longe de casa seria mais fácil evitar uma cena operática. Foi tudo ao contrário.

Depois de sairmos do São Carlos, o Amaro informou que tínhamos mesa reservada no Olivier da Rua do Alecrim. Lembro os coxins azuis e rosa, atados atrás com rendas e fitas de seda, recriando um ambiente parisiense do século XVIII. Lembro as gaiolas douradas com vela dentro, cobertas de flores, que me pareceram a melhor imagem da minha vida. Lembro dois sóis negros na parede do fundo, o Amaro cruel e o Alberto desistente, no meio deles um terceiro foco luminoso, o meu filho.
Ele tinha escolhido um misto de cinco entradas amuse bouche. Eu bebia água, ele um Quinta do Mouro, Cabernet Sauvignon. Quando pediu um sorbet com vodka, arrisquei:
− Amaro, tenho de lhe dizer uma coisa.
Mal levantou a cabeça, e a colher continuou o seu caminho para a boca.
– Estou grávida.
A colher caiu de chofre na taça. Fez um olhar como o do Rigoletto, quando pronunciou a palavra “Maledizione !” Ficou por uns segundos calado e depois, sem o mais leve sinal de emoção:
– Vamos tratar disso amanhã.
– Tratar do quê?
– Da IVG.
– Mas eu não quero abortar.Quero ter este filho!
– Você faz o que eu lhe mandar fazer.
– Já é tarde para abortar.
– Quem decide isso sou eu. Conhece as regras do jogo há muito tempo.
Chamou o empregado, estendeu o cartão dourado, deu um principesco pourboire, pegou no telemóvel, ligou ao Joaquim para trazer o carro, e seguimos, sem dizer mais palavra, para o Pestana Palace, na Rua Jau. Também eu era serva, mas o meu amo estava longe de ser um Príncipe das Letras, ou de qualquer outra coisa. Entrou directamente no quarto dele, com porta de comunicação para o meu, e não disse palavra, nem sequer boa noite.
Durante a viagem de regresso ao Porto, dirigiu meia dúzia de frases ao Joaquim, comunicando-lhe os serviços da semana. Comigo, o mais profundo silêncio. O Joaquim espreitava, a medo, pelo retrovisor e via a minha cara de angústia, os olhos molhados. Viagem inesquecível, falava para dentro com o meu filho, logo que nascesse sairíamos de casa. Teria finalmente uma razão para viver. Na segunda-feira, ao pequeno-almoço, encontrei na mesa da sala de jantar um bilhete:
“Almoço marcado em casa do Dória, às 13 horas. Avisei o Joaquim para a levar à Clínica às 12 e 30 e saímos directamente de lá.”
Como um autómato, segui as instruções. Quando entrei no carro, o Joaquim não resistiu:
– Estou muito preocupado com a minha senhora. Está muito abatida, ontem vi que veio a chorar todo o caminho. Só quero que saiba que eu estou aqui, se precisar de ajuda. Seja para o que for. E acentuava para o que for. Não percebi nada. Nunca o Joaquim me tinha dirigido tantas palavras seguidas. Agradeci e disfarcei a lágrima indiscreta que queria estragar-me o rímel, pecado que Amaro jamais perdoaria à sua mulher-montra.
Chegámos ao Paradiso, a vivenda cor-de-rosa, agora Clínica, que conservava a cor do tempo da tia Eufrosina. No átrio, ao fundo da larga escadaria de madeira, lá estava a reprodução das «Três Graças» de Antonio Canova, por cujo original a tia se apaixonara ao vê-lo no 1º andar do Hermitage. O tio Lourenço, por sua vez, admirava o conjunto escultórico de Cupido e Psyché, revia-se no papel da alada criatura a dar um eterno beijo à menina, mas a tia Eufrosina, que não, que não gostava daquele pernilongo, com asas grandes de mais. Psyché não estava mal de todo, porém não se comparava à beleza das três Graças. Casadinhos de fresco, iam estrear a vivenda que tinham mandado construir na Foz. O tio, muito apaixonado, tudo fazia para agradar à sua deusa Eufrosina. Mal chegou ao Porto tratou de encontrar um escultor que lhe fizesse a reprodução de Aglaia, Tália e Eufrosina. Dizia ele que, não podendo casar com as três, escolhia a irmã melhor, e contentava-se a olhar para as outras duas. Colocara-as à entrada para lhe darem as boas-vindas. Uma sorte Amaro não ter embirrado com elas e não as ter mandado para o jardim ao relento. Ao contrário, parecia apreciá-las muito. Dizia que as mulheres saídas das suas mãos eram a viva cópia das Três Graças. Desgraça, ali, só mesmo a minha.


Entrámos no jardim, o Joaquim lançou-me um olhar preocupado e saí do carro. Estranhei que ele desse a volta em direcção à saída, afinal precisaríamos dele para ir a casa do Dória. Abri a porta do consultório. Vazio. Amaro que não devia estar longe, tinha deixado o computador ligado. Da janela via o jardim, a velha cameleira e eu a subir pelo tronco acima, a tia Eufrosina a ralhar, Sarinha desça já daí, antes que caia e parta uma perna, vai estragar as férias. Isso sim, é que era uma desgraça. Senti que alguém abria a porta, Amaro vinha acompanhado de uma mulher muito loira que nunca antes ali vira, alguma enfermeira nova, ele tinha o cuidado de renovar, com frequência, o stock de beldades da Clínica. Lembro a mão dela, ágil, na minha boca, um algodão, um trapo, não sei, um cheiro acre, um movimento oscilante, na parede um bicho da Paula Rego a mover-se dentro do quadro, um estranho vaivém de barco, mais nada.


Comecei a acordar. Um gosto amargo na boca. Estava numa sala estranha, talvez um laboratório, provetas, frascos, armários, tudo branco, muito branco. Eu ali deitada numa cama estreita, vestida com um albornoz. Na brancura do tecido uma estranha mancha acastanhada. Tentei levantar-me, sentia-me pregada à cama, inúteis, as pernas tremiam. Chamei, ninguém respondeu. Não sei quanto tempo depois, entrou uma mulher-girassol, devia ser a mesma que eu vira com Amaro, não podia jurar, a minha cabeça rodopiava, o laboratório rodava sem parar. Tirem-me daqui! E, de muito longe, ouvia a minha voz em eco, aqui, aqui…

− Acordou, vai dormir outra vez, é preciso dormir, dizia o girassol falante. Logo depois, pareceu-me ver o Amaro de seringa na mão, eu perguntava o que é que aconteceu, empurrei-lhe o braço, a seringa caiu. A mulher a segurar-me e eu a esbracejar. O meu marido deu a volta, afivelou dois pares de correias que apareceram de cada lado da cama. Senti uma picada no braço, as mãos presas, e mais nada. Quanto tempo estive ali, não sei. Também não sabia se era dia ou se era noite, a luz pálida não permitia distinguir. Lembro-me de ver uma aranha gigante a caminhar no tecto branco, ai que vai cair em cima de mim. Mais nada.

Devo ter dormido várias horas seguidas. Uma voz repetia baixinho − minha senhora −, abri a custo os olhos, era o Joaquim. O que estaria ali a fazer o Joaquim, santo Deus? Além de chauffeur era o guarda-nocturno da Clínica Paradiso. Dormia no pavilhão ao fundo do jardim, uma pequena construção que vinha ainda do tempo da tia Eufrosina e servia agora de armazém da Clínica.
− Minha senhora, não tenha medo, sou eu. E arrancava-me a agulha do soro do pulso. Sonolenta, senti que me levantava em braços, pareceu-me subir degraus, a cara encostada ao pescoço do Joaquim, peso morto às suas costas. Era ainda noite. Encontro-me agora dentro do carro, atravessamos a cidade, mais longe, cada vez mais longe ruelas e azinhagas, a cabeça zonza, o olhar turvo. Não lembro mais nada.
Acordei de manhã numa casa estranha, pobre, num sítio desconhecido. A porta entreabriu-se, o Joaquim apareceu, logo depois uma mulher idosa entrava com uma chávena de leite na mão.
− É a minha mãe − disse o Joaquim − não tenha medo. Beba, vai fazer-lhe bem.
− Minha Nossa Senhora dos Aflitos − disse a velhinha, olhando para os vergões nos pulsos, com restos de sangue. Já de esponja húmida na mão, preparava-se para esfregar, o Joaquim não deixou.
− Deixe estar assim, mãe, a polícia tem de ver isto. Ora o traste, o grande sacana. E falava sozinho, com cara de poucos amigos e tartamudeava − não fica assim, não…
Dormi o resto do dia, engoli a custo o caldo, que a mãe do Joaquim me deu na boca, e só então me lembrei outra vez do bebé, era preciso comer por causa dele. Quase ao fim da tarde, o Joaquim voltou:
− Agora, vamos à esquadra da Foz. A minha senhora tem de ir lá contar tudo, dizia com voz alterada.
− Digo o quê, Joaquim?
− Diz que o Dr. Amaro a teve presa na cave.
− Na cave? Qual cave?
− Na cave da Clínica.
− Eu nem sabia que a Clínica também funcionava na cave.
− Oh, se funciona − disse ele, entre dentes− a minha senhora vai dizer que o seu marido a teve lá presa, amarrada, que a drogaram.
− Drogaram-me? Então foi isso, eu dormia, via bichos nas paredes, uma aranha prestes a despenhar-se sobre mim, uma sede ardente.
− Drogaram-na e fizeram-lhe muito mal.
− O que é que me fizeram? − E o medo saía em cada sílaba da voz.
O Joaquim rondava dia e noite pela Clínica, conhecia quem entrava e quem saía, estava na posse de muitos segredos.
− O seu marido e aquela filha da puta da fazedora de anjos.
Um calafrio percorreu-me a espinha. Senti um nó no estômago, levei instintivamente as mãos à barriga − o meu filho, mataram o meu filho?
− Fizeram-lhe um desmancho, aqueles cabrões! Aqueles grandes cabrões de merda! E a voz do Joaquim ressumava ódio.
Senti a cabeça a andar à roda, a cama a girar, o tecto a rodopiar, agora é que é o fim, pensei.
− Ai minha Nossa Senhora nos acuda, que ainda nos morre aqui! − clamava a mãe do Joaquim. Ele aproximou-se, sentou-se ao meu lado, segurou-me na mão, encostou a minha cabeça ao seu peito e dizia agora baixinho:
− Chore, minha rica senhora, chore tudo o que tem de chorar. Deite cá para fora esse negrume.
A mãe do Joaquim olhava estarrecida e era agora ela a dar voz à ladainha de imprecações:
− Ora uma destas! O alma do diabo! É o demo, o demo em figura de gente! Quem havia de dizer, um homem tão bem apessoado. Vêem-se caras, não se vêem corações.
O Joaquim ajudou-me a levantar da cama − vamos lá, vamos lá, tem de ser.
Saiu, ficou do lado de fora do quarto, enquanto a velhinha me despia o albornoz que trazia ainda vestido. Num gesto de raiva e nojo atirou com ele para um canto e pegou no saco onde o Joaquim tinha enfiado à pressa a minha roupa e a carteira de pele de crocodilo, que por sorte ainda estava numa cadeira, na cave da Clínica. A minha mão tremia, a velhinha ajudou-me a apertar os botões da blusa amarrotada, passou uma toalha molhada pela minha cara de cera, penteou os meus cabelos desgrenhados, disse − coitada!− quando viu as nódoas negras. Finalmente chamou o Joaquim:
− A senhora está pronta, podem ir. Que Nossa Senhora dos Aflitos a ajude, cá fico a rezar por vocemecê, que bem precisa − dizia, de lágrimas nos olhos.
− Vamos, Joaquim, agora é que é. Vou denunciá-lo por tudo o que me tem feito toda a vida. O que ele fez não tem perdão.
Senti um abalo e um alívio. Alguma coisa muito forte começava a mudar em mim. As antigas lágrimas de medo eram agora de raiva. Uma sensação de calor, uma estranha onda de coragem subia-me no peito. Se o meu marido tivesse aparecido naquele momento à minha frente, e eu tivesse uma pistola na mão, desfechava-lhe um tiro bem no centro da testa, para que daquela cara não sobrasse nada.
− Vamos, Joaquim. Virei-me para a mãe dele e abracei-a:
− Ainda hei-de vir agradecer-lhes tudo o que estão a fazer por mim.
A velhota limpou uma lágrima ao avental, o Joaquim virou a cara para o lado. Escondia os olhos toldados.
− Vamos, Joaquim.
Estacionou o carro nas traseiras da Esquadra. Amparou os meus passos nervosos e, como um fiel cão de guarda, ficou fora da porta, durante o tempo em que estive no gabinete do comissário Paulo. Depois, o polícia mandou-o entrar e confirmou de onde eu vinha e o que ele tinha visto e ouvido. Deixou-lhe o nome e a morada da mãe para o mais que fosse preciso.
− Sr. comissário, chamo-me Sara Dornelas Fróis, quero apresentar queixa contra o meu marido, o Dr. Amaro Fróis, médico, director da Clínica Paradiso, por agressões físicas e violação continuada ao longo de vinte e oito anos.
O comissário Paulo fez um ar de espanto. Reconheceu a senhora elegantemente vestida, com a cara cheia de hematomas e marcas de sangue nos pulsos. Era realmente a esposa do Dr. Amaro Fróis, médico muito conhecido e respeitado na cidade do Porto. Ficou estupefacto. Daquele nunca poderia suspeitar. Tão elegante, tão fino de maneiras. Vinte anos de prática na polícia tinham-no habituado a estas situações. De onde não se espera é que elas vêm.
Sara esteve mais de duas horas no gabinete do comissário. O que este ouviu era de tal ordem gravoso que ali mesmo telefonou à directora da APAV, sabendo da viabilidade de a mandar seguir de imediato para Lisboa. Se ficasse no Porto, o marido iria encontrá-la. Era preciso escondê-la e depressa. Sara seria uma testemunha preciosa.
As investigações prosseguiam e, se tudo o que contou viesse a confirmar-se, um grande escândalo explodiria na pacatez da Invicta .

Antes de entrar no carro do agente que me trouxe aqui para esta casa do Monte da Caparica, abracei o Joaquim com toda a força dos meus fracos braços, beijei-o em cada uma das faces, disse-lhe obrigada do fundo da minha alma e perguntei-lhe:
− E agora, Joaquim, o que vai dizer ao seu patrão?

− Nada, minha senhora. Não digo nada. Deixo-lhe o carro estacionado na garagem da Clínica e aquele filho da puta, com sua licença, nunca mais me bota a vista em cima. — com Teresa Martins Marques e 2 outras pessoas em Foto: Poema de António Ferro, dedicado ao livro "A Mulher que Venceu Don Juan”, de Teresa Martins Marques

A Mulher que Venceu Don Juan, na Fnac

Foto: Que me perdoem as raparigas que acham que o feminismo já não serve para nada. Aquelas que, cultas, sofisticadas e independentes, consideram que é um sinal de inferioridade lutar pelas mulheres indefesas e vítimas de uma sociedade ainda machista e cruel para com as mulheres, não apenas no nosso país, como em todo o mundo. Aquelas que se recusam a comemorar o Dia da Mulher por considerar um sinal de inferioridade do género (talvez não saibam qual o acontecimento trágico que deu origem a essa comemoração). Nós, as auto-confiantes, as independentes, as que tivemos a sorte de ter um futuro, pelas mais variadas razões (boas famílias, acesso a estudos superiores e a bons empregos, etc.) devemos ser conscientes das que não gozaram das facilidades que tivemos e que são vítimas diárias (basta ver, só no nosso país, a estatística brutal de mulheres vítimas de violência doméstica e assassinadas pelos companheiros e ex-companheiros). É por isso que agradeço a Teresa Martins Marques o seu belíssimo livro que, além de um romance muito bem escrito sobre o tema do Don Juanismo, combinando uma erudição fabulosa e que cruza conhecimentos de várias áreas, numa linguagem escorreita e despretensiosa, é um hino de homenagem a essas mulheres corajosas que souberam fintar o seu destino, uma homenagem também ao trabalho inexcedível da APAV, cujo aparecimento tem contribuído para uma viragem na vida de muitas mulheres. Obrigada, Teresa! Corajosa, sempre."A Mulher que Venceu Don Juan" inclui no entrecho ficcional três personagens de fundo donjuanesco. Amaro Fróis, cirurgião plástico, procura nas mulheres a vingança de um passado tenebroso; Manaças, serial lover, recalca uma pulsão proibida; Joana colecciona os namorados das amigas. Os três serão vencidos: o primeiro por uma mulher que subestimou; o segundo pelo verdadeiro objecto do desejo recalcado; a terceira por uma presidiária, cujo companheiro seduziu.A protagonista, Sara Dornelas, escapa à morte e encontra o amor, realizando, pelo estudo, um sonho antigo. Dois seres de eleição, a psicóloga Lúcia e Paulo, comissário da polícia, assumem um papel decisivo no desmantelamento de uma rede tentacular e no castigo dos criminosos, unidos por ignorados laços de sangue.Travejada por diálogos vivos, ora dramáticos ora humorísticos, a acção decorre em múltiplos lugares, potenciando o efeito de real pela intrusão de figuras verídicas que interagem com as personagens ficcionais.Entretanto, Manuela, jovem doutoranda, prima de Doña Juana, prepara em Copenhaga, e defende com sucesso, uma tese sobre o Diário do Sedutor, de Kierkegaard, duplicando, no plano teórico, os meandros do desejo, no plano da acção, e gerando uma atmosfera de suspense até ao último fio da intriga romanesca.

A Mulher que Venceu Don Juan e o Dia da Mulher, por Maria João Cantinho

Foto: Que me perdoem as raparigas que acham que o feminismo já não serve para nada. Aquelas que, cultas, sofisticadas e independentes, consideram que é um sinal de inferioridade lutar pelas mulheres indefesas e vítimas de uma sociedade ainda machista e cruel para com as mulheres, não apenas no nosso país, como em todo o mundo. Aquelas que se recusam a comemorar o Dia da Mulher por considerar um sinal de inferioridade do género (talvez não saibam qual o acontecimento trágico que deu origem a essa comemoração). Nós, as auto-confiantes, as independentes, as que tivemos a sorte de ter um futuro, pelas mais variadas razões (boas famílias, acesso a estudos superiores e a bons empregos, etc.) devemos ser conscientes das que não gozaram das facilidades que tivemos e que são vítimas diárias (basta ver, só no nosso país, a estatística brutal de mulheres vítimas de violência doméstica e assassinadas pelos companheiros e ex-companheiros). É por isso que agradeço a Teresa Martins Marques o seu belíssimo livro que, além de um romance muito bem escrito sobre o tema do Don Juanismo, combinando uma erudição fabulosa e que cruza conhecimentos de várias áreas, numa linguagem escorreita e despretensiosa, é um hino de homenagem a essas mulheres corajosas que souberam fintar o seu destino, uma homenagem também ao trabalho inexcedível da APAV, cujo aparecimento tem contribuído para uma viragem na vida de muitas mulheres. Obrigada, Teresa! Corajosa, sempre.Que me perdoem as raparigas que acham que o feminismo já não serve para nada. Aquelas que, cultas, sofisticadas e independentes, consideram que é um sinal de inferioridade lutar pelas mulheres indefesas e vítimas de uma sociedade ainda machista e cruel para com as mulheres, não apenas no nosso país, como em todo o mundo. Aquelas que se recusam a comemorar o Dia da Mulher por considerar um sinal de inferioridade do género (talvez não saibam qual o acontecimento trágico que deu origem a essa comemoração). Nós, as auto-confiantes, as independentes, as que tivemos a sorte de ter um futuro, pelas mais variadas razões (boas famílias, acesso a estudos superiores e a bons empregos, etc.) devemos ser conscientes das que não gozaram das facilidades que tivemos e que são vítimas diárias (basta ver, só no nosso país, a estatística brutal de mulheres vítimas de violência doméstica e assassinadas pelos companheiros e ex-companheiros). É por isso que agradeço a Teresa Martins Marques o seu belíssimo livro que, além de um romance muito bem escrito sobre o tema do Don Juanismo, combinando uma erudição fabulosa e que cruza conhecimentos de várias áreas, numa linguagem escorreita e despretensiosa, é um hino de homenagem a essas mulheres corajosas que souberam fintar o seu destino, uma homenagem também ao trabalho inexcedível da APAV, cujo aparecimento tem contribuído para uma viragem na vida de muitas mulheres. Obrigada, Teresa! Corajosa, sempre.

Maria João Cantinho

Intervenção da Professora Doutora Adriana Freire Nogueira Tavira ,8 de Fevereiro de 2014.


Intervençao Adriana Nogueira from Leonel Brito on Vimeo.

A Mulher que (Con)Venceu o Leitor, por José Mário Leite


Teresa Martins Marques escreveu e publicou o romance A Mulher que Venceu Don Juan”. Do romance em si, da sua qualidade, elegância e valor literário, outros falaram e irão falar, muito mais qualificados do que eu para o fazerem. Poderia, ao que me toca, manifestar a forma agradável como o li, como apreciei o drama, o suspense, a história, não esquecendo a geografia já que parte do enredo se desenrola em Trás-os-Montes (Vila Real e, sobretudo, na minha freguesia natal, Adeganha, no concelho Torre de Moncorvo).
Do tema em si, tão actual e tão pertinente (a violência doméstica sobre as mulheres), igualmente espero que os especialistas realcem a importância da obra, não só pela denúncia realista e crua, como pelo apelo ao despertar das consciências para tão candente problema ainda dramaticamente presente nos tempos correntes.
O que me faz falar deste romance é sobretudo a forma como foi escrito e, sobretudo, como essa forma o tornou actual e lhe conferiu, sem mais, um dos principais objectivos de qualquer romance, conto, novela, poema ou simples crónica: atrair e chegar aos leitores!
As novas tecnologias vieram revolucionar a forma e o modo como olhamos, vemos, percebemos e nos relacionamos com vários temas, funções, acções e actividades tradicionais. Desde a publicidade, a correspondência, a arte, o relacionamento social, o marketing, a actividade comercial, ao lado de uma infindável lista. São aliás frequentes as “queixas” sobre os “malefícios” que a televisão, no seu tempo e a internet na actualidade trouxeram às actividades tradicionais. O afastamento dos espectadores das salas de teatro e do cinema, o alheamento das crianças das brincadeiras tradicionais de rua e ar livre, o decréscimo da escrita em papel, a diminuição das visitas aos museus e galerias de exposição e igualmente a “natural” diminuição dos leitores de livros. É certo que algumas respostas foram dadas. Os museus passaram a ser interactivos, o cinema trouxe a terceira dimensão para salas múltiplas e polivalentes, inventaram-se novos tipos de jogos na natureza com as tecnologias actuais de GPS, electrónica e realidade virtual e alguns autores passaram a fazer acompanhar as suas obras com CD’s, DVD’s e outros artefactos tecnológicos.
Afinal, no que toca à literatura, Teresa Martins Marques descobriu um verdadeiro ovo de Colombo mostrando que há soluções mais simples e mais eficazes. Tal como no Judo, a melhor forma de vencer um adversário é a habilidade de aproveitar a força dele e o empenho que coloca no seu ataque, para o derrubar redireccionando essa mesma força em nosso proveito.
Se a internet, genericamente, e o facebook, em particular, concorrem com os produtores de literatura, se as conversas em tempo real e em chats “esvaziam” a trama e o mistério dos romances, se as viagens virtuais trazem o realismo para os viajantes virtuais em desfavor dos escritores e descritores de paisagens e ambientes, então use-se a internet e o facebook, pessoas reais e incentivem-se os leitores a descreverem e municiarem o autor de paisagens, ambientes e descrições realistas e com as vivências que nenhum visitante, por mais experimentado, algumas vez poderá sozinho ou com pequena ajuda adquirir.
Ora bem, se a autora assim (e muito bem) o pensou, melhor o fez. O seu livro foi sendo escrito no facebook, acompanhado de perto e atentamente por uma plêiade de leitores interessados e intervenientes. O enredo tem de ir ao Algarve? Sejam então os leitores de Tavira os olhos, os ouvidos e todos os outros sentidos da Teresa que trarão para o livro as descrições sentidas e pormenorizadas das deambulações pela Veneza algarvia. É preciso ir a Trás-os-Montes. A Vila Real, a Moncorvo? Serão os transmontanos a conduzir essa viagem.
Mas não só. É sabido que muitos autores têm largas conversas e mantêm aconselhamento técnico com os especialistas das matérias que não dominam. Teresa Martins Marques foi mais longe! Se a personagem que inventou vai ter de se relacionar com um professor de literatura, com um agente da polícia ou com um dirigente da APAV, então porque não direccioná-lo directamente com as pessoas reais que Teresa conhece e chamá-los para o enredo directamente “obrigando-os” a responder aos desafios reais que a ficção lhes coloca?
O resultado foi o interesse imediato que a obra despertou, pois os leitores já estão conquistados como bem o demonstrou a sala cheia da Livraria Ferin onde foi apresentado, onde muitos deles eram leitores/autores/actores.

José Mário Leite (Director Adjunto do Instituto Gulbenkian de Ciência)

in Jornal Nordeste, 25 de Fevereiro de 2014, pág.2.

A Mulher que venceu Don Juan, na Livraria Ferin

Julieta Monginho e "A mulher que venceu Don Juan"

Teresa Martins Marques sabe contar a história, e sabe recontá-la a partir de um ponto de vista vigorosamente novo.
Julieta Monginho
10:52 Sexta feira, 24 de Janeiro de 2014

Escolha o leitor uma larga tarde, como aquelas em que deixávamos um filme por ver para ir ao facebook à procura do capítulo semanal do folhetim. Venha o leitor masculino com o desconforto de quem entra em terreno movediço. Sabendo de antemão que há-de ser uma mulher a vencedora do confronto, o triunfo que lhe resta consiste em não se identificar com o vencido Don Juan, o predador, aquele que destrói o outro para sobreviver ao combate que trava consigo próprio e com a sua imagem, personificação de vários tipos que, no seu grau mais virulento, se torna um "serial killer dos afectos", nas palavras da narradora.
Nesta viagem de rigor e aventura, não tenha o leitor medo de se marear, mesmo quando subir para uma embarcação ao sul. Há-de saltar da beleza para o horror no mesmo parágrafo, tal como na vida. Há-de encontrar nas paisagens deslumbrantes o palco dos actos mais atrozes. Contrastes, dicotomias: entre força e fraqueza, entre realidade e aparência, entre liberdade e escravidão. A autora sabe ao que vem, trata de definir os campos em confronto. De um lado as personagens que sabem amar: Sara, a quem ao nascer todas as graças foram dadas. Bela, rica, bondosa, culta e ingénua, caindo na rede de um sedutor. Luís, o professor brilhante e ingénuo, também ele vítima de uma Doña Juana. Lúcia, a psicóloga de passado misterioso, anjo da guarda das mulheres em fuga. Manuela, a jovem que escapa à condição de vítima e se entrega ao estudo do Diário do Sedutor, de Kierkegaard, defendendo uma tese, intitulada "Retórica Amorosa de Don Juan. Sombras da Sedução", destinada a entender a origem profunda do donjuanismo. Da qual, apesar da persistência da dúvida filosófica, emerge uma ideia-força principal: Don Juan não ama as mulheres que conquista em série, através da arte da palavra: Amaro, cirurgião plástico, o mais odioso biltre; Joana, também ela fazendo vida da aparência, o correspondente feminino de Don Juan, no que constitui uma das especificidades mais interessantes do romance; Manaças, um  falhado, através de quem se  descrevem os métodos de sedução, num diálogo que evoca a conversa entre Don Juan Tenorio e Don Luís,  em  Don Juan Tenorio, de Zorrilla (1844).   
O amor romântico não se opõe ao amor erótico, antes o integra como bênção fruída. O confronto dá-se com o amor assimétrico, baseado em relações de poder, o que redunda na negação do próprio amor. Afirma-se, isso sim, a crença na durabilidade da relação baseada no respeito, na liberdade, na doação. Nas palavras da narradora "amar é um verbo transitivo". Um verbo que pede um complemento, um alguém que é outro em si, prolongando a alteridade no novo ente relacional. Uma nova entidade que, não sendo simbiótica, transcende a mera soma aritmética. O amado integra-se neste novo ser, proposto e esculpido pelo amor.
 No ensinamento que a autora nos deixa, um dos ingredientes do amor assimétrico, ou seja da negação do amor, é a ausência de liberdade, por oposição à sua presença no amor verdadeiro. Este preceito - só há amor em liberdade - é repetido ao longo do texto como um refrão, uma ideia que Sara repete para não claudicar, que todas as Saras devem pôr em prática para não perecerem. A liberdade e, acima de tudo, a lucidez da liberdade, não pode sucumbir perante a ilusão do amor idealizado. Esta afirmação de liberdade, contra as relações baseadas no domínio de um sobre o outro, estende-se ao laço filial, o que liga Lúcia à sua filha Joana. A autora aborda este laço por um ângulo pouco visitado na literatura, o da inversão dos papéis tradicionais de autoridade e tirania, como se desta feita fossem os filhos a engolir Cronos. De certo modo prolonga o questionar do instinto maternal, na senda, por exemplo, de Elisabete Badinter, na sua obra significativamente intitulada L'Amour en Plus, traduzido e publicado em português com o título O Amor Incerto. Este romance assume o propósito do que costuma chamar-se o empowerment da mulher, por oposição à sua nulificação. A começar pelas companheiras da Casa Abrigo, cada uma delas com o seu dote próprio, especialmente o de Maria para a cozinha, não importando a sua origem, aliás heterogénea. Ao ler as passagens em que convivem, numa leveza recém-adquirida, apetece-nos aplaudi-las, a elas e a quem, através das associações que as apoiam, no caso deste livro a APAV. A diversidade de origens das mulheres que habitam a Casa Abrigo serve à autora de pretexto, como tantos outros, para viajar através da riqueza cultural do país, de Trás-os-Montes ao Algarve, demonstrando que este território construído está inscrito num mapa inapagável, que a crise morde, mas não vence.
 Neste romance-ensaio muito terá a aprender sobre o amor, mas também sobre história, arquitectura, criminologia, sexo, música, gastronomia, língua dinamarquesa, pintura, cinema, automóveis, psicoterapias e organização doméstica. O folhetim e o livro são duas obras distintas, na estrutura, na consistência, no pacto narrativo. Ficou também um romance cuja ligação a quem lê não se esgota no acto da leitura. Não é Sara quem vence Amaro ou Luís quem vence Joana. No dia em que perdem o medo, deixam, simplesmente, de os alimentar, libertando-se do jogo em que, pelo temor e pela aceitação do sofrimento, tinham participado. Don Juan é vencido pela sua própria incapacidade de escolher. A autora será uma das raras mulheres, que ousaram abordar directamente a figura de Don Juan, aparecida em El Burlador de Sevilla (1630), depois de Zorrilla, Cervantes, Goldoni, Lorenzo da Ponte - o autor do libreto de Don Giovanni, a célebre ópera de Mozart - Balzac, Byron, Pushkin, Dumas, Baudelaire, António Patrício, Saramago, Almeida Faria. E todo o resto da vasta bibliografia oferecida pelo texto. "Vês, vês, eu também sei contar a história", diz Sara à criada/ama, no doce tempo da infância. Sim, Teresa Martins Marques sabe contar a história, e sabe recontá-la a partir de um ponto de vista vigorosamente novo.     

Ler mais: http://visao.sapo.pt/a-mulher-que-venceu-don-juan=f766249#ixzz2yo3Rh0Hl

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UM SEGREDO QUE NUNCA VOS TINHA CONTADO

Foto: UM SEGREDO QUE NUNCA VOS TINHA CONTADO:
Como é que tive a ideia de escrever "A Mulher que Venceu Don Juan"?

Num domingo de Agosto de 2012, recebi um telefonema de uma querida amiga dizendo que precisava urgentemente de falar comigo. A voz dela traduzia uma profunda angústia. Ela estava fora de Lisboa e eu também. Pegou no carro e fez a viagem até à localidade onde me encontrava. 
É uma jovem mulher, inteligente, bonita e culta. Tinha acabado de fazer 45 anos. O presente de aniversário que o marido lhe ofereceu foi uma terrível ameaça: A ameaça de a atirar para o fundo de uma barragem que existe ali perto.
Ela soube vencer o medo, e enfrentou a situação fazendo o que tinha a fazer, para se salvar.
Nesse dia e em homenagem a ela (a quem nunca contei nada disto) resolvi que era preciso dar voz às vítimas de violência doméstica. 
Por isso Sara tem 45 anos. A idade dessa minha amiga. É até possível que ela leia isto que estou a escrever. Se o ler, será uma enorme surpresa para ela.
Mesmo tendo eu inventado a vida de Sara, que é diferente da vida dessa minha amiga, tudo isto tem uma motivação concreta.
Romance da vida real. Romance de homenagem às vítimas reais que sofrem em silêncio.

Teresa Martins Marques
Como é que tive a ideia de escrever "A Mulher que Venceu Don Juan"?


Num domingo de Agosto de 2012, recebi um telefonema de uma querida amiga dizendo que precisava urgentemente de falar comigo. A voz dela traduzia uma profunda angústia. Ela estava fora de Lisboa e eu também. Pegou no carro e fez a viagem até à localidade onde me encontrava.
É uma jovem mulher, inteligente, bonita e culta. Tinha acabado de fazer 45 anos. O presente de aniversário que o marido lhe ofereceu foi uma terrível ameaça: A ameaça de a atirar para o fundo de uma barragem que existe ali perto.
Ela soube vencer o medo, e enfrentou a situação fazendo o que tinha a fazer, para se salvar.
Nesse dia e em homenagem a ela (a quem nunca contei nada disto) resolvi que era preciso dar voz às vítimas de violência doméstica.
Por isso Sara tem 45 anos. A idade dessa minha amiga. É até possível que ela leia isto que estou a escrever. Se o ler, será uma enorme surpresa para ela.
Mesmo tendo eu inventado a vida de Sara, que é diferente da vida dessa minha amiga, tudo isto tem uma motivação concreta.
Romance da vida real. Romance de homenagem às vítimas reais que sofrem em silêncio.

Teresa Martins Marques